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Cartum que vale por mil palavras
 
Ele já teve uma série de charges exibida por um ano nas vinhetas da Globo, tornou a Amazônia a rota mundial do Humor Ambiental, e relembra, aos risos, do porre que tomou em terras estrangeiras ao ser o primeiro brasileiro vencedor do Festival de Humor na Bélgica, um dos mais importantes e tradicionais salões de humor da Europa. “Depois de muito vinho, misturei inglês e francês no discurso de agradecimento!”. Referência quando o assunto é cartum, crítica e humor na Amazônia, o surpreendente Biratan Porto completa quarenta anos de carreira... tocando bandolim! “O samba me contagia”, conta o boêmio que adora um carnaval. Desenho e música fervilham na cabeça e no coração do artista, nascido há 65 anos em Belém, “filho de mãe violinista e pai espirituoso”. “Escrevo crônicas, toco bandolim com amigos e conto piadas. Continuo com projetos novos e outros sonhos”. Confira a entrevista exclusiva de Biratan à Revista Leal Moreira, sobre as quatro décadas de carreira e sobre a aventura de pensar a Amazônia entre a crítica e o riso.
 
São 40 anos de carreira. Onde tudo isso começou? Como o traço e o humor tornaram-se profissão? 
 
Passei do desenho artístico para o traço de humor na década de 70. Influenciado pela febre do jornal O Pasquim, que era a bíblia do desenho de humor no Brasil e que só tinha feras fazendo charges e escrevendo críticas contra o regime da ditadura: Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Guidacci, Ivan Lessa, Sérgio Augusto e tantos outros. Aconselhado pelo meu amigo de infância de Castanhal, o cineasta Chico Carneiro, enviei uns cartuns meus para a redação do Pasquim. Qual a minha surpresa? No final de semana chega o Chico Carneiro com um exemplar de O Pasquim nas mãos e me diz: “olha o teu desenho aqui!” Alegria total. Pretexto para festejar e tomar muitas cervejas em algum boteco de Castanhal. A partir daí, produzi muitos desenhos, caricaturas e passei a publicar como colaborador no periódico “A Província do Pará”[extinto em 2001]. Em 1978, o diretor do jornal, o saudoso amigo Roberto Jares, me contratava para fazer a charge diária. Trabalhei lá por 23 anos consecutivos fazendo a crítica política através das charges. Neste ínterim, entrei para a UFPA, onde me formei em Comunicação Social, no curso de Publicidade e Propaganda.
 
Filho de uma aspirante a violinista e irmão de João Porto, artista plástico, certamente essa atmosfera de criação em casa também te influenciou. 
 
Estas duas atividades desenho e música ocorreram em tempos distintos. Comecei a desenhar e muito mal quando tinha doze anos, pela década de 60. Apreciava os retratos em crayon que o meu irmão mais velho João Porto fazia. Eram desenhos muito bem feitos de artistas, celebridades da época. Passei a copiar desenhos de histórias em quadrinhos e também a fazer retratos em crayon. Com exercícios diários, melhorei. O interesse pela música veio pela minha mãe, que, quando jovem, tocava violino. Desde menino via um velho cabo de violino pendurado na cumeeira de nossa casa. Curioso, perguntei sobre aquele resto de instrumento musical. Contou-me que tocava um pouco violino, mas que o meu pai, o Seu Prêntice Porto, ficava enciumado com as valsas tocadas pela minha mãe. Sabe como é: a música alegrava a noite da calma vizinhança e podia criar um fã-clube na época. E assim o violino foi deixando de ser tocado e só restou o cabo. Eu vim me interessar em tocar algum instrumento muitos anos depois, já aqui em Belém. Foi quando o grande e saudoso amigo Aldemir Ferreira da Silva fundou a Casa do Choro. O bandolim foi o instrumento musical com que mais me identifiquei. Hoje, aos domingos, sempre toco com os amigos na grande Casa Do Gilson, que é a continuação da Casa do Choro do Aldemir. Aí, virou um festejo. O samba me contagia. Passei a produzir máscaras em papel machê que homenageiam personalidades, entre elas, Chico Buarque, Cartola, Adoniran Barbosa, Grande Otelo, Noel Rosa, todo mundo sai durante o carnaval no Bloco “Os Irrecuperáveis”.
 
 
Viver de humor no Pará, na Amazônia, deve trazer peculiaridades. Quais são os principais desafios? Quais são as principais motivações de se fazer humor e trabalhar com o desenho crítico num contexto como o nosso? 
 
Um dos principais desafios é estar bem informado. Trabalhar em jornais ou outro meio de comunicação na Região Amazônica, uma área rica e que desperta interesse em todo o mundo, é a garantia de informações para o jornalista, para os pesquisadores. Para o chargista é um prato cheio. Convivemos com desmatamentos, grilagem de terras, enchentes, tráfico de animais, rota de drogas. O trabalho do cartunista é deglutir essas informações e ruminar uma boa charge criticando esses atos danosos. Claro que essa crítica antes de ser publicada passa pelo crivo da linha editorial do jornal. Afinal todos têm interesse em alguma coisa em nossa região. Fora deste contexto político e social, existem oásis para alegrar o espírito dos guerreiros cartunistas: são as exposições, as participações em salões de humor, as publicações de livros e os prêmios. A Amazônia me inspirou a produzir cartuns ecológicos, coisa que já faço há pelo menos 30 anos e que me renderam três livros e várias exposições pelo Brasil e exterior.
 
Você organiza o Festival Internacional de Humor da Amazônia. Quando você passou a perceber que o desenho poderia ser um meio de propagar a complexidade da nossa região?
 
O problema ecológico afeta todo o globo terrestre e os cartunistas falam a mesma língua quando fazem suas críticas. É tão certeiro, que geralmente só a imagem sem balão dá o seu recado. O Festival de Humor, que já está na sétima edição, recebe, em média, trabalhos de 35 países. E ter Belém do Pará como a capital do humor ecológico no mundo é um privilégio. Creio que uma das saídas para os problemas do meio ambiente é a conscientização. Seja por meio do desenho de humor (quadrinhos, animações, livros, oficinas) ou outras mídias (música, teatro, instalações, interferências urbanas, cinema). Esta geração é bem melhor que a nossa em relação à consciência ecológica. Portanto, vamos apostar nela por um mundo melhor.
 
Falando em festival, você conquistou o primeiro lugar no International Cartoon Festival of Knokke-Heist, um dos mais importantes e mais tradicionais. Como foi alcançar tamanho reconhecimento?
 
Fiquei realmente muito feliz quando recebi a notícia que havia ganhado o primeiro lugar no Festival de Humor na Bélgica, em 2002. O convite era para eu ir receber pessoalmente o prêmio, com passagens e hospedagem pagos pela organização do evento. Viajei só, sem saber inglês e francês. A viagem de dez horas, com escala em Lisboa, era noturna. Todos os passageiros dormindo e eu acordado igual um zumbi, posto que eu não havia dormido na noite anterior por pura ansiedade. Finalmente aterrissamos no aeroporto de Bruxelas. Uma imensidão de escadas rolantes, horizontais, inclinadas. Fui seguindo um pessoal que desembarcou junto comigo, com o intuito de ir para a área das bagagens. Em determinado momento, o grupo que eu acompanhava se defez: seguiu um pra cá, outro pra lá e eu fiquei sozinho parado no meio do salão. O nervoso me assaltou. Peguei um pequeno guia de viagem e saquei a frase salvadora: “Where is the mats of bags?”, perguntei a um passageiro e ele fez com o dedo: “siga-me”. Trilhamos umas três escadas rolantes e descemos outras tantas. Finalmente cheguei às esteiras.Umas dez. Fiquei procurando no painel o meu voo de Lisboa e não encontrava. Depois de uma hora de tensão vi uma solitária maleta rodando sozinha numa esteira. Era a minha. No painel estava “voo Lisbon”. Como ia saber que Lisboa é Lisbon? Finalmente cheguei à cidade de Knokke-Heist. Bebi tanto vinho no dia da premiação que misturei francês e inglês nos agradecimentos aos organizadores. O cerimonialista que era bilíngue cortou e me salvou: “Okay, okay! Congratulations, Mr. Biratan!”.
 
 
Recentemente, você lançou ‘Caricaturas de Letra’. Um projeto que celebra grandes personalidades das artes com caricaturas a partir das letras das iniciais do próprio caricaturado. Uma ideia formidável.
 
A publicação deste livro me deu muito prazer. Além de ter descoberto um novo viés na linha do humor, teve um bom reconhecimento de leitores. Ganhei prêmios com Caricaturas de Letras, fiz exposições e continuo produzindo as “Caricaletras”, termo batizado pelo meu amigo Fernando Jares. As minhas caricaletras preferidas são da Marilyn Monroe, Fernando Pessoa, Sammy Davis JR., The Beatles, Grouxo Marx e Buster Keaton.
 
Biratan, quando você decidiu enveredar por essa carreira, dava para prever, naquele momento, onde você queria chegar na sua trajetória? Após 40 anos como cartunista e desenhista, quais os planos para o futuro?
 
Quando comecei profissionalmente, não pensei que pagaria as minhas contas com a produção dos meus desenhos e que me aposentaria nessa atividade. Viva o Humor. Hoje, meu estúdio é em casa mesmo. Na verdade, preciso somente de bons computadores, com configurações para imagens de qualidade e internet. Me divido entre várias atividades: ilustrações, animações, projetos gráficos, esculturas, composições musicais, oficinas de humor e meio ambiente. Quando sobra um tempinho, escrevo crônicas, toco bandolim com amigos e conto piadas. Continuo com projetos novos. Um livro de crônicas com o parceiro de letras e músicas Max Reis, um livro de tirinhas do Pavilhão 7, animações ecológicas, produção de documentários e outros sonhos.
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