Luê Nayá Jansen Soares, 23 anos, capricorniana. Não seria possível um nome mais apropriado. A mãe, Wena Jansen Soares, diz que pesquisou bastante em 1988, quando estava grávida, até achar o mais adequado para a primeira filha. Artista plástica, apaixonada por um músico, ligada às coisas da terra e à natureza, a expectante acertou em cheio: foi buscar na referência indígena, a matriz mais paraense possível, o chamado mais bonito para a menina. Nascia o bebê nomeado com a beleza da lua, que não veio na pele, morena brejeira que só ela, mas na inspiração que o astro traz à boa cantoria, ao bom astral das grandes noites, que lhe predestinou a voz.
Numa quarta-feira de maio, Luê chega esbaforida à sessão de fotos para a Revista Leal Moreira, depois de uma tarde de gravações para um comercial de televisão. A agenda anda corrida. Ela está na ponte aérea São-Paulo-Belém-São-Paulo-qualquer-lugar-onde-a-música-chame. E o Brasil descobriu Luê, daí a música a tem chamado bastante. Levinha, mignon, só se percebe o cansaço e a correria porque ela confessa. Porém, sem queixa. Nada é ruim, nada atrapalha ou pesa no roteiro escrito para a cantora desde o encontro definitivo entre Wena Jansen e Júnior Soares, o pai e incentivador da moça e vocalista de um dos fenômenos de massa mais empolgantes da cultura popular paraense, o Arraial do Pavulagem.
Diante do fotógrafo, ela já esquece a fadiga de uma tarde inteira e posa natural para a lente. O cenário é uma adega confortável, à meia luz, e, sobre a mesa, um copo de conhaque. Luê posa séria, mas também sorri. Brinca com a posição de estrela sob holofotes, a qual parece que ainda não se acostumou. Seduz em gestos simples, delicada, como a violino que a acompanha desde os nove anos. É o instrumento que lhe moldou também a suavidade da voz que, pelas referências, deve se libertar ainda mais – conforme ela se integre aos palcos à arte, este simbionte irresistível, que já começa a lhe tomar por inteiro e lhe guiar a vida.
Há uma sofisticação educada no canto de Luê, algo fácil de qualquer ouvido amar. Mas ela se exige mais e mira no imponderável que é fundir a técnica perfeita em uma performance livre, louca, quase brutal como os ídolos Gal Costa e Baby do Brasil esbanjam magicamente desde quando ela nem existia. É no jogado magnético e inconfundível de gente como Robert Plant, do Led Zeppelin, e Björk que a paraense se espelha; sem esquecer os anos de bastidores e camarins dos shows do pai, sem se afastar de bases como Nilson Chaves e o maestro Waldemar Henrique, sem deixar de se encantar com o suingue novo, mas há décadas entranhado no sangue e nos dedos e na lógica rítmica do amigo Felipe Cordeiro.
Ao ouvir Luê cantar e falar apaixonada sobre a gana de agarrar a música, partir para São Paulo, trabalhar com gente que ela sempre amou ouvir, a impressão que se tem é que ela estava destinada a este clichê irresistível, já impregnado em seu nome: brilhar como lua nas noites do Brasil.
Na entrevista a seguir, a cantora conta sobre a boa fase, coragem de abraçar a nova carreira, o novo e histórico momento para a cultura paraense, Belém, Bragança, Ajuruteua e o sonho de cantar com grandes nomes da música brasileira, como Gilberto Gil e Caetano Veloso – e ninguém duvida que ela escancare as portas com seu talento e fisgue os baianos com a doçura da voz.
Confira a conversa na íntegra:
A partir de quando deu para perceber que o “A fim de onda” seria um projeto de verdade e com a repercussão que está tendo?
Bem, eu já tinha essa vontade de produzir o meu primeiro disco, então inscrevi o projeto na Lei Semear no segundo semestre de 2011, com ajuda do Marcel Arêde – esse foi o primeiro passo para tornar real o que era apenas uma vontade e possibilidade remota. A partir daí, comecei a conversar bastante com o Betão Aguiar, que produziu o disco, sobre música, sonoridades, possíveis participações, repertório etc., e então o disco passou a existir no corpo físico de fato. A gente nunca sabe ao certo a repercussão que um trabalho vai ter depois de pronto, mas eu estou bem feliz com o feedback que tenho recebido das pessoas. Nunca esperava fazer parte da rede de artistas do Natura Musical, junto com Tom Zé, Milton Nascimento, Tulipa Ruiz, e tantos outros. Isso pra mim foi um presente e uma sorte danada pra quem está lançando um primeiro trabalho. Também não imaginei lançar o disco em um Theatro da Paz cheio de gente curiosa e depois poder circular com esse mesmo show no Rio, São Paulo e Salvador, sendo tão bem recebida. Outra coisa que me deixou muito feliz também foi ter a oportunidade de apresentar o meu trabalho na Virada Cultural da capital, em São Paulo, e na Virada Cultural Estadual, em Santos.
Eu estou bem feliz com tudo o que está acontecendo.
Como é ser protagonista de um trabalho que tem tanta gente de peso como Arnaldo Antunes, Felipe Cordeiro, André Carvalho, Curumin e tantos outros artistas renomados?
É realmente uma honra. Há algum tempo – quando eu escutava os discos do Arnaldo, Curumin, Nação Zumbi, 3 na Massa com o Pupillo, entre tantos outros – passava pela minha cabeça que, de alguma maneira, eu precisava dialogar com esses caras, falar e fazer música junto. Mas cantar era uma vontade que eu pouco assumia, e por isso achava que essa interação seria algo muito distante. Então, quando resolvi que iria cantar e comecei a gravar o meu primeiro disco, pude realizar essa minha vontade. Pra mim foi uma honra ter artistas que sempre admirei tanto, deixando um pouquinho de sua essência nesse meu primeiro trabalho.
Conta da tua iniciação musical (aos nove anos, Luê começou a aprender violino). Além da clássica “Asa Branca”, como exercício do conservatório, e “Tu já rainha”, como vontade de se apresentar com teu pai, quais as memórias que tens da infância em relação à música?
Bem, eu sempre tive música na minha vida, fosse pelo contato direto com um instrumento, no conservatório, ou em casa, ouvindo música com a minha família, ouvindo meu pai tocar violão. Quando penso nessa época me vem muita coisa na cabeça... Me lembro de andar pelo Conservatório Carlos Gomes ouvindo a turma do canto lírico fazendo exercícios de aquecimento vocal, lembro de assistir aos shows do Arraial no (Teatro) Margarida Schivasappa e brincar de correr nos corredores do teatro... Me lembro de, ainda pequena, ter ido a um concerto com a minha família onde a orquestra tocou “As Bachianas” de Villa-Lobos e achei a coisa mais linda da vida. Saí de lá querendo tocar também em uma orquestra, o que veio a acontecer alguns anos depois.
Qual a influência do teu pai nesse trabalho novo, já que me dizes que ele é o grande incentivador? Ele deu alguma dica de arranjos, de produção ou ficou no apoio moral e deixou que você tomasse as decisões?
Digo que meu pai sempre foi meu grande incentivador, porque desde pequena a música foi algo que me interessou; e quando ele percebeu isso, me matriculou no Conservatório Carlos Gomes, aos 9 anos, para que eu pudesse iniciar e me aprofundar no estudo da música. Em paralelo a isso, ele estava sempre ali, me apresentando um universo muito variado dos ritmos e das sonoridades da Música Popular Brasileira, principalmente aquela feita no Pará. Meus pais sempre me incentivaram a fazer aquilo que gosto, com a música não foi diferente. E assim foi, também, quando surgiu a possibilidade de gravar o meu disco. Meu pai participou tocando na faixa “Nós Dois” e “Cavalo Marinho” – e sim, me deu total liberdade pra que eu tomasse minhas próprias decisões, como sempre foi; mas, claro, acompanhando tudo de perto, vibrando comigo.
Quais as influências no teu canto?
Como falei pra você, o canto da Gal me influencia, assim como o da Baby (do Brasil), Robert Plant e Bjork, no sentido da liberdade. Essas pessoas que citei cantam com uma liberdade e qualidade vocal surpreendentes, que eu procuro buscar no meu canto. Agora, acho que talvez exista certa delicadeza na minha maneira de cantar, mais por influência do violino do que por algum cantor ou cantora que eu admire. O violino é um instrumento melódico, muitas vezes suave mesmo, acho que o fato de ter estudado esse instrumento durante alguns anos da minha vida me trouxe essa delicadeza.
Como está sendo a rotina em São Paulo? Não a de shows, a da vida mesmo: onde você tem se divertido? como tem gastado seu tempo? qual o restaurante preferido? tem aproveitado a agitada vida cultural da metrópole?
Está sendo muito bom morar em São Paulo e conhecer um pouco mais dessa cidade tão grande. Gosto da vida cultural que ela proporciona. Todo o tempo você pode ir a um concerto, uma exposição, um show incrível – opção não falta. Eu não sou uma pessoa muito agitada, então me divirto bastante recebendo amigos em casa, adoro um bom brechó (e isso tem de sobra em SP). Restaurante então nem se fala. Difícil é escolher apenas um, mas no momento estou vivendo uma relação de amor com o Restaurante do MAM (Museu de Arte Moderna), no Parque do Ibirapuera.
E a agenda de programas televisivos, rádios e shows?
Como falei antes, acabei de me apresentar pela primeira vez na Virada Cultural Paulista e na Virada Estadual, em Santos, e foi legal demais! E em junho tem participação minha no show de lançamento do disco do Ronaldo Silva, dia 18 em Belém. Também me apresento aqui no dia 2 de julho. E dia 29 de julho tem show no “Cedo e Sentado”, um projeto superbacana que rola toda segunda no Grazie a Dio, em SP. (Luê ainda fecharia outros shows e convites, mas que não estavam confirmados até o dia da entrevista).
Como tem encarado esse momento novo da música paraense em destaque no Brasil?
Acho que estamos passando por um momento muito especial para a música que é feita no Pará. Temos mesmo uma musicalidade muito rica e variada, o que tem surpreendido e atiçado a curiosidade das pessoas em relação ao que está sendo produzido no estado. Uma coisa interessante que percebi é que hoje as pessoas não demonstram mais certa indiferença quando digo que sou de Belém. Pelo contrário, de repente sou bombardeada de perguntas sobre as nossas “gírias”, sobre culinária e sobre nossa música, sempre seguido de um bom “preciso ir ao Pará!”.
Pra ti, o que vai definir se esse momento é mais uma moda ou consolidará o Pará como um polo de cultura brasileira (consagrado, claro, porque, dentro de suas características já é)?
Olha, fazendo uma analogia ao Manguebeat com Chico Science (de Pernambuco) e ao que aconteceu também na música da Bahia, é muito legal estarmos com os holofotes voltados para nós e termos a abertura e destaque da imprensa do país. O que particularmente me chama mais atenção na nossa cena atual é que somos muito diversos, temos de tudo. É fato que vivemos um momento especial, mas isso não diminui em nada tudo que se produziu em outras épocas. Estamos colhendo frutos de muitas sementes bem plantadas e regadas nos últimos 30 anos, pelo menos. Assim como o sucesso que teve o Manguebeat, de Chico Science, não deixou de honrar a obra de Alceu Valença, por exemplo. Agora, independente da “boa fase” que vivemos na mídia, em todos os lugares, sinto que ainda tem muito trabalho para ser feito. O Pará tem tudo para ser um polo de cultura brasileira. Na verdade, ele já é, mas isso vai muito além da moda.
Por que largou a faculdade de Direito? Ainda é possível retomar?
Porque o que eu havia escolhido não me satisfazia, não me realizava. Quando me dei conta disso eu já estava viajando e fazendo bastantes shows, então a agenda começou a entrar em conflito, comecei a faltar e então percebi que aquilo não fazia sentido pra mim. Escolhi a música, mesmo sabendo que não é um caminho fácil nem seguro, mas não me arrependo. Faço o que eu amo, corro atrás do que eu quero e as coisas têm ido bem. É impossível, pra mim, voltar a cursar Direito. Mas quem sabe um novo curso, né? Quem sabe...
Voltas a morar em Belém? Do que mais tens saudade nesses meses fora?
Por enquanto não, porque pra mim e para o meu trabalho tem sido importante morar em São Paulo. Mas procuro ir todo mês a Belém, curtir a família e meus amigos – e claro, trabalhar também. Fiz o show de lançamento do meu disco em Belém e foi inesquecível. Pretendo repetir a dose em breve. Ah, morro de saudade da família e da comida de casa, isso faz muita falta.
Mesmo começando tão bem e sendo elogiada pela imprensa especializada você tem medo em relação às escolhas que fez?
Não sinto medo ou arrependimentos em relação às escolhas que fiz até aqui. Pelo contrário, eu escolhi esse caminho. Então entrei de cabeça e percebi que, desde que assumi para mim que eu queria cantar de verdade, as coisas começaram a engrenar. Acho que faltava essa determinação minha. Agora, como eu disse antes, a música é um caminho incerto e isso às vezes causa certa ansiedade. O medo faz parte de qualquer profissão e escolha, mas eu tenho sorte de estar bem amparada, envolta de pessoas que cuidam de mim, sempre me acompanhando e aconselhando da melhor maneira.
E Bragança? Qual tua melhor lembrança da cidade?
Tenho as melhores lembranças possíveis de Bragança. Minha família por parte de pai é quase toda bragantina e meus avós ainda moram na cidade. Lembro de momentos muito especiais com a minha família e de férias inesquecíveis. Praticamente me criei em Ajuruteua e sinto muita saudade daquela praia. Quando penso nela, me vem imediatamente uma sensação gostosa de liberdade, de sentir os pés na areia e daquele vento forte. É um lugar mágico pra mim, assim como Bragança.
Qual a música que você quer fazer? Tens essa ideia ou é uma coisa que ainda está em construção?
Bem, como você mesmo disse, o artista está sempre em transição, sendo aquele que está começando ou mesmo o veterano. Acho realmente muito difícil se definir um trabalho e encaixá-lo dentro de um determinado estilo musical. Prefiro não fazer isso, gosto mais de ter certa liberdade pra criar e escolher caminhos musicais no meu trabalho.
O que precisa melhorar na artista Luê?
Sempre tem o que melhorar, eu acho. Mas a cada show procuro cantar melhor, tomando cuidado com a afinação e respiração, procuro também tocar melhor o meu instrumento, aprimorando as técnicas e aprendendo outras novas. Acho que o tempo é mesmo de aprender e buscar sempre melhorar naquilo que me proponho a fazer.
Com quem sonhas em cantar e com quem deu orgulho de já ter cantado até agora?
Queria ter a oportunidade de um dia cantar com Caetano, Geraldo Azevedo, Gil... Ai, são tantos! Mas, recentemente, tive a super-honra de cantar com o Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos, no carnaval de Salvador, e foi legal demais. Outra felicidade foi cantar com o Otto. Participei de uma faixa do disco novo dele e também de alguns shows cantando a mesma música. E fico sem palavras, o show do Otto é sempre muito intenso, muito emocionante.

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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