O título Onde descansam as pétalas apareceu de repente, enquanto Aline Folha rabiscava em seu sketchbook. A artista sentiu que aquelas palavras traduziam algo que já atravessava sua produção, embora ainda não estivesse inteiramente formulado. Na semana seguinte, veio o convite para participar da CASALIV. Quando perguntaram como se chamaria seu espaço, ela já tinha a resposta.
Aline não entrou na mostra como arquiteta, mas como artista, com a intenção de construir uma exposição de arte. O lugar escolhido — uma escada, normalmente atravessada sem muita demora — se torna um convite à desaceleração. A proposta é fazer o visitante interromper o percurso, observar as obras e criar suas próprias conexões entre imagens, materiais e lembranças.
A exposição parte de uma questão íntima: como o corpo retoma o movimento depois de um período de esgotamento? Há algum tempo, Aline investiga os estados emocionais do cotidiano feminino, com atenção especial às diferentes formas de cansaço e ao descanso vivido sem culpa. Em Onde descansam as pétalas, essa pesquisa ganha a forma de uma série de mulheres em momentos de pausa, prazer e reencontro consigo mesmas.
As Descansantes surgiram inicialmente pintadas em cacos de espelhos. As figuras aparecem de pernas para o ar, com meias-calças coloridas e roupas delicadas, entregues ao descanso ou ao prazer de deixar o tempo passar. São mulheres que não precisam justificar a pausa: simplesmente habitam aquele momento.
A série também está ligada a uma experiência pessoal da artista. Após a morte repentina do pai, Aline se perguntou quando conseguiria voltar a criar. Desenhar e pintar sempre foram formas de compreender o mundo e processar o que sente. A retomada do trabalho artístico tornou-se, assim, parte da elaboração do luto.
Os pedaços de espelho assumem mais de uma função. São suportes para as imagens e remetem à possibilidade de reconhecer as próprias partes depois de uma ruptura. A aquarela, os ladrilhos e outros materiais ampliam essa construção fragmentada. As pétalas, por sua vez, aproximam-se das personagens como imagens de algo que se desprende, repousa e pode voltar a integrar um conjunto.
A experiência, no entanto, não se limita à biografia de Aline. A artista reconhece que sua pesquisa também se alimenta das histórias de outras mulheres, com suas experiências de cansaço, perda e reconstrução. A exposição deixa espaço para que cada visitante encontre, nas obras, lembranças próprias.
A montagem foi pensada como um grande caderno de rascunhos: um lugar em que desenhos, anotações, colagens e materiais de diferentes origens convivem. A referência também vem do ateliê da artista, na rua Domingos Marreiros, em Belém, onde as paredes têm uma organização livre e podem ser constantemente modificadas.
Essa ideia se estende à própria CASALIV. A exposição foi concebida para receber alterações sutis ao longo dos dias, com novas obras, anotações poéticas e registros do processo criativo entrando na composição. Em vez de uma montagem definitivamente encerrada, o espaço acompanha o caráter fragmentário da série e abre outras possibilidades de leitura.
A arquiteta Tuane Costa colaborou com Aline na definição da atmosfera. Para as paredes, as duas escolheram o Terracal, revestimento acrílico da Terracor que simula o efeito da pintura à base de cal. A transparência e as marcas de imperfeição do acabamento lembram as manchas e variações da aquarela. O apoio da Salotto, representante da marca em Belém, contribuiu para levar a textura escolhida ao ambiente.
A apresentação das obras também faz parte da narrativa. Algumas aquarelas ficam sem moldura, com o papel exposto à passagem do tempo e ao contato com o espaço. Outras aparecem em estruturas que Aline chama de “desmolduras”, criadas pela Maxcolor, cujos recortes dialogam com os rasgos e fragmentos das pinturas. Totens de PVC produzidos pela Ultra Placas permitem outras formas de exposição, enquanto o teto adesivado pela Stickeria reúne imagens e textos concebidos para o projeto. A iluminação quente, com apoio da Rezendes, concentra a atenção nas obras sem perder a sensação de acolhimento.
A exposição propõe que a experiência artística continue para além da escada. Para Aline, paredes, tetos, mesas e outras superfícies domésticas podem reunir materiais e objetos de maneiras menos previsíveis. Misturar molduras, texturas e suportes é também uma forma de mostrar o que faz sentido para quem habita a casa.
Em Onde descansam as pétalas, os fragmentos não são apenas sinais de algo que se partiu. Eles podem se aproximar, mudar de posição e formar outras narrativas. A montagem convida o público a olhar com atenção para esses encontros — e, talvez, a reconhecer que as histórias pessoais também se reorganizam aos poucos.
SOBRE A ARTISTA
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Aline Folha (1986, Belém-PA) é artista visual, aquarelista e mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA), na linha de Poéticas Visuais. Sua pesquisa aborda os estados emocionais do cotidiano feminino e a interpretação livre de paisagens botânicas, explorando a presença da água e do grafite na relação entre desenho e aquarela.
Foi convidada para criar os mantos oficiais do Círio de Nossa Senhora de Nazaré em 2016, 2017 e 2022. Também criou coleções de louças temáticas da festividade para a Tramontina, lançadas entre 2023 e 2026. Entre suas exposições individuais estão Elas, no Espaço Cultural do TRT-8; Elas Estampadas, na Casa Oiam; Florescer Mãe, no Shopping Bosque Grão Pará; e O Peso das Coisas Leves, apresentado no Espaço Cultural do TRT-8 e na Assembleia Paraense. Atualmente, mantém em Belém um ateliê onde desenvolve sua produção artística, oferece cursos livres e corporativos e recebe público, clientes e alunos.
Contato profissional
Instagram: @aline.folha
E-mail: alinefolha@hotmail.com
Telefone: (91) 98146-9324
Fornecedores:
Studio Tuca — Instagram: @studiotuca | Telefone: (91) 98245-5424
Salotto — representante da Terracor em Belém; apoio na escolha e aplicação do Terracal.
Ultra Placas — produção dos totens de PVC utilizados na exposição.
Maxcolor — criação das “desmolduras” e das estruturas suspensas para as obras em papel.
Stickeria — aplicação dos adesivos no teto, com imagens e textos do projeto.
Rezendes — apoio à iluminação do espaço.
Tuane Costa — arquiteta que colaborou na concepção dos acabamentos e da atmosfera expositiva.
