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Criatividade sem limites

Um homem à frente do seu tempo; um gênio, na forma renascentista de entender o termo; profissional brilhante, consagrado internacionalmente em sua profissão; um homem inconformista e sonhador; um menino que, no fundo, continua perseguindo seu sonho: criar. Ele, que foi durante cinco anos eleito o melhor cozinheiro do mundo, carrega consigo meio século de histórias e comemora seus raros momentos livres com a família – uma agenda tão ou mais apertada do que quando reinava atrás dos fogões do elBulli.

Para o chef Ferran Adriá, o período “sabático” que ele impôs ao elBulli está longe de ser sinônimo de calmaria. Adriá está cheio de projetos e trabalhando na organização, a “elBulli Foundation”, um centro experimental sobre a eficiência em criatividade gastronômica.O setor já espera ansioso, talvez simplesmente para ver o que nos reserva esse gênio inquieto chamado Ferran Adriá.

Uma palavra: criatividade

Nascido em L’Hospitalet de Llobregat, cidade anexa a Barcelona, Adriá começou na cozinha do restaurante de Cala Montjoi, na localidade costeira de Roses (próximo à França), onde ficou por mais de 25 anos, quando em, 1984, decidiu se unir a um projeto, que só interrompeu em 2011, uma parada, segundo  próprio, “para refrescar as ideias”. Quando chegou, o elBulli já contava com duas Estrelas Michellin, mas foi a “mãozinha” do catalão [“o toque mágico” seria o termo mais justo] que consagrou o estabelecimento e que conquistou a terceira estrela (em 1997), proporcionando um reconhecimento internacional nunca visto até então na gastronomia – tudo graças à essa máxima que persegue o chef: a criatividade. Destacar a importância na evolução bem sucedida do restaurante de seu diretor, Juli Soler, que agora sofre de uma doença neurodegenerativa e teve de se afastar nessa nova aventura, não significa que o novo projeto não terá a presença de Soler. “Sua magia e ilusão sempre estarão conosco”.

O gênio dos fogões recebeu a Revista Leal Moreira em seu estúdio, de onde coordena a fundação que vai maravilhar o mundo e que “falará de criatividade e de vanguarda, do que a gente gosta”, afirma. “Poderia ter me dedicado a abrir restaurantes e mandar... A ser empresário! Mas o meu negócio é inventar e quero continuar assim”. Gênio e figura simples, longe de carros caros e mansões de luxo, Adriá tem os pés no chão e é consciente do que esse novo projeto não é simples, “mas é o que meu corpo pedia”. E nem será fácil, “porque estamos começando do zero, sem referências, uma vez que é o primeiro centro desse tipo no mundo”. “Estamos certos de que o projeto começará a dar seus primeiros passos a partir de 2014, para quando está prevista sua inauguração”. “Na primavera de 2013, iniciaremos as obras, mas já estamos trabalhando nisso ativamente há um ano”, fala sobre o grande “monstro” que se erguerá no mesmo terreno do restaurante. “Deve continuar ligado a Cala Montjoi [uma vila espanhola, destino luxuoso de férias]”. Questão de origem.

O “hiato” do elBulli surpreendeu o setor, mas a cabeça de Adriá continua a 120%. “Passamos muitos anos trabalhando direto e duramente. Precisávamos parar porque o modelo criativo estava caindo numa rotina que podia comprometer sua continuidade, por isso, decidimos nos transformar para gerar uma mudança que nos motivasse a continuar criando. Agora estou mais ocupado do que quando estava no eBulli”, diz.

Amazônia: uma experiência fantástica

Sobre algumas das viagens que realizou recentemente [e que periodicamente o tiram da Espanha], comenta ter pisado em solo brasileiro. “Queria e quero conhecer como se trabalha lá [no Pará] e vou voltar com certeza”. De maneira mais enfática e empolgada, fala de suas conclusões sobre os produtos locais: “a cozinha brasileira é maravilhosa, chefs como [Alex] Atala ou Paulo Martins fizeram muito bem sua gastronomia, gerando uma corrente rica e muito interessante de novos chefs que, com certeza, vão se deparar com surpresas positivas num futuro não muito distante. É e será uma cozinha sábia e criativa, com identidade própria”. Palavra de chef.

Falando em particular, destaca do Brasil [e de toda a America do Sul] a variedade de ingredientes “sua magnífica matéria-prima”, como ele define. Sobre a Amazônia, ele não cansa de repetir que “quando o mundo conhecer seus produtos, se fará uma revolução. É a despensa mais impressionante que já vi”, fala maravilhado. O chef corrobora a tendência e se atreve a aventurar-se num dos produtos que deve triunfar em breve internacionalmente, “isso se já não triunfou”: o tucupi. “Ficou gravado na memória”.

Falando de Atala, Martins ou da cozinha local, Adriá aposta nela e em seus produtos como motores de crescimento e desenvolvimento econômico e gastronômico do Brasil. “A cozinha está avançando a passos firmes, somada às disponibilidades técnicas, aos talentos individuais que há lá”. Por isso, ele aconselha jovens chefs a se dedicarem de corpo e alma à profissão e às novidades. “Se você ama a cozinha, dedique-se com gosto, com honestidade e inconformismo. Nunca por buscar o sucesso. Esse não se busca, se encontra. Se você faz as coisas bem, quando menos esperar, alguém baterá à sua porta”.

Novos projetos, novas cozinhas

Quem aconselha é quem começou sem “padrinhos”, que passou por diversos restaurantes até encontrar aquele no qual poderia prosperar e mostrar o que tinha dentro de si. Ele foi o responsável pelo próprio caminho. Agora deve continuar caminhando para encontrar novas vias. “A criatividade não tem limites”, ele adora essa frase e, por causa dela, Adriá encontrou no seu irmão o aliado perfeito para continuar, dessa vez em uma segunda linha. Abriu, juntamente com Albert, que veio a fazer parte da equipe elBulli logo depois de Ferran, o “Tickets”, em 2010, um revolucionário conceito de bar de tapas  (entradas espanholas) na região de Barcelona e cuja administração tem preenchido parte de seus dias. Adriá está envolvido ainda na internacionalização do Tickets e na abertura, para logo, de um novo restaurante, desta vez da cozinha mexicana. “Nós somos apaixonado por ela”.  A coisa é não parar.

Conta o chef que o Tickets, e seu anexo, 41º, um bar, “onde também se pode comer” poderão ganhar filiais em Londres. “Foi um sucesso porque conseguimos colocar ao alcance da grande cidade a filosofia do elBulli, criando ‘tapas’ modernistas e vanguardistas que conseguiram envolver o público, tanto nacional, quanto estrangeiro. Sem dúvida, a tapa é uma maneira de ver a gastronomia espanhola facilmente compreensível em todo o mundo”. Quem diz é embaixador internacional da ‘tapa’ que, como homem renascentista, agora está ajudando seu irmão com um novo projeto parcialmente relacionado a esse formato tão espanhol  que se chamará “Jaguar” e nascerá na metade de 2013, ofertarando um conceito diferente de tapas e receitas baseadas na cozinha asteca. O “alquimista” [como também ficou conhecido no meio] cogita incluir algum produto brasileiro no menu. “A importância e a influência da cozinha latina no conjunto mundial já são realidade. E dela compõem-se também a cozinha peruana e a mexicana, e também – óbvio – a brasileira”.

Com vontade de continuar crescendo, deixamos Ferran Adriá envolvido com sua nova fundação e aconselhando seu irmão Albert, em todos os seus novos projetos. Também em projetos internacionais e sem limitações culturais nem gastronômicas. Ou, talvez uma: “odeio pimenta vermelha”. Um detalhe sem a menor importância. Coisas de gênio. Gracias, Ferran.

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