Certa feita, Rilke, em carta a um jovem poeta, afirmou que “obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas”. E continuou: “As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou”. Não por acaso, o poeta – considerado um dos mais importantes e influentes da língua alemã – teve influência sobre o jovem Ferreira Gullar – ele mesmo um contemplador, por natureza. Logo, a Arte, ocupava um espaço maior que a própria vida; tão essencial quanto o ar.
Nascido no maranhão, em 1930, José Ribamar Ferreira não tardaria a reinventar-se. “Gullar é um dos sobrenomes de minha mãe – Alzira Ribeiro Goulart – e Ferreira é o sobrenome da família, eu então me chamo José Ribamar Ferreira. Como todo mundo no Maranhão é Ribamar, decidi mudar meu nome e o fiz: usei o Ferreira, que é do meu pai e o Gullar que é de minha mãe. Só um pequeno ajuste teve de ser feito: mudei a grafia porque o Gullar de minha mãe é o Goulart francês – é um nome inventado, como a vida é inventada eu inventei o meu nome”, declarou sobre o nome que adotaria para todo o sempre.
Um homem liberto de regras – essa foi nossa conclusão, após a conversa um tanto surpreendente. Aos 83 anos [recém-completos e entrevista concedida à Revista Leal Moreira um dia após seu aniversário, no último dia 10 de setembro], Gullar nos brinda com críticas, lucidez, diz que tudo ao seu redor o emociona e que a vida é um eterno improviso.
No poema “Primeiros anos” você fala de sua vida que, pelo que pude observar, foi bem humilde. Como foi o início de sua vida no Maranhão?
Eu era um garoto “de rua”. Naturalmente, de uma família com muitos irmãos e eu era um deles. Muitos meninos e meninas... e eu vivia pela rua – quando não estava no colégio, estudando. A coisa literária surgiu inesperadamente. Eu jamais imaginei na vida, que eu fosse me tornar escritor; nunca sonhei com isso. De repente, me vi atraído pela literatura, pela poesia e aí comecei a me envolver, a ler.
Como foi a experiência, a sensação de ter recebido o prêmio do concurso do Jornal de Letras com o poema “O galo” em 1950?
Para mim realmente foi uma surpresa, porque eu, evidentemente, tinha escrito aquele poema... era um dos primeiros poemas modernos, que eu escrevi, porque até bem pouco tempo, eu era um poeta que fazia sonetos, fazia decassílabos e não fazia poesia moderna. Descobri a poesia moderna e comecei a me envolver com a nova visão da poesia, a nova concepção da poesia e escrevi “O Galo”, que para minha surpresa ganhou um prêmio nacional – uma surpresa muito agradável, diga-se. Mal acreditei, num primeiro momento, que tinha ganho o prêmio. E foi esse acontecimento que me estimulou a ir para o Rio de Janeiro – é claro que não foi só isso, mas um dos fatores que influíram em minha decisão foi ter ganho esse prêmio, que significava que a minha poesia despertava o interesse das pessoas da grande cidade, do centro cultural mais importante do país daquela época, que era o Rio de Janeiro.
Ruy Castro escreveu uma crônica que cita você e João Cabral como mestres da palavra simples e exata. Quais são as suas maiores influências literárias e quais autores você gosta ler hoje em dia?
É difícil dizer qual o autor de minha maior referência. Quando jovem, quando me voltei para a literatura, a minha fome de leitura era enorme e eu lia tudo! Eu lia romance, eu lia poesia – brasileira e espanhola, e lia poetas franceses e traduções de poetas alemães e russos. Enfim (ele gargalha), eu não sei dizer o que, de fato, influiu. Agora uma coisa, certamente, teve importância decisiva: quando eu li a poesia moderna. Li Drummond, que é uma poesia econômica, com economia de palavras, mas o que influiu muito nessa precisão, nessa economia, foi o fato de eu ser jornalista e de ter me formado, como jornalista, numa linguagem nova do jornalismo, a partir do Diário Carioca, um jornalismo moderno, que surgia nos anos 50 no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. E essa nova escola, a de fazer jornalismo com poucas palavras, em oposição à prática do jornalismo do passado, de longos discursos e toda aquela conversa “fiada”, era o jornalismo do lead, do sublead, era o jornalismo da objetividade e da economia. Isso, sem dúvida, influiu muito no meu trabalho.
Por que você se interessou pela história da médica Nise da Silveira?
O interesse pela história dela nada tem a ver com o problema pessoal, com o fato de ter um filho meu que teve problemas psíquicos. Nada a ver. Quando conheci a Nise, eu sequer era casado. Eu tinha chegado ao Rio de Janeiro havia um ano. E foi por meio do Mário Pedrosa [crítico de arte e literatura. Foi crítico titular do Correio da Manhã (de 1945 a 1951) e depois do Jornal do Brasil (em 1957)] que eu tomei conhecimento do trabalho que ela realizava lá no Centro Psiquiátrico Nacional. Foi movido pela arte que o Mário Pedrosa era o único crítico a reconhecer que o trabalho de pintores como o Emygdio de Barros, o Diniz... e a reconhecê-los como artistas, embora fossem doentes mentais. Eles eram artistas! Tinham criatividade, tinham imaginação, enfim, as qualidades que um artista tem que ter. Logo, meu interesse pelo trabalho da Nise nada tem a ver com Psquiatria, propriamente dita; tem a ver com arte.
Uma de suas frases conhecidas é “A arte existe porque a vida não basta”. Por que você diz isso?
Porque é verdade! Não sou homem de fazer frases de efeito. Cada frase que eu escrevo incorpora uma verdade. Por que a Arte existe? Porque ela traz beleza para nossas vidas, além de fantasia, sonhos, criatividade... Quando você lê um poema do Drummond, do Rilke [Rainer Maria Rilke, poeta da língua alemã) você enriquece sua vida. Algo é acrescido à sua vida quando você vê um quadro de Van Gogh ou uma obra de Leonardo Da Vinci. As obras deles muito acrescentaram ao mundo. As noites estreladas que existem já estavam aí, mas Van Gogh criou uma “noite estrelada” que só existe na pintura dele e quando você vê essa obra, sua vida amplia. Quer dizer, o mundo tem várias noites estreladas e aquela, que Van Gogh inventou. O mesmo se aplica aos romances, às peças de teatro. Eu discordo da tese de que “a arte revela a verdadeira realidade” – ela simula, a arte inventa a realidade. Faz a realidade ficar mais rica.
Você acha que ainda há chances para os ideais socialistas?
Não, não. Escute: o Socialismo deu uma grande contribuição ao mundo moderno. Depois do Manifesto [Comunista], de 1848, de Marx, e de toda a luta que a partir daí se desenvolveu, em defesa do direito dos trabalhadores, o mundo mudou! O Socialismo acrescentou essas conquistas à relação capital-trabalho. Sobre isso não há dúvidas. O Socialismo mudou o mundo! Com conquistas para o trabalhador e para a sociedade. E, cumprindo o papel dele, ele se esgotou e acabou. Não tem cabimento que vai começar tudo de novo. Imagina! Se naquela época, a União Soviética era a segunda potência econômica e política do mundo, se acabou, por que é que recomeçaríamos tudo agora? Não tem cabimento. Isso acabou! Agora, tampouco o capitalismo é a salvação da sociedade. Veja os Estados Unidos... A maior economia do mundo tem boa parte da sociedade americana vivendo em condições precárias! Dia desses eu assistia televisão e vi a entrevista de um cientista político sul-coreano. A Coreia do Sul é um dos países mais desenvolvidos do mundo e, no entanto, registra altíssimas taxas de suicídio. E ele explicava isso: que o capitalismo demite funcionários com qualificação para contratar outros, sem qualquer qualificação, por metade do salário. O capitalismo é terrível! Ele ganhou a batalha contra o Socialismo, porque ele é superprodutivo! E o Socialismo tinha o equívoco de botar meia dúzia de burocratas para dirigir essa mania do país e isso, evidentemente, não funciona. Já o capitalismo está no mundo e a cada momento, produzindo pequenas empresas, médias, grandes empresas, sem parar. O Capitalismo não é um produto burocrático de meia dúzia de teóricos. O Capitalismo é o produto de milhões de pessoas que trabalham todos os dias para melhorar de vida e isso faz com que o sistema Capitalista tenha a vitalidade que ele tem. Mas justo, ele não é, não.
Com toda a sua experiência na luta contra a ditadura e contra problemas sociais do país, como você avalia o momento atual do Brasil – de protestos e revoltas populares?
O que aconteceu em junho, quando aquela multidão foi às ruas protestar, exigir dos políticos integridade, responsabilidade, honestidade e trabalho em função da sociedade, foi altamente positivo. E eu espero que isso não pare! Que isso se desenvolva e prossiga. Lamento que uma quantidade de pessoas que querem apenas fazer baderna, se aproveitem da situação para ficar quebrando bancos, lojas e criando situações de conflito com a polícia que impedem os outros de participar da luta em favor da sociedade. O que esses baderneiros estão fazendo é contrário ao interesse da maioria; contrário aos interesses de quem quer um Brasil melhor. Eles estão, na verdade, a favor dos corruptos, dos safados, porque eles estão impedindo que as pessoas de bem vão às ruas reivindicar o que é de direito delas.
Você fez aniversário recentemente e preciso perguntar se aos 83 anos ainda há algo que você ainda não realizou e que pretende fazer...
Preste atenção ao que vou lhe dizer: a minha vida não é planejada. Nunca planejei nada. De modo que essa pergunta, que tem cabimento para outras pessoas, para mim não tem. Eu não vivo pensando que “está faltando fazer isso” ou não. Nunca pensei nada disso. Eu descubro as coisas, eu me apaixono e me entrego. Mas eu não planejo, de modo que eu não sei se vai acontecer algo mais na minha vida – eu espero que aconteça –, mas eu não tenho nenhum plano com relação ao futuro. Nunca tive e nem tenho.
Seus dias são de labor literário constante? O que você permite fazer em dias “livres”?
(risos) Eu não vivo dia e noite escrevendo, tomando nota, eu não vivo assim. Em grande parte do meu dia, eu estou fazendo colagens, desenhando, fazendo outras coisas. Converso com meus amigos, caminho. As coisas que me ocupam hoje são as crônicas que eu produzo para a Folha [de São Paulo] toda semana. Esse é um compromisso que tenho e ao qual me dedico seriamente e enquanto eu não faço, eu não fico sossegado. Mas fora daí, eu vou improvisando meu dia. Não vivo dia e noite ligado, obsessivo com trabalho.
O que o comove?
Qualquer coisa pode me comover. A minha gatinha, que fica brincando aqui na sala, me comove. As pessoas da rua, as crianças... as mulheres bonitas. O céu azul, logo de manhã cedinho, me comove. Quando vou à praia, fico muito emocionado. É impossível enumerar tudo.
Agradecimentos
SECULT-PA
Fernando Gurjão
