Outras ligações

Cheios de aplicativos e funções, os smartphones fazem muito mais do que ligar e viram objeto de desejo.

15/05/2013 18:23 / Por: Bruna Valle
Outras ligações

Eles estão por toda parte: nas mesas de restaurante, nas conversas entre amigos, nos engarrafamentos... É possível que, enquanto você lê esse texto, alguém do seu lado esteja com um smartphone na mão, atualizando-se com as novidades da internet. Talvez você mesmo, caro leitor, esteja nos lendo por meio de seu aparelho multifuncional. Objeto de desejo dos consumidores, os celulares de hoje reúnem jogos, mídias sociais, dispositivos multimídia, aplicativos que vão de tratamento de imagem até conselhos sobre como ter uma alimentação saudável - e isso já não é exatamente novo. O fato é que os celulares multifuncionais são não apenas uma realidade de mercado, mas uma realidade social.

Um pequeno histórico

Quem vê os celulares produzidos na atualidade – e a maneira como as pessoas se relacionam com eles – não imagina que ele já fez apenas ligações, não tinha tela colorida e tinha peso e tamanhos que dificultavam e muito sua utilização. Projetado com o objetivo de fazer a comunicação sem fio, os celulares começaram bem diferentes do que temos hoje. Além de grandes, pesados e com uma bateria que não durava muito, os itens não tinham um design muito atraente na época em que os primeiros projetos se tornaram realidade.

Em 1973, foi apresentado o primeiro celular portátil, o Dyna TAC da empresa Motorola. Na mesma época também foi realizada a primeira chamada de um telefone móvel, de um dispositivo que pesava mais de um quilo e só ficaria disponível para comercialização dez anos depois – e mesmo assim por um valor ainda bem longe do poder aquisitivo da maioria da população. Só em 1989 é que a Motorola começou a produzir um aparelho mais acessível em tamanho e peso. Esse foi o pontapé inicial para os aparelhos celulares começarem a ser produzidos a todo vapor.

A correria por um bem de consumo melhor e mais sofisticado – e com funções muito amis complexas que a de telefonar – foi se tornando um dos maiores motivadores para o desenvolvimento e exploração de tecnologias pelas empresas de telefonia móvel. Em 1997 é que os aparelhos começaram a ser produzidos em larga escala e assim foram ficando com um custo menor – até mesmo em relação aos serviços, com a opção de plano pré-pago onde os clientes poderiam decidir quanto podiam gastar com as operadoras.


Em 1999, começou a produção em larga escala dos smartphones. O modelo 7110 da Nokia foi o primeiro telefone celular com Wireless Application Protocol (WAP), que possibilitava o acesso à internet sem o auxílio de fios. Além de sua função básica de comunicação, o novo modelo de telefone móvel já prometia reunir as mais diversas atividades em um só aparelho. Mas nem se imaginava que eles seriam o que são atualmente.

Mil e uma utilidades

Com a diversificada serventia do celular – que passou a assumir várias funções no cotidiano das pessoas – o aparelho acabou se tornando muito mais que mero meio comunicacional. Transformaram-se em centro das atenções, até mesmo imprescindíveis para uma boa parcela dos usuários. O site da Revista Leal Moreira conversou com algumas dessas pessoas que não desgrudam olhos e dedos das telinhas de telefone.

A jornalista Gabriela Azevedo faz parte desse grupo. Ela confessa que não vive sem o celular por perto, e que o aparelho é parte essencial do seu dia a dia.  O apego pelo smartphone é tanto que, se ele descarrega, Gabriela tenta reverter o “isolamento” imediatamente. “Se tô na rua e minha bateria começa a dar sinais de que vai acabar, procuro uma tomada. Se não vou ter uma tomada, quero ir pra onde tenha”, diz. E aproveita para exemplificar: “uma vez, estava em um café de uma farmácia famosa de Belém e meu telefone descarregou. Procurei uma tomada e não tinha. Pedi pra um atendente deixar carregando na vitrine de eletrônicos, e ele deixou”.

 A jornalista explica que as muitas funções do celular, com suas opções de conexões e interações via internet, encurtam o tempo e facilitam o trabalho na comunicação em vários sentidos. “Resolvo boa parte da minha vida profissional pelo celular. Não espero, não deixo pra depois. Se chegar um e-mail, vou ler na hora”. Por outro lado, ela admite que perde o foco em algumas situações, e prioriza as demandas enviadas via celular em detrimento das presenciais. “Às vezes, quando vou jantar com os amigos e alguém fala comigo pelo ‘whatsapp’, vou responder e acabo iniciando uma conversa pelo aplicativo, o que atrapalha a minha conversa com o resto da turma que tá do meu lado”, reconhece ela, que tenta acalmar as reclamações dos presentes com variações de “já vai, é rapidinho”.

Gabriela comenta ainda que já teve até pesadelos por não ter conexão com a internet no celular: “tive pesadelos com isso, das duas vezes que tive problema de conexão e fiquei mais de um dia sem acesso, dormi mal pra caramba. Sonhava que recebia e-mails e tinha coisas pra resolver, mas não conseguia porque não tinha visto o e-mail”.

A estudante de design Amanda Monteiro descreve sua relação com o celular como inseparável: “vivo com ele, minha professora já até confiscou (risos). Aí fiquei bolando planos pra recuperá-lo, sendo que eu só passaria uma hora longe dele. Se acaba a bateria, então, me sinto perdida”, revela.  Mas também destaca uma mudança de comportamento: “eu melhorei, quando me chamaram atenção percebi que estava exagerando na dose”.

O cineasta Rodolfo Mendonça também acredita que é impossível não ficar um tempo considerável no celular, sobretudo pela possibilidade de ter a internet sempre à mão. “Hoje em dia o celular virou tipo um ‘tudo em um’. É tudo que um aficionado por internet, tecnologia e afins gosta”, explicou. Ele assume que, vez ou outra, perde algumas coisas que estão acontecendo no momento em função do celular – e os mais próximos não ficam nada satisfeitos. “Geralmente, quando eu recebo uma mensagem eu paro de conversar pra olhar, às vezes eu me perco na conversa e algumas pessoas se ofendem. A minha namorada sempre reclama”. Mas, diferente de Gabriela e Amanda, Rodolfo não liga se a bateria acaba. Segundo ele a sensação pode ser inclusive tranquilizadora. “É até um momento de paz”, afirma. Embora tenha uma postura mais contida no uso do aparelho, os momentos em que ficou muito conectado no telefone móvel lhe renderam o rótulo de aficionado. “Eu acho que é excessivo e às vezes as pessoas exageram. Já tive picos de uso. Agora, por exemplo, eu não estou mais tão envolvido com o celular. Mas, como eu já estou ‘rotulado’ com isso, toda vez que eu estou no celular alguém acha que eu tô ‘no vicio’”, conta.

Essas situações vividas por personagens da vida real são o que a mestre em psicologia e Gestalt-terapeuta Kamilly Vale caracteriza como uma contradição – o máximo de comunicação em alta velocidade afastando o contato físico do cotidiano. “Atualmente, vivemos um paradoxo: a era tecnológica nos oferece a possibilidade de uma rapidez na comunicação e uma maior interação com pessoas em tempo real, e ao mesmo tempo gera um afastamento da presença física – e, consequentemente, do contato conhecido como o ‘face to face’”, afirma. Segundo Kamilly, as facilidades ligadas ao desenvolvimento tecnológico que se concentram em fazer tudo virtualmente tendem a isolar o individuo dos encontros sociais, e que isso prejudica um meio muito frutífero de interação entre as pessoas. “O contato por meio do olhar nos olhos, de sentir o toque, a presença física e amorosa de um abraço, são fatores que propiciam o cuidado ao outro e que nutrem emocionalmente o individuo”, defende.

Ela alerta que o comportamento excessivamente dependente do celular pode se tornar um vício e causar o que alguns estudiosos chamam de “Síndrome da Hiperconectividade”. Como detectar se o uso deixou de ser saudável? Ela aponta algumas nuances a serem observadas: “Se a pessoa não consegue desligar-se e tem uma necessidade excessiva de estar conectado, esse fator pode gerar prejuízos ao indivíduo como angústias e frustrações, em virtude de não conseguir dar conta da quantidade de informações e estímulos que advém da internet”. Kamilly destaca que o ponto crítico é quando se percebe que “não há um limite, quando começa a gerar prejuízos ao individuo na vida social, profissional ou afetiva. Muitas pessoas perdem a oportunidade de vivenciar o encontro presencial porque a necessidade de estar conectado e ‘postar’ o que está fazendo se torna maior, deixando de dar atenção para o momento ali diante de si e do outro”. Ela ainda explica que os comportamentos mudaram com a ascensão das redes sociais. “A exposição em massa produzida pelo facebook gera uma cultura da perda da dimensão entre comportamentos públicos e privados e dá uma sensação de que todo mundo sabe da vida de todo mundo. Ou, em outro âmbito, da necessidade de ‘ter que colocar’ tudo no facebook, instagram, twitter".

Algumas medidas são essenciais para quem quer maneirar no uso do aparelho e ter uma relação salutar com a comunicação via telefone móvel. A psicóloga dá as dicas: “É preciso entender que o celular é um instrumento, um recurso, que deve ser utilizado com cautela. Na vida, um objeto não deve substituir relações, nem o cuidado e o encontro consigo e com o outro. A dica sempre é ter bom senso”, afirma.

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