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Amnésia fingida

Minha memória para fisionomias talvez seja a única coisa que funcione de verdade dentro desse emaranhado de fios e ideias soltas que chamo de cachola. Não que seja um poder mutante ou esteja eu querendo contar alguma vantagem. Ocorre que se presto atenção em um rosto nunca mais consigo apagá-lo do meu HD. Obviamente, a minha habilidade mnemônica já me colocou em algumas saias justas de amargar e, tenho quase certeza, sobrecarregam meu sistema para informações úteis como pentear os cabelos, acertar aniversários de gente querida, datas corretas para quitar as faturas e onde deixei o carro ao estacionar.

Dia desses estava no meu boteco preferido, saboreando a vida e falando mal dos outros, quando me aparece um colega de trabalho e sua respectiva esposa, ora veja. Cumprimentos para cá, cumprimentos para lá, ele resolve me apresentar à digníssima. Prontamente, respondo na minha ingenuidade que já a conhecia. Surpreso, meu caríssimo parceiro arregalou os olhos verdes enormes e se acomodou para saber de onde vinha essa proximidade, já com a sobrancelha direita levantada, exibindo um misto de ciúme e curiosidade sincera.

Sem me afetar com as poucas cervejinhas que havia ingerido, contei que sabia até o sobrenome da moça; relatei onde ela concluiu o já extinto primeiro grau, hoje ensino fundamental; dei os anos em que ela esteve nessa escola, suas habilidades como chefe de turma e seu engajamento junto aos professores na hora de organizar as feiras de ciência, as festas juninas, a reunião de pais e tudo mais. Para fechar, mencionei o endereço em que ela morava uns seis anos atrás – porque sempre a via perto de casa. Só faltou o CEP.

Claro que não precisava ter sido tão histriônico e parte da falação era para, de fato, exibir meu Alzheimer ao contrário. Havia entregado informações de mais de 20 anos atrás, quando ainda era um moleque sem recheio e coberto de acne. Ao terminar minha exposição sobre a companheira do meu interessado interlocutor, o casal estava estatelado.

De queixos caídos, olhos vidrados e expressões apalermadas, eles me encaravam. Ela por não lembrar absolutamente nada sobre mim, na ocasião, um estranho que sabia demais. Provavelmente, achou que eu era um cigano que revelava o passado para, em seguida, cobrar o cachê pelas previsões dos próximos anos dos dois. Já ele estava assombrado – os olhões verde-água ganharam uma cor acinzentada, soturna.

Puxou-me pelo braço, me levou para o canto, deixando a esposa e os petiscos de lado e me sussurrou com velocidade: “Estás ficando maluco? Anda investigando a minha mulher? Que que é isso, rapaz?” Depois ele sorriu, quebrando a tensão. Ri de volta, dizendo que o truque era apenas a memória de paquiderme que me perseguia. Ficou o dito pelo não dito, fizemos um brinde pelos bons tempos - os lembrados e os esquecidos. Depois saí de fininho.

Não era a primeira vez que cometia uma gafe do gênero. Numa oportunidade anterior, puxei assunto com um contemporâneo da época da terceira série, quando eu tinha oito anos de idade. Inteligente como ele sempre foi, virou engenheiro, ora veja. E front man de uma inusitada - e com relativo sucesso - banda de pagode local. Nem tudo é perfeito.

Encontrei o rapaz numa dessas redes sociais da vida e mandei um alô saudoso, pronto para relembrar as pirraças que fazíamos com a professora Alice e quando fugimos correndo da quadra de esporte por causa de um ataque de abelhas africanas. Mas, que nada: nem lembrou, o ingrato. Soltou um “parece que estudei sim nessa escola, mas não tenho certeza”. Deve ter achado que eu era maluco ou algum fã obcecado pelos hits supimpas do seu grupo de pagode.

Cada vez me convenço mais de que, quase sempre, o melhor é fingir amnésia. Sobre o passado, o presente e o futuro.

Francamente.

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