"O próximo passo é um longa"

Premiado no Festival de Cinema de Brasília pela produção do curta "Matinta", cineasta paraense Fernando Segtowick já planeja o próximo passo na carreira

05/01/2011 16:27 / Por: Luiza Cabral / Fotos Luiza Cavalcante / Marcelo Lélis

 

 Das histórias que ouvia na infância, Fernando Segtowick buscou inspiração para a criação de "Matinta"

 

A história que a mãe contava assustava o menino, mas também o fascinava. Ele, de olhos esbugalhados, ouvia com muito atenção os contornos de um caso que todos do município de Bragança garantiam ser reais. Um homem que, após trair a esposa com uma mulher misteriosa – na verdade, a lendária Matinta Perera -, caiu em doença e faleceu por ter negado o romance com a amante. A história ficou na cabeça do menino. Tanto que mais de três décadas depois, ele produziu um filme sobre a enigmática figura do imaginário amazônico, que faz ecoarem sopros de apito de dentro da mata e assombra as comunidades que vivem no entorno da floresta.

A paixão pelas histórias contadas pela mãe já indicavam uma predileção ao universo fantástico do cinema. Fernando Segtowick, hoje com 39 anos, é um exemplo de aficcionado pela sétima arte que desde cedo já atribuía aos seus sonhos imagem, som e movimento. Diretor por hobbie, jornalista por profissão, ele tem no currículo cinco filmes lançados, todos curta-metragens. O último, fruto de um resgate da memória que permeia sua infância, cujo titulo é “Matinta”, ganhou dois prêmios - melhor som e melhor atriz - no Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, um dos mais antigos e conceituados do país. Adulto, Fernando se apoderou da representatividade de Matinta, mas agora com o olhar cinematográfico, e lançou para o país o peso de uma das maiores lendas da região, que ganha corpo e voz na interpretação da atriz Dira Paes.

Confira a entrevista que o cineasta paraense concedeu ao site da Revista Leal Moreira no aconchego de sua casa – num tempinho encontrado entre as mil coisas que precisava fazer antes de uma viagem, que, desta vez, não será para a premiação de nenhum festival, mas sim para aliviar a cabeça.

Conta como foi o processo de construção do seu último trabalho, o curta “Matinta”.
 
As filmagens aconteceram entre setembro e outubro de 2009, com o envolvimento de mais de 30 técnicos do Pará, Rio de Janeiro e São Paulo. Fizemos a captação de imagem em super 16mm, que depois foi ampliada para 35 milímetros. Em 2010, foi feito todo o trabalho de pós-produção, com montagem feita em Belém na Cabocla Produções, da cineasta Jorane Castro. Foram filmados aproximadamente 150 minutos, que foram condensados em 20 minutos da versão final. Tivemos duas locações: no Utinga e na Ilha de Mosqueiro, com a comunidade Caruaru.

O Festival de Brasília foi o primeiro lugar para onde você enviou o “Matinta” para avaliação e de cara vieram dois prêmios. Ser exibido pela primeira vez neste festival era uma vontade?

O “Matinta” ficou pronto um pouco antes de terminar o prazo de inscrição para o Festival de Brasília. Isso foi, na verdade, uma feliz coincidência. Claro que eu tinha interesse em conseguir passar na seleção de um grande festival como este, mas não cheguei a segurar o filme só para conseguir a aprovação. O que aconteceu é que quando estávamos finalizando o curta resolvemos enviar para Brasília. O filme foi aprovado e só depois entregamos a versão pronta. Os prêmios só consagraram a realização de um sonho: o de ter uma obra exibida em um festival que é conhecido por ter lançado diversos filmes pontuais do cinema brasileiro.
 
Acompanhando o blog que descreve cada etapa do processo de produção do “Matinta” (matinta.wordpress.com) dá para perceber os cuidados que a equipe teve com a sonorização do filme, uma das premiações do Festival de Brasília...

A lenda da Matinta é mais associada ao som que ela faz com um apito do que à imagem dela, que é algo que nunca foi definido. Isso teve influência decisiva quando partimos para o momento de sonorizar o curta. O poder da figura da Matinta sobre as pessoas tem muito a ver com os sons emitidos por ela e pela floresta no momento de sua aparição. E o filme é um suspense, estilo em que o som é primordial para causar as sensações desejadas. Como tínhamos tudo isso em mente, escolhemos um estúdio de São Paulo, que inclusive foi responsável pela sonorização do meu primeiro filme, o “Dias”, que faz um trabalho que eu admiro e já conhecia bem. Conseguimos aplicar técnicas interessantes como, por exemplo, os sons dos pássaros que são feitos a partir da voz da Dira. O resultado taí no prêmio e também na crítica do público.

E trabalhar com a Dira Paes... Vocês já tinham feito algo juntos? Como é dirigi-la?

A Dira é uma atriz extremamente participativa e que não se comporta como uma estrela. É fantástico ter alguém com uma bagagem tão pesada se mostrando tão solícita no processo de construção de um filme como um todo. A gente já se cruzava por festivais de cinema e, claro, como somos paraenses, aquilo nos unia de alguma forma. Tínhamos vontade de fazer algo juntos e algo que fizesse uma referência direta às nossas origens.

Um bom elenco, uma boa estrutura para garantir uma sonorização excelente e imagens de impacto. Tudo isso custa dinheiro e você conseguiu por meio de editais e de patrocínio. Afinal, como é administrar o trabalho conduzido por esta lógica, levando em consideração principalmente o contexto paraense?

Fazer cinema não é fácil nem aqui e nem em nenhum outro lugar. Descobri isso quando estudei Cinema nos Estados Unidos. Tanto lá, como no Rio de Janeiro, como em Belém não existem investimentos suficientes para cobrir a produção cinematográfica, que realmente requer recursos em gordos. Normalmente você tem que pensar no que dá pra fazer e não no que você quer fazer. Mas eu não faço disso um drama. Acho que quem tem vontade de fazer cinema tem que se apoderar de iniciativas como as de leis de incentivo e de editais para produzir. É uma verba que vem fatiada, mas que dá sim para garantir a finalização de um filme. O que eu acho que falta reconhecimento dos esforços para se fazer cinema e também da movimentação que uma produção cinematográfica gera. Investir em filmes significa propaganda para o Estado e para as empresas. Requer investimentos e gera dinheiro.

Como surgiu o interesse em contar a história de Matinta? O que o fez perceber que esta lenda daria um filme?

Cresci ouvindo as histórias da Matinta. Minha mãe é de Bragança e por lá sempre rolavam alguns casos com esta figura lendária. Como cineasta, eu realmente acho que tenho o dever de me apropriar de elementos que remetem a nossa região para criar a fantasia cinematográfica. Submeter esta história ao olhar daqueles que não conhecem os pormenores da nossa cultura é um prazer. E lendas rendem boas narrativas. São histórias de suspense. Não têm explicação nem contornos precisos: ótimos ingredientes para um bom filme.

Mas a história que você conta no filme se difere em alguns pontos da tradicional...

Então, eu optei por usar a lenda da Matinta com uma outra roupagem. A diferença maior está na imagem da própria personagem. No imaginário popular a Matinta assume a forma de uma velha feiticeira. No filme, ela é uma mulher sensual e bonita. Além disso, eu não quis que a Matinta ganhasse ar de visagem. A ideia é que  o filme passe como seria se ela realmente existisse e pudesse, de fato, ser um perigo para as comunidades amazônidas. E isso que eu me propus a fazer não se difere em nada de filmes recentemente lançados, e de grande sucesso, que usam vampiros, por exemplo.

Você já dirigiu cinco filmes e eles não se assemelham por estilo. Como você se enxerga no conjunto da sua obra?

Eu não saberia me classificar pela minha produção. Primeiro eu fiz o “Dias” e logo depois fiz “Dezembro”, ambos de ficção e com um ritmo mais urbano, depois fiz dois documentários – “Imagens Cruzadas” e “Jovens, Tefé, AM” -  e voltei para a ficção no "Matinta", que já vem com um tom regionalista por ter como fio condutor uma lenda amazônica. Mas eu tenho características que permeiam todos os filmes, como um certo apreço pela velocidade, por planos acelerados. Eu gosto de contar histórias e que esse ato tenha uma dinâmica envolvente. O que eu visualizo no meu último trabalho é uma vontade de produzir cinema de verdade, com toda a grandiosidade que uma produção cinematográfica, com som, cenário e figuro aprimorado, por exemplo, exige. O próximo passo é um longa-metragem.

O que você tem curtido de cinema?

Fui muito menos ao cinema do que deveria no ano passado, por causa do Matinta. Sou muito cinéfilo, inclusive integro a Associação De Críticos de Cinema do Pará (accpara.blogspot.com). Gosto muito do Quentin Tarantino, “Prova de Morte” pra mim é o melhor filme do ano, gosto da assinatura dele. Nos festivais tenho visto muitas experimentações que me agradaram. Agora devo dizer que um filme que me impressionou bastante  foi “Serras da desordem”, de André Tonaccii, que faz uma mistura entre documentário e ficção que me agrada muito. Infelizmente esses filmes que circulam nos festivais quase não chegam a Belém, já que aqui não temos festivais – o que se configura numa carência que precisa ser resolvida, pois são os festivais que fazem a cena se movimentar.

O que move você como cineasta?

Sou apaixonado por cinema, pelo ritual: entrar na sala de exibição e viver uma história que não é sua, mas que se torna durante aquelas duas horas, ou então trinta minutos. O que me move, definitivamente, não é o dinheiro. É o prazer de contar uma história. É uma coisa que me domina, não sei nem explicar direito. Agora, depois desta experiência fantástica de fazer o Matinta, quero ingressar de vez neste universo com o meu primeiro longa-metragem, que, inclusive, já estou trabalhando na construção da ideia e que, assim como o Matinta, deve trazer para o cinema brasileiro outros elementos da cultura nortista, seja representações tradicionais ou modernas. É isso, não consigo parar de pensar em cinema.

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