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Amor em tempos de WEB

Ele comprou uma camisa nova e vestiu a calça “de sair” – aquela que não costuma usar no dia a dia. Ela escolheu o vestido mais bonito do armário e caprichou na maquiagem. Ele tirou a barba, que andava mal feita havia algumas semanas. Ela ficou um par de horas no salão para dar “um trato” nos cabelos. Ambos passaram os perfumes que guardam para ocasiões especiais. Item a item, obedeceram ao típico protocolo do primeiro encontro. Precisavam mostrar o melhor de si na hora em que estivessem frente a frente... com a tela do computador.

Histórias como essa já não soam absurdas ou novelescas. A internet transformou nosso comportamento em inúmeros aspectos. Nos relacionamentos afetivos, não poderia ser diferente, para o bem e para o mal. A rede funciona como mediadora do processo de conquista; facilita o encontro entre pessoas com afinidades em comum; simplifica a vida dos tímidos e encurta as distâncias. Por outro lado, também traz novas nuances ao ciúme e dá mais munição àquelas pessoas que gostam de verificar cada passo dos companheiros. No final das contas, ela produz histórias de amor não muito diferentes das que começaram à moda antiga.

Seduzir por meio da palavra escrita não é uma novidade ou um privilégio da comunicação on-line. As cartas românticas e a inquietude gerada pela chegada delas fizeram parte da idealização do amor por muitos séculos, fossem  amores impossíveis, distantes ou simplesmente anônimos. Elas foram ridicularizadas por Fernando Pessoa no poema “Todas as cartas de amor” e ansiosamente aguardadas na canção “Please, mister postman”, sucesso nas vozes dos Beatles e dos Carpenters. Mas aquele frio na barriga não acompanha mais a chegada do carteiro com um novo envelope, e sim o ruído digital de um novo e-mail na caixa de entrada ou de uma nova mensagem privada numa rede social.

“O e-mail e o chat reforçam esse tipo de relações à distância, dando-lhes uma agilidade que faz possível mantê-las vivas e florescentes de uma maneira natural”, opina o argentino Diego Levis, doutor em ciências da comunicação pela Universidade Autônoma de Barcelona. Grande parte da obra de Levis se dedica a estudar o impacto da comunicação digital em nossas vidas. O amor não poderia ficar de fora. Levis escreveu, em 2005, o livro “Amores en red - relacciones afectivas en la era internet”, sem lançamento no Brasil. Foi o fruto de uma pesquisa que durou quatro anos, baseada em entrevistas com pessoas que mantinham na internet relacionamentos de vários tipos: namoros, casos extraconjugais, “amizades coloridas” etc. “Muitas vezes, as relações nascidas ou desenvolvidas na internet culminam em encontros muito reais, dos quais podem surgir maravilhosas histórias de amor, paixões passageiras, amizades e também momentos desagradáveis adereçados com muita desilusão”, afirma Levis no livro. Mas, para o estudioso, a internet rompe com alguns parâmetros estereotipados de sedução.  “A internet pode ser vista como um novo espaço de conquista através do qual, para atrair alguém e seduzi-lo, nem sempre é imprescindível ter corpo de modelo ou de atleta, vestir roupas da moda, nem ter belos olhos ou o sorriso de uma estrela do cinema. Tampouco é necessário beber álcool ou tomar qualquer substância para se desinibir. O anonimato que a tela proporciona elimina todos os pudores”, explica.

A evolução da própria tecnologia sempre adiciona novas ferramentas às pessoas que creem na possibilidade de encontrar um grande amor na frente de uma tela de computador. Hoje em dia, há websites especializados em formar casais que dizem usar até métodos científicos para justificar a compatibilidade dos pretendentes sugeridos. Isso sem falar nas redes sociais, que acabam sendo uma grande vitrine de nós mesmos na internet. Mas houve um tempo em que, mesmo sem recursos tão completos, corações foram unidos on-line.

Foi o que aconteceu com o publicitário Elizio Eluan. Ele conheceu a esposa, Stela, numa sala de bate-papo há onze anos. “Não existia rede social nessa época. Acho que nem MSN tinha. O que a gente usava eram as salas virtuais de bate-papo de um portal, à época. Com “salas” temáticas ou por cidade, Belém tinha umas dez. E foi em uma delas que a gente se conheceu”, relembra. Elizio usava o apelido Djavan no chat e postava letras de músicas do cantor alagoano para puxar assunto. “Na maioria das vezes, virava um papo besta. Mas, com a Stela, acabou saindo uma conversa extremamente interessante”, conta. Eram papos que duravam muitas horas e que geravam muita ansiedade. “Eu ficava esperando a Stela entrar no chat sempre. E, como não rolava nenhum aviso sonoro que “denunciasse”, era preciso ficar de olho. Depois, passamos a nos tratar por nossos nomes, a trocar e-mails e passamos a nos mostrar mais, mas nunca de forma deselegante ou chula”,

Elizio e Stela se comunicaram apenas pelo chat e por e-mail ao longo de três meses, até o dia em que decidiram se conhecer pessoalmente. Não deu certo de primeira. O receio de uma decepção fez com que duas tentativas de encontro acabassem frustradas. Mas, se hoje eles comemoram o sucesso da história de amor, é porque houve persistência. “Teve uma noite que não tinha como não dar certo. Ela me disse o lugar em que estava – a casa de uma amiga – e eu disse que ia lá. Na minha cabeça, era começar uma relação ou largar de vez. E fui com uma estratégia: disse que não poderia demorar muito. Ou seja, se me decepcionasse, já tinha uma desculpa na mão para cair fora”, revela. Felizmente, Elizio não precisou usar essa estratégia. “A conversa atravessou a noite. E eu acho que o fato de termos já conversado bastante antes de nos conhecermos pessoalmente foi determinante para a naturalidade do primeiro encontro. O que atrapalhou os primeiros minutos foram o nervosismo e a tensão de não corresponder às expectativas, que eram grandes”, confessa. A história que começou no chat virou casamento. Elizio e Stela trocaram alianças em 2006 e tiveram uma filha, Maitê, em 2009.

 

Alguns anos depois de Elizio e Stela se apaixonarem numa sala de bate-papo, a história de Fernanda e Rafael Lancellote começou, também em frente a uma tela de computador, mas nas páginas do hoje menosprezado Orkut, que um dia já foi febre no Brasil. Os dois participavam da comunidade “Brincando de Arnaldo Antunes”, que reunia fãs do cantor e compositor ou pessoas que apenas se divertiam ao fazer jogos de palavras como aqueles das músicas do ex-vocalista dos Titãs. Rafael postou um comentário, Fernanda postou logo em seguida e a curiosidade de um pelo outro surgiu. “Eu achei interessante a foto dele. Na época, era uma foto do Cartola. Fiquei curiosa e entrei pra ver. Vi várias fotos dele com os amigos da faculdade e com a família e me interessei”, relembra Fernanda. Mas existia um senhor obstáculo: a distância. Fernanda morava em São Paulo, onde trabalhava como consultora, auditora e professora de marketing e empreendedorismo. Rafael, que é consultor, auditor e professor de filosofia e sociologia, vivia em São Lourenço, interior de Minas Gerais. Mais de 300 quilômetros os separavam. Mas nem isso impediu que a sintonia entre eles surgisse. “A internet ajudou bastante, sem dúvida. Os nossos bate papos foram muito diretos pelo MSN. Jamais teria falado assim com alguém em tão pouco tempo. Foram treze dias para nos conhecermos pessoalmente”, conta.

Aliás, o primeiro encontro entre eles teve um “quê” de desconfiança, especialmente da parte de Fernanda. “Eu tinha os dois pés atrás. Em São Paulo, a gente ouve falar de gente que é sequestrada, cada coisa... Para evitar isso, marquei o encontro num lugar público (em um shopping), e combinei com a minha mãe de me ligar em quinze minutos após a minha chegada lá. Mas nos vimos e já veio tudo à tona. Não deu medo algum, foi perfeito”, relembra. Três meses depois, os dois estavam morando juntos. Hoje, seis anos depois, e com uma filha de três anos aumentando a família, Fernanda se orgulha da história nascida na internet. “Até hoje, mesmo com as redes sociais mais em evidência do que há seis anos, as pessoas ainda se surpreendem com a história. Mas, na época, éramos vistos como malucos. Até minha irmã, no discurso de nosso casamento, na frente do padre e da igreja toda, falou: ‘Como a gente iria imaginar que um namoro do Orkut daria em casamento?’”, conta.

Se 300 quilômetros já parecem demais para você, um oceano de distância possivelmente soará como algo impossível de se lidar. Não para a jornalista Manuelle Maia, de 23 anos. Assim como Fernanda e Elizio, ela encontrou um casamento na internet. Mas, enquanto ela estava em Belém, o noivo estava na Itália. A história começou quase sem querer. “Eu estava me recuperando de uma relação mal-sucedida e uma amiga minha, que queria me tirar da fossa, me inscreveu num site de namoros sem eu saber. Roubou uma foto do meu Orkut, colocou lá e me deu a senha para eu preencher o resto do perfil. Decidi tentar, mas, no começo. não tinha muita paciência para interagir”, conta Manuelle. Depois de duas semanas sem muita atividade no site, Manuelle notou que o perfil dela havia sido marcado como interessante por um usuário. Era o engenheiro italiano Pierluigi Albertini. “Fui xeretar o perfil dele e gostei porque parecia engraçado. Foi isso que me chamou atenção. Então decidi marcar o perfil dele como interessante, assim como ele tinha feito com o meu antes. Alguns dias depois, ele me escreveu a primeira mensagem, fazendo as perguntas que todo estrangeiro faz quando pensa que Brasil é só samba, floresta e futebol”, relembra.

Depois de muita conversa por mensagens privadas no site e por e-mail, Manuelle e Pierluigi tiveram uma prévia de primeiro encontro via Skype, com as webcams ligadas. E foi uma experiência parecida com a do primeiro parágrafo desta reportagem. “Eu fiz até chapinha e coloquei uma roupa bacana. E depois de um tempinho, o Pierluigi me disse que comprou uma calça jeans e que vestiu nessa nossa primeira conversa com webcam. Como se fosse um encontro cara a cara normal, mas eu nem vi o tal jeans, e ele nem notou a minha chapinha”, conta. Quatro meses depois da primeira mensagem via internet, os dois, enfim, se conheceram pessoalmente. Pierluigi viajou até Belém e conheceu não apenas Manuelle, como também a família e os amigos dela. “O único estranhamento foi nos dois primeiros dias, pelo cansaço da viagem e das mudanças de temperatura. Além disso, não sabíamos como nos tratar, se como amigos ou como namorados. Era como se nos conhecêssemos há anos, mas não nos conhecêssemos. Só que logo percebemos que o que sentíamos no mundo virtual era o mesmo que sentíamos no mundo real, e nos tornamos namorados de verdade”, conta. O namoro durou dois anos, até Manuelle e Pierluigi casarem. A cerimônia religiosa foi no Brasil. E a união civil, na Itália, onde o casal vive junto com um gato, ao qual eles tratam carinhosamente por “filho”.

Mas a mesma internet que aproxima e apaixona, também potencializa algumas situações que minam qualquer relacionamento. Uma delas é a possibilidade de nada ser o que parece. A habilidade com as palavras e um pouco de malícia podem transformar uma pessoa em alguém muito mais atraente (e muito menos mal-intencionada) do que realmente é. “O chat de texto permite entrar numa encenação baseada na construção de personagens num jogo de suplantações, no qual todos os participantes sabem que quem está do outro lado pode ou não ser quem diz ser”, opina o doutor em comunicação Diego Levis. Manuelle Maia não descuidou desse ponto de vista. Antes de aceitar o encontro com o marido Pierluigi, bancou a detetive digital. “Investiguei onde ele morava, onde viveu antes, sobre a família, consegui encontrar a tese que fez na universidade, fotos antigas, informações sobre antigos trabalhos. Tudo eu comparava com o que ele me dizia e via se era verdade ou não. Até na Interpol e na polícia dos lugares onde ele viveu eu pesquisei para saber se havia algum processo contra ele. Por sorte, não tinha nada e as informações bateram certinho”, conta.

Outro risco que essa nossa forma de amar traz é a amplificação do ciúme. Ex-namoradas, “gaviões”, check-ins em festas... A internet joga inúmeras bolas quicando na frente dos casais, o que pode trazer turbulências nem sempre necessárias. E, no caso dos casais formados na internet, ainda existe o conhecimento do risco: quem conheceu o marido ou a esposa nos chats da vida, pode conhecer outra pessoa, não? “O chat também pode ser uma via para se distanciar da pessoa amada. Ou, pelo menos, da pessoa com quem se está mais ou menos comprometido. Fala-se bastante disso: homens e mulheres que se sentem enganados quando seus companheiros mantém relações habituais, contínuas por meio da internet. Uma ambivalente e desconcertante sensação de ciúmes, alimentada pela existência inquietante desse alguém ‘sem rosto’ que espera por trás da tela”, teoriza Diego Levis. Fernanda Lancellote afirma tirar de letra. “Às vezes, rola um ciúme sim, acho que faz parte do relacionamento, né? Lidamos bem com isso, já que baseamos nossa relação em confiança. Não deixamos de ter cada um a sua página, afinal, cada um já teve sua história. Agora é que temos uma história só”, diz.

O primeiro contato e os riscos de uma abordagem fracassada. A evolução da intimidade até o ponto de aceitar um primeiro encontro. Ansiedade. O desejo de mostrar o melhor de si. A dúvida para saber se a química vai acontecer. No final das contas, o início de um relacionamento nascido na internet não é muito diferente de um totalmente offline. Mas a rede sozinha não tece um “felizes para sempre”. Que o digam as pessoas com conhecimento prático de causa, como Elizio Eluan. “Acho que a internet agrega as formas tradicionais de conquista, nunca substitui. Temos familiares e amigos com histórias parecidas à nossa. Hoje, existem muito mais ferramentas para uma relação começar na internet e virar uma grande história real. Se há mais de dez anos deu certo com a gente, deve dar muito mais certo hoje”, opina. Alguém discordaria?

 

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