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Amor que sai na palavra

 

Poetas, apaixonados ou simples amantes das letras, todos já expressaram seus amores por meio de linhas passionais. Se você nunca escreveu uma carta de amor, bem, veja o que o grande poeta português Álvaro de Campos tem a dizer, logo abaixo. Confira ainda outras célebres conversas amorosas em forma de texto, que vêm inspirando amores pelos tempos.

Todas as cartas de amor são ridículas

 

   Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.
 
    Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
    Como as outras,
    Ridículas.
 
    As cartas de amor, se há amor, 
    Têm de ser
    Ridículas.
 
    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram 
    Cartas de amor 
    É que são
    Ridículas.
 
    Quem me dera no tempo em que escrevia 
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.
 
    A verdade é que hoje 
    As minhas memórias 
    Dessas cartas de amor 
    É que são
    Ridículas.
 
    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)
 
    Álvaro de Campos

Beethoven à Amada Imortal
 
7 de julho.
 
Bom dia!,
 
Deitado na cama, confundem-me meus pensamentos para ti, amada imortal; às vezes alegres, logo tristes, esperando que o destino nos favoreça. Só contigo posso viver inteiramente ou não posso viver. Sim, resolvi vagar pelas distâncias até o momento em que possa voar até teus braços e ter em ti minha pátria para mandar minha alma envolta em ti ao país dos espíritos. Sim, desgraçadamente, assim há de ser... Hás de consolar-te, tanto mais porque conheces minha fidelidade a ti. Jamais outra poderá possuir meu coração, nunca, nunca! Oh! Deus, por que ter de se afastar de quem tanto se ama? Minha atual vida em Viena, todavia, é uma existência miserável. Teu amor me converte ao mesmo tempo no homem mais feliz e no mais infeliz. Em minha idade precisaria de certa estabilidade, uma vida equilibrada; esta, porém, pode existir em nossas circunstâncias atuais?
Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias e preciso concluir para que recebas esta o quanto antes. Fica tranquila! Somente contemplando com calma nossa situação poderemos realizar nosso anseio: viver juntos. Tranquiliza-te, ama-me! Hoje – ontem – que nostalgia, com lágrimas, até ti – ti – ti – minha vida – meu todo! Adeus!... Oh! Continua amando-me, jamais desconheças o coração mais fiel de teu,
 
Amado Ludwig.

Para um admirador
 
6 de abril de 1761,
 
Sim, caro amigo, já lhe disse e repito: tenho-lhe grande afeição. Você disse-me o mesmo, mas de sua parte trata-se de mero arrebatamento; satisfeito o primeiro ímpeto, não pensaria mais em mim. Começo a conhecer o mundo. Vou fazer-lhe uma proposta: preste atenção. Não desejo continuar como caixeira: quero ser um pouquinho mais senhora de mim e por isso gostaria de encontrar alguém que me sustentasse. Se não lhe quisesse bem, trataria de lhe arrancar dinheiro. Em vez disso, digo-lhe: você devia começar alugando um quarto para mim e mobiliando-o, mas, como não é rico, pode instalar-me em sua casa. Não lhe custará grandes gastos, nem à mesa, nem ao resto. Para manter-me a mim e aos meus toucados, única despesa que lhe darei, é suficiente que disponha de cem libras por mês e nisto estará tudo incluído. Assim poderemos viver felizes e você nunca mais terá de queixar-se de minha recusa. Se gosta de mim, aceite a proposta, mas se não gosta, tentemos a sorte, cada um por seu lado. Adeus, beijo-o de todo o coração,
Rançon.
(Da condessa Du Barry)
 

Graciliano Ramos a Heloísa Medeiros

Palmeira, 18 de janeiro de 1928.
 
Heloisa,
 
Mandei-lhe uma carta pelo último correio e já a necessidade de falar novamente contigo. Se pudesse, empregaria todo o tempo em escrever-te, só para ter o prazer de receber respostas. Tenho tanto que te dizer... Nem sei por onde começar, fico indeciso, com a pena suspensa, vendo interiormente esses olhos que me endoideceram quando os vi pela primeira vez. Muitas coisas para dizer-te, mas coisas que só se dizem em silêncio e que talvez compreendas, se houver afinidade entre nós.
Santo Deus! Como isso é pedantesco! Eu desejava ser simples, dizer-te ingenuamente o que sinto e o que penso. Mas sentimento e pensamento, indisciplinados, não se deixam agarrar. Vou jogar o que me vier à cabeça, à toa, sem ordem.
É verdade que és minha noiva? Não é possível, sei perfeitamente que tudo isto é um sonho, que vou acordar, que ainda estamos em princípio de dezembro, que tu não tens existência real. Esta carta nunca te chegará às mãos, porque não tens mãos, és uma criatura imaginária. A flor que me deste e que agora vejo, murcha, é simplesmente um defeito dos meus nervos. Beijando-a, tenho a impressão de beijar o vácuo. Já tiveste em sonho a consciência de estar sonhando? É assim que me acho. Vem para junto de mim e acorda-me.
Causaste uma perturbação terrível no espírito dum pobre homem que nunca te fez mal nenhum. Isto com certeza te dará alegria, porque todas vocês gostam de rasgar o coração da gente. Com esses modos românticos, esse rosto de santa que desce do altar, és uma fera. Vieste chamar-me para passar quinze horas a fio cercado de saias. E quando me tens seguro: “Ora, meu caro senhor, deixe-se de história. Tudo foi pilhéria, não houve nada.”
Depois, uma reviravolta, estamos noivos. Ou não estamos? Ainda será engano meu?
Amo-te com ternura, com saudade, com indignação e com ódio. Confesso-te honestamente o que sou. Se te não agradam sentimento tão excessivos, mata-me. Mas não me mates logo: mate-me devagar, deitando veneno no que me escreveres. Provavelmente sabes fazê-lo. Não devias ser como és.
Estou a atormentar-te, meu amor. Perdoa. Se não fosses como és, eu não gostaria de ti.
És uma extraordinária quantidade de mulheres. Quanto vieste me pedir não sei o que para o Natal, eras uma. Depois, em um só dia, ficaste duas, muito diferente da primeira. Desejei ver qualquer das três e levei à casa do padre um bacharel que vendia livros. Apareceu-me outra. Daí por diante, o número cresceu, cresceu assustadoramente. Na sexta-feira, antevéspera de tua partida, encontrei pelo menos vinte. No sábado, em nossa casa, havia uma na sala, outra na sala de jantar, dez ou doze ao pé da sala. És multidão.
Como me poderei casar com tantas mulheres? O pior é que todas me agradam. Não posso escolher.
Por que não te deixaste ficar mais uma semana? Por que não ficaste definitivamente? Tenho recebido parabéns pelo meu novo estado, há quem suponha que me casei contigo. Era o que deveríamos ter feito. Tudo tão fácil! E agora? Quanto tempo é necessário esperar ainda? Conheces algum padre que me possa casar sem confissão? Não estou disposto a ajoelhar-me aos pés de ninguém. Mentira: estou disposto a ajoelhar-me aos teus pés, a adorar-te.
Tenho o pressentimento de que te arrependeste do que fizeste. Estás arrependida? Se estás, sê misericordiosa, não mo digas agora.
Quando escreveres, diz-me com singeleza o que há em teu coração... contanto que não sejam coisas desagradáveis.
Adeus, meu amor. Recomendações a d. Lili (excelente amiga) e a todos os teus. Estou muito agradecido a teu pai por ter ouvido com resignação a arenga do padre Macedo.
Beijo-te as mãos,
 
Teu Graciliano.
 
 
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