
Diz-se que “filho de peixe, peixinho é” e Gregório Duvivier não podia fugir à regra. Quebrar regras e transgredir são, aliás, características constantes - e diferenciais - na carreira deste artista multifacetado.
"No fundo eu sou otimista/ mas sempre imagino o pior/ me cansa essa vida de artista/ mas cada vez o prazer é maior”. Foi Rita Lee, a grande deusa do rock brazuca, quem escreveu a letra de “Doce de Pimenta” – inspirada por outra unanimidade, a pimentinha Elis Regina. Certa feita, uma voz profunda e diapasônica tratou de regravar a pérola; e cantou com tanta sinceridade que fez parecer ter sido escrita por ela mesma. Era Olívia Byington, mãe de Gregório Duvivier. Era uma interpretação biográfica, claro, mas também profética: apesar de o registro ter ocorrido seis anos antes de seu nascimento, seria perfeitamente factível que Olívia cantasse tais versos para o filho. Gregório, tal qual a cantora (e também como o músico e artista plástico Edgar Duvivier, seu pai), é um artista. Ponto. Em sentido lato e apaixonado pela condição de sê-lo, como só artistas de verdade podem ser.
Não dá para negar que parte desse compromisso com o fazer da arte vem de ter sido plantado em terreno fertilíssimo. Duvivier cresceu em meio a discos, palcos e instrumentos musicais – e não só orgulha-se disso, como também escancara a gratidão por ter sido dessa forma, e não de outra, a sua criação. Ainda criança, atou laço com o teatro – para driblar a timidez e a pouca sociabilidade. Lá, nas aulas do Tablado, floresceu. Descobriu-se com o passar dos anos, além de ator, humorista; juntou-se a outros grandes de sua geração e ajudou a popularizar (e dar contornos brasileiros a) um tipo de comédia que até então pouco se via por aqui sem ser com legendas. Com o grupo Z.É. – Zenas Emprovisadas, circulou o Brasil e ganhou prêmio fazendo rir de improviso, ao lado de Marcelo Adnet, Rafael Queiroga e Fernando Caruso. Fora dele, fez um monte na TV e outro tanto no cinema, sem nunca largar os palcos que lhe ensinaram e renderam tanto – incluindo premiação da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro por sua atuação no monólogo “Uma Noite na Lua”, em 2013.
Já seria um grande feito se tivesse parado por aí, mas não. Gregório levou a criatividade do palco para os bastidores, se mostrou um excelente roteirista e esteve por trás de boas ideias da televisão. Não satisfeito, levou a bagagem adquirida ao longo dos corridos anos de carreira para o terreno instável da internet, na parceria com outros amigos igualmente talentosos. Nascia em 2012 o Porta dos Fundos, uma ideia boa de liberdade sem nenhuma garantia. As esquetes de humor começaram tímidas na produção, mas destemidas no conteúdo. Três anos depois, o Porta é um portal – absurdamente popular, um fenômeno com milhões de visualizações em cada uma das postagens do grupo no YouTube, e que abriu caminho para outros canais que vieram depois. Talvez nem saibam direito, mas os amigos escreveram seus nomes na história da comunicação brasileira – e o tímido Gregório se viu virar uma celebridade em nível inimaginável.

Já seria um grande feito se tivesse parado por aí, mas não. (Jornalisticamente, é erro grosseiro começar dois parágrafos seguidos com a mesma oração, mas aqui cabe: outra vez, nosso personagem não ficou onde poderia ter ficado). Graduado em Letras pela PUC-Rio em 2008, Duvivier conduziu paralelamente a todo riso e diversão uma bonita jornada junto às palavras. Lançou dois livros de poesia, sendo “Ligue os Pontos: poemas de amor e big bang” o mais recente, de 2013 (também lançou outro no ano passado, o “Put Some Farofa” – já na linha das crônicas e opiniões). Gregório escreve como quem se perde falando sobre a vida, muito leve; pouco ponto, pouca vírgula, muita cadência. Muito carioca. Sua habilidade de ar displicente (não se engane – o estilo é despretensioso, mas elegante) cativou mestres como Ferreira Gullar e Millôr Fernandes.
No meio de tudo isso, Gregório Duvivier ainda colabora com o jornal Folha de São Paulo como colunista. Lá, mantém o bom humor como moldura para posições contundentes, convictas. É crítico, às vezes cirúrgico, o que atinge de tabela até mesmo parte da formação política nebulosa dos próprios leitores do veículo. Ele sabe que faz parte, “tudo que a gente faz é político”, ele diz. E tudo que Duvivier pensa é, ou se tornará, arte. Como nada basta, agora ele está aprendendo a tocar trombone.
Gregório não tem nem 30 anos, nem previsão de sossegar. Ainda bem.
Num papo rápido e leve com a Revista Leal Moreira, ele falou sobre humor – claro – e trabalho, mas também sobre música, memórias afetivas, o Rio de Janeiro e algumas voltas por Belém. Confira:
Você pôde observar, desde a infância, a relação dos seus pais com a arte e a fama. Como foi pra você, criança, compreender a ideia de pertencer a uma família pública?
Eu fui muito a Belém quando pequeno. Minha mãe fazia muitos shows aí, todo ano. E eu sempre ia junto, assistia aos shows no Theatro da Paz... A gente ficava todo mundo na cidade, ia ao Ver-O-Peso; meu pai lançou um disco chamado “Sopro do Norte”, inspirado pela música daí, da qual ele sempre foi fã. Gosto muito de Belém. Tô contando tudo isso porque eu realmente sempre tive esse convívio, desde pequeno. Com certeza me formou muito observar meus pais e a maneira como eles lidavam com a arte, com a música; e a dificuldade de fazer arte nesse país. Eu nunca vi a profissão pelo lado glamoroso. Sempre tive acesso à coisa prática, sempre tive intimidade com a realidade do trabalho. E ainda assim o escolhi, talvez porque também tive acesso ao prazer de fazer arte. Sempre admirei muito o que eles faziam, e queria ser igual a eles.
Você consumia arte desde muito novo?
Muito, desde pequeno, sobretudo a produção dos meus pais. Eu pedia pra ir aos shows quando eles viajavam pelo Brasil; ficava lá sentado na primeira fila, batendo palma. Eu adorava os CDs deles. Sou muito fã dos meus pais, tive muita sorte de crescer com eles.
Quando esse contato deixou de ser de observação e você passou a produzir arte?
Quando eu tinha nove anos, fui parar no Tablado e me apaixonei pelo teatro. Fiz amigos lá e percebi que era isso que eu queria fazer pelo resto da minha vida. Foi nas aulas de improvisação, na verdade, que eu me apaixonei de vez. Sempre tive muito fascínio pelo palco, e foi o teatro que me levou pra esse lado.

E o humor?
O humor vem muito junto com o teatro. Quando você estuda teatro e improvisação, o humor simplesmente acontece, é muito natural. Parece que ele é quem te escolhe. Não é você quem busca o humor. Lá no Tablado foi assim. Quando eu vi, já estava junto de um pessoal superengraçado e talentoso, e que me aceitou no grupo – como o Fernando Caruso, o Rafael Queiroga, o Marcelo Adnet... Eu fiquei muito lisonjeado, e foi com eles que eu aprendi muita coisa.
Você já era bem conhecido pelo trabalho como comediante no Z.E., e pela popularização desse tipo de humor no Brasil. Mas com o Porta dos Fundos isso ganhou outra dimensão. Você esperava alcançar esse nível de popularidade?
Nunca esperei. O Porta foi uma surpresa gigantesca. Até porque no começo de tudo, a gente fazia na guerrilha. É incrível que uma coisa que a gente fazia entre amigos tenha tido um alcance tão grande, de milhões de visualizações em cada vídeo. A gente tem uma média de três ou quatro milhões de pessoas nos assistindo em cada episódio. Eu fico muito feliz com isso. É uma coisa quase artesanal, em termos de produção, tendo um alcance industrial. Acho que é o sonho, né?, dos artistas de modo geral. Fazer uma coisa de qualidade, algo autoral, mas ao mesmo tempo com um alcance enorme. E com liberdade.
Essa popularidade absurda, macro, que você atingiu com a internet também apresentou você a quão cheias de ódio as pessoas podem ser no ambiente virtual. Como você lida com as agressões, os comentários maldosos, a loucura toda?
Cara, eu não leio. Não fico nem sabendo. Eu acho que o amor é tão maior que o ódio – inclusive falando de quantidade; acho que tem uma média de 10% desgostando e 90% de likes [nos vídeos do Porta dos Fundos]. Os haters são bem mais barulhentos, claro, mas não se comparam em termos numéricos aos que curtem e apoiam. Então não faz sentido dar importância a eles.
Você é colunista do jornal Folha de São Paulo, e faz questão de deixar claros os seus posicionamentos políticos nesses textos. Mesmo nos vídeos do Porta, é habitual perceber uma posição nesse sentido. Você tem reiterado esse papel do humor nas suas entrevistas. Fazer humor é fazer política?
Sim, eu acho que tudo que a gente faz é político – um artigo jornalístico, humor, arte, tudo. A gente tá sempre assumindo uma posição. A imparcialidade é um mito. Ainda mais no humor. No humor, você tá sempre batendo em alguém. Pode ser num conceito, pode ser numa pessoa, pode ser em você mesmo... Mas a gente tá sempre, de alguma maneira, rindo de alguma coisa. E aí você está tomando um partido, uma posição. Nesse sentido, o humor – assim como a imprensa – é sempre político, e sempre parcial. A questão é você saber escolher um lado; ter discernimento pra estar do lado “certo”: o lado mais corajoso, o lado do mais fraco... Um lado que, politicamente, é mais responsável, na nossa opinião, claro. Lógico que isso é muito subjetivo, mas é importante ter consciência dessa subjetividade. Você não consegue sair do sujeito, da subjetividade, sobretudo no humor.
Seu livro “Ligue os Pontos: poemas de amor e big bang”, de 2013, tem – para além de poemas de amor – uma bela carga de melancolia e de memória afetiva pelo Rio de Janeiro. De onde vêm esses sentimentos? Você é que nem a canção do gaúcho Wander Wildner e “não consegue ser alegre o tempo inteiro”?
O Rio tem esse mito de ser uma cidade eufórica, alegre. Até é, às vezes, como no carnaval... Mas mesmo no carnaval tem muita tristeza. O Rio é uma cidade também melancólica, nostálgica. É uma cidade muito bonita, com vinte mil problemas – óbvios, que todo mundo conhece, então nem interessa – mas tem uma tristeza que eu acho bonita, uma melancolia... Em vários bairros, como Laranjeiras, Botafogo, a Urca tem essa coisa mais antiga, mais velha, que também é linda. O Rio tem uma cultura muito áspera da pedra, que todo lugar pra onde você olha tem uma pedra, uma montanha. Tem um contato muito forte com a natureza geológica, que se apresenta o tempo todo, e que é a cara do Rio. Você nunca esquece que está no Rio quando está no Rio. Você lembra o tempo todo. A cidade é muito presente no carioca. Todo carioca se define muito como carioca, gostando ou não. Tem o Rio muito presente na personalidade, na vida, na memória. É uma cidade onipresente pra quem mora aqui. Então também é onipresente no que eu escrevo, com certeza. Tá lá, em tudo. E tem isso, né? De não ser sempre alegre (risos).
Tem alguma coisa que você ainda não fez e queira muito fazer, dentro da arte e fora dos nichos em que atua hoje?
Eu tô aprendendo a tocar trombone (risos).
Você tá aprendendo mesmo?
Tô (risos). Ano que vem eu vou estar aí nos bloquinhos, tocando trombone.
Você já teve uma relação mais profunda com a música antes, para além do papel de ouvinte?
Meu pai sempre tentou me ensinar a tocar clarinete, saxofone. Eu já fiz musical cantando, sempre gostei de cantar. Mas nunca levei tão a sério um instrumento mesmo, e agora tô aprendendo o trombone. Tô adorando, é muito divertido. E como é difícil, também!
Quando você tiver um filho e ele disser que quer ser artista como você, o que você vai dizer pra ele?
Ah, eu vou dizer... (para e pensa) “Se você conseguir fazer outra coisa, faça” (risos). Agora se for realmente o sonho da sua vida, vá em frente, porque afinal de contas é uma profissão muito linda e muito recompensadora. Eu vou ter muito orgulho, na verdade. Mas vou ter que dizer “espero que você não esteja pensando que é fácil...”.
