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Cidadãos Alados

Fala-se muito que a internet e principalmente as redes sociais na web, tornaram o mundo pequeno. Isso é muito verdade mesmo. A rede mundial de computadores permite acesso a um volume imensurável de informações, de conteúdos, de paisagens e a seres humanos e desumanos, estejam onde elas estiverem. Até a barreira do idioma já está quebrada pelos tradutores online. Mas um outro fenômeno, talvez menos badalado na mídia e menos percebido, certamente causa efeitos e mudanças muito mais expressivas e que ainda vão precisar ser muito estudadas. Trata-se do acesso cada vez maior ao transporte aéreo.

Até bem pouco tempo, principalmente no terceiro mundo, de onde o Brasil vem saindo nas últimas décadas, viajar de avião era uma solenidade, uma comodidade ainda não tão cômoda, mas acessível a poucos privilegiados. As pessoas vestiam sua melhor roupa pra embarcar numa aeronave, uma conquista que agregava muito status e glamour. De uns tempos para cá, viajar de avião, a passeio ou a trabalho, está se tornando cada vez mais corriqueiro. É quase banal como pegar um ônibus ou um táxi. A Organização Mundial do Turismo informou que no ano de 2012, pela primeira vez na história do mundo, o número de turistas internacionais passou de 1 bilhão.

Este é um fato que certamente já está causando uma série de transformações de comportamento, de hábitos de consumo, hábitos alimentares, de lazer, exigências, consumo de entretenimento, de formação de opinião, de entendimento do mundo. Principalmente para os segmentos sociais de baixo poder aquisitivo, até  então excluídos das linhas aéreas, pessoas que antes nasciam, cresciam, viviam e morriam e viajavam apenas no pensamento e na imaginação.

Viajar de avião quebra isolamentos, é diferente de saber, de ouvir contar, de ler, de estudar, de ver na TV ou na internet. As pessoas podem cada vez mais presenciar, se encantar, desencantar, reencantar, tirar suas próprias conclusões, misturar suas visões de mundo com as de outros mundos, e influenciar outras pessoas quando voltam para o lugar onde vivem. Mudando ou não a sua realidade cotidiana.

Viajar de avião, assim como o acesso a internet e a produção pessoal de conteúdos, frequentemente quebra a hierarquia do poder da informação. Antes, por exemplo, um governante de plantão poderia dizer que aquela obra inaugurada por ele era a mais bela do país. E a maioria da população tendia a concordar, já que o conceito de país se resumia a um raio de 500, 600, no máximo 1000 quilômetros.

Agora, uma fatia cada vez maior da população vai a outras cidades, outros estados e até mesmo a outros países, outros continentes. Compara, avalia, analisa, vive, convive e tem outros subsídios para concordar ou não.

Esse vai  e vem voador certamente já está influenciando as decisões de voto nos processos eleitorais, as decisões de compra de produtos e serviços, o relacionamento com as marcas, com produtos culturais e até com a própria religião. É uma oportunidade imensa de novos negócios, novos produtos, novas propostas e novas idéias. Os governantes, executivos de marketing, publicitários, sociólogos e antropólogos, cientistas, já devem estar desenvolvendo muitos estudos para mensurar a influência que o dom de voar está gerando nas pessoas.

Talvez muita gente  que agora vive viajando ainda nem se dê conta das possibilidades que o fato de ter asas pode gerar na sua vida, já que muita gente as vezes voa 2000, 3000, 5000 quilômetros e só vê ou consome aquilo que está relacionado com o seu universo de vaidades da sua origem e não se permite olhar um palmo além dos roteiros do mainstream. Por exemplo, é cada vez mais comum um cidadão sair do Rio Grande Sul para brincar o carnaval em Salvador, passa quatro dias pulando dentro de um quadrado, não se relaciona com nada único da capital baiana, e volta pra casa com a mesma experiência que teria se participasse de uma micareta em Porto Alegre. Ou seja, ainda tem muita gente que sai do lugar mas não voa, não amplia o olhar. Mas preferencias não se julgam, nem se discute, mas até isso vai mudar com a onda voadora.

A medida que as pessoas forem percebendo que viajar de avião é muito mais do que estar em outro lugar, mas acima de tudo, é estar em outro universo de costumes, de visões de mundo, de organização política e social, esse fenômeno de massa vai bagunçar muitas certezas, convicções e verdades assimiladas ou impostas.

Assim como os bravos navegadores da antiguidade traziam sozinhos notícias e novidades de novos mundos, hoje toda hora os aeroportos estão lotados de pessoas pousando  com excesso de bagagens, gente vendo, vivendo e removendo bens materiais ou imateriais e construindo uma sociedade nova, formada progressivamente por seres alados. Se isto será uma evolução ou um retrocesso da espécie, só a história vai dizer. E voando!

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