Caleidoscópio urbano

O grafite de Dri-K Chagas comprova que a arte pode estar nas mais diversas manifestações

29/09/2011 15:16 / Por: Por Michelli Almeida/ Fotos Diego Ventura
Caleidoscópio urbano

 

 

 

 

 

É fácil encontrar na intrincada rota visual da artista plástica Dri-K Chagas os personagens que povoam sua obra e fazem parte do imaginário coletivo de uma cultura rica e cheia de nuanças. Com a “Cidade Labirinto”, instalação aberta mês passado e que pode ser visitada até o fim de setembro, ela mescla técnicas para destacar, com o uso do grafite, um roteiro de becos e vielas que promovem uma sensibilização coletiva acerca da realidade da periferia belenense. É a consagração, ao olhar crítico do público formador de opinião, daqueles que representama margem da sociedade.

Dri-K – que há cerca de dois anos começou a levar sua arte para dentro de casas e apartamentos, numa proposta inovadora de decoração de interiores – propõe uma verdadeira reflexão que nos leva ao íntimo de personagens que estão, ao mesmo tempo, tão próximos e tão distantes de nosso cotidiano. É uma viagem pelo interior da metrópole e daqueles que a habitam, retratando o alter ego de personagens marginalizados. São cidadãos invisíveis que a artista faz questão de trazer à tona para demonstrar, por meio de sua arte, o outro lado da rua, o soturno, o rotineiro, o perfil dos que estão fora da grande máquina do sistema.

A artista – cujo traço começa a ultrapassar fronteiras – revela seu olhar sensível que, mais tarde, vai se transformar em arte. “A Cidade Labirinto tem entradas e saídas com cenas e personagens dos mais diversos. Eu mesma, que circulo por bairros das redondezas da Cidade Velha, como Cremação e Jurunas, já vivenciei a experiência de entrar e sair em umarua por onde nunca passei e ver pessoas com as quais nunca tive contato – o que me marca muito. Essas experiências me levam a fazer microrregistros e guardá-los em minha memória fotográfica”, aduz.

A mostra “Cidade Labirinto”, portanto, é isso. São várias cenas pontuais da cidade. “No espaço, tentodemonstrar como o cidadão, morador ou não, entra pelas ruas e não sabe qual será o seu destino”, revela Dri-K, que, este ano, também participa da Casa Cor Pará, fazendo, no estande da Leal Moreira, uma intervenção em grafite em um painel de doze metros de comprimento por dois metros de altura. “Neste trabalho ,o estilo da arte urbana aparece bem explorado com personagens caricatos, cores marcantes e um estilo um pouco pessoal, envolvendo a técnica do Stencil”, descreve.

A mostra “Cidade Labirinto” pode ser vista até 25 de setembro, diariamente, no horário das 10 às 21 horas, no Centro Cultural Sesc Boulevard, que fica no Boulevard Castilho França, 522/ 523. Mais informações podem ser encontradas no blog https://sescboulevard.blogspot.comou pelos telefones (91) 3224-5654/ 5305. Veja abaixo a conversa que a Revista Leal Moreira teve com a artista, durante a montagem da instalação.

Qual a primeira impressão do visitante ao encarar a “Cidade Labirinto”?

A porta de entrada da “Cidade Labirinto” é o Ver-o-Peso, com seus pescadores, bombomzeiros, o vendedor desalgados, bicicletas de som, enfim, personagens que passam despercebidos na confusão do dia-a-dia, e mais uma imensidade de elementos que dão forma à diversidade humanaque compõe omercado.

Que outros elementos interagem com a instalação além dos grafites?

No grafite do moleque com o estilingue, faço um link direto com o vídeo que é exposto durante a mostra, só que com uma outra leitura. São expostos mais dois vídeos, um feito próximo ao tradicional Bar do Rubão e outro gravado na avenida 16 de Novembro, ambos sobre o processo do grafite como arte urbana.

Como estão dispostos os cenários e os personagens da “Cidade Labirinto”?

Os casebres, as santas e o manto de Nossa Senhora de Nazaré estão ali como referência às minhas lembranças de artista e de boa parte dos moradores de Belém.A Senhora do manto é inspirada na minha avó, que faz parte desses grupos que ficam na primeira fileira e frequentam a igreja religiosamente todo domingo. Próximo à Senhora de renda branca, tem uma erveira, inspirada numa mulher que vi no ponto de ônibus e guardei na memória, pensando quem poderia ser aquela pessoa. Seria uma mãe de santo? Uma benzedeira? A ideia é brincarde desvendar a mente humana em um relance de olhar.

Você faz uma representação dos ribeirinhos em espaço dedicado à Vila da Barca. Como eles são apresentados?

Os ribeirinhos estão bem representados pelo espaço que remete àVila da Barca e suas palafitas, povoadas por lavadeiras que,entre uma roupa e outra, conversam entre si em suas realidades periféricas. A privacidade, nesse caso, é divididaapenas por pequenas muretas ou cercas de arame farpado.

Como você retrata a realidade e o alter ego desses personagens que habitam a “Cidade Labirinto”?

A tristeza presente nos rostos dos personagens anônimos atraiminha atenção. Équando as pessoas param e pensam na vida, num exercício de reflexão contínuo. É um sentimento visual que capto de olhar e refletir sobre o que move as pessoas. Já ministreioficinas de grafite e desenho para crianças da Cremação, Benguí e Tapanã. Algumas expressões faciais e físicas inexplicáveis nunca saíram da minha cabeça. Uma pergunta feita por eles, um olhar. É isso que procuro registrar aqui.

Numa comparação da “Cidade Labirinto” com a Belém atual, como você define a geografia interior de sua obra?

A “Cidade Labirinto” tem entradas e saídas com cenas e personagens dos mais diversos. Eu mesma, que circulo por bairros das redondezas da Cidade Velha, como Cremação e Jurunas, já vivenciei a experiência de entrar e sair em umarua por onde nunca passei e ver pessoas com as quais nunca tive contato. Essas experiências me levam a fazer microrregistros e guardá-los em minha memória fotográfica, para serem apresentados em ocasiões como a mostra “Cidade Labirinto”. São várias cenas pontuais da cidade. No espaço, tentodemonstrar como o cidadão, morador ou não, entra pelas ruas e não sabe qual será o seu destino.

Que tipo de reflexão sugere a “Cidade Labirinto”?

Ao criar num ambiente expositivo o que normalmente se apresenta em espaços públicos, busco proporcionar ao espectador uma reflexão sobre a ocupação e o desenvolvimento espacial que a cidade sofre e o processo de “construção visual” que vem redesenhando nosso olhar. Para isso, aexposição se apresenta como um labirinto, por onde os visitantes poderão fluir, deparando-se com trabalhos em variados suportes que reproduzem os ambientes das ruas e baixadas. A partir da transposição da periferia para dentro da galeria, é possível vivenciar um choque de realidades que, embora dramático, tem seu tom de poesia.

Algumas pessoas costumam identificar esse tipo de instalação com obras d’Os Gêmeos (grafiteiros brasileiros reconhecidos mundialmente) ou obras como os famosos “Penetráveis”, do tropicalista Hélio Oiticica. Como você lida com essas comparações?

Muitas pessoas já fizeram essa pergunta, mas não pensei no Oiticica na hora de conceber minhas obras. Tudo foi mais pensado nos bairros que circundam a Cidade Velha mesmo, localidades onde costumo conviver bastante.

Para você, como se dá esse processo de inserção do grafite – até pouco tempo tido apenas como arte de rua – em galerias de arte e museus?

O fato de o grafite ganhar reconhecimento artístico e alcançar as galerias é uma grande conquista. Há poucos anos, a prática era marginalizada e tida apenas como arte de rua.Hoje exerce ambas as funções: a de interagir com as pessoas que passam no ônibus e no carro, e com o pedestre e os apreciadores de arte em ambientes expositivos. No eixo Rio-São Paulo o movimento já é mais intenso. O que antes era visto como vandalismo hoje é tido como arte, cuja tela são os prédios, muros e paredes. A moldura é o próprio espaço urbano. Apesar de grafiteiros paulistas como Speto e Zezão começarem a ter conhecimento do movimento grafiteiro de Belém, não existe conexão física de troca de trabalho, o contato ainda é muito virtual, e o processo, lento. Já fiz trabalhos com o grupo paraense Cosp Tinta. O mais recente foi em homenagem ao Dia Nacional do Grafite (27 de março), em comemoração à morte do pioneiro do grafite no Brasil, Alex Vallauri. A obra fica num muro da avenida Visconde de Souza Franco, esquina com a Rua Gaspar Viana.

Como tem sido a experiência de trabalhar em interiores de casas e apartamentos?

Do ano passado para cá as pessoas têm procurado o grafite para dar um tom mais contemporâneo e personalizado às suas casas. Venho há dois anos desenvolvendo trabalhos em interiores de casas e apartamentos, com a proposta de intervenção do grafite. Com isso, vejo um  reconhecimento muito positivo para a produção do grafite em Belém, que veio se consolidar mais ainda com a consagração da técnica enquanto arte neste ano. Essa produção se torna interessante pelo fato de que cada cliente tem seu grafite personalizado, produzindo algo único e contemporâneo. Há ainda a possibilidade de interação do grafite com alguns objetos da casa.

Você participa da Casa Cor Pará este ano, grafitando o estande da Construtora Leal Moreira. Como se dará essa intervenção?

Minha participação no Casa Cor será com uma intervenção em grafite, na composição de um painel de doze metros de comprimento por dois metros de altura. O estilo da arte urbana será bem explorado com personagens caricatos, cores marcantes e um estilo um pouco pessoal, envolvendo a técnica do Stencil.

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