
Noite de uma sexta-feira de setembro em Nova Orleans. O French Quarter, bairro mais antigo e tradicional da cidade, está repleto de turistas caminhando atrás de música, diversão e alguns (talvez muitos) drinks – até o momento em que são surpreendidos por um inusitado cortejo. À frente, um grupo de músicos tocando standards de jazz. Logo atrás, um casal de noivos a caráter, obviamente recém-saídos da igreja. Atrás deles, dezenas de convidados que acompanhavam a cerimônia. Todos erguem lenços brancos com as mãos e cantam junto com a banda. A fama dos funerais de Nova Orleans (em que cortejos regados a jazz prestam tributos aos músicos que morreram) é conhecida, mas um casamento nesse estilo realmente é novidade. É a prova de que a cidade, uma das mais musicais e multiculturais dos Estados Unidos, sempre pode guardar surpresas incríveis para seus visitantes.
A música está por toda parte na capital do estado da Louisiana. O cantor e trompetista Louis Armstrong, conhecido pelo sorriso largo (que rendeu-lhe o apelido de “satchmo”) e por ter imortalizado alguns clássicos, dentre eles a bela “What a wonderful world”, batiza o aeroporto internacional e um dos principais parques da cidade. Cartazes que saúdam os turistas nas avenidas mais movimentadas estampam a mensagem “we´re jazzed that you´re here” (um neologismo que quer dizer algo como “estamos jazzificados por você estar aqui”). Na fachada de um hotel de uma rede internacional, a pintura gigante de um clarinete se destaca em meio aos demais prédios. Isso sem falar nos músicos de rua, que não têm hora para aparecer com improvisos e virtuosismos à espera (e em troca) de alguns trocados no chapéu.
O epicentro de tudo o que acontece em Nova Orleans é a Bourbon Street, a mais famosa do French Quarter. Mas a fama não se deve exatamente à música. A rua está repleta de clubes de striptease e bares que servem drinks “para viagem”, o que é um atrativo, já que Nova Orleans é um dos poucos lugares dos Estados Unidos em que não é proibido consumir bebida alcoólica na rua. Por isso, turistas (desinibidos) de todas as idades circulam ali. A maioria é de jovens, e muitos vão para fazer despedidas de solteiro. Mas também é possível ver casais idosos, mães com crianças de colo e pessoas em cadeira de rodas em meio a mulheres fazendo pole dance, hosts de bares oferecendo cerveja em jarras enormes e um homem fantasiado de Homer Simpson bêbado. Há música, claro. Mas a maioria dos clubes com música ao vivo tem como atrações bandas que tocam covers de pop e rock.
Os moradores da cidade (principalmente os músicos) condenam o processo de “disneyficação” da Bourbon Street, evidenciado pela grande quantidade de lojas de souvenirs em todas as quadras. Para eles, o lugar a se ir no French Quarter é outro: a Frenchmen Street, rua que fica a uma curta caminhada de distância da Bourbon. É lá que os moradores da cidade se divertem e ouvem novos talentos e bandas conhecidas da cidade. A programação não costuma se restringir ao jazz. Blues, R&B, soul e até música latina pode ser conferida por lá. Bares como o The Maison e o d.b.a não cobram ingresso, mas é de bom tom que o público contribua com uma gorjeta. Em alguns shows, os próprios artistas vão de mesa em mesa pedir o dinheirinho pra garantir a noite.

Independente do seu estilo musical favorito, o French Quarter tem um atrativo: a arquitetura. O bairro foi o ponto inicial da ocupação da cidade, fundada pelos franceses em 1718. Mas, apesar do nome, grande parte das casas e prédios que se veem na vizinhança tem estilo espanhol. É que dois grandes incêndios no final do século XVIII destruíram muitos exemplares da arquitetura colonial que havia antes. A reconstrução ficou por conta dos espanhóis, que administraram o estado da Louisiana na época. As casas são exuberantes, com paredes espessas, varandas em ferro forjado e fachadas de tijolo.
Outro destino em Nova Orleans para os amantes da arquitetura é o Garden District, que está separado do French Quarter por cerca de três quilômetros e um século. O Garden District foi criado para abrigar famílias americanas ricas que administravam as plantations (sistemas de cultivo de produtos como cana de açúcar e algodão, típicos dos anos 1800) que não queriam morar junto com os negros no French Quarter. Eles acabaram construindo mansões de diversos estilos: francês, grego, gótico e vitoriano, entre outros. Algumas das casas são históricas. Uma delas, no número 2301 da Saint Charles Avenue, foi a residência da escritora Anne Rice durante a infância. Outras celebridades que ainda moram no Garden District são o ator John Goodman e o jogador de futebol Archie Manning, um dos astros do New Orleans Saints, o time local que disputa a NFL.
Se a arquitetura de Nova Orleans é um mix de referências, a culinária da cidade não fica atrás. Circulando pelos restaurantes da cidade, você vai se deparar com dois nomes que eventualmente batizam os cardápios: cajun e creole. São palavras que remetem aos primeiros habitantes da região da Louisiana nos séculos XVII e XVIII: exploradores franceses, imigrantes de outras regiões da Europa e os nativos, fossem eles brancos ou negros. A cozinha cajun-creole utiliza ingredientes disponíveis em abundância na região, como feijão, arroz, tomate, frutos do mar e até carne de crocodilo. Entre os pratos típicos mais famosos, estão o gumbo (uma sopa com crustáceos e tomate) e o jambalaya (uma espécie de mistura entre paella e baião de dois). Tudo com muito tempero e pimenta, o que é a marca registrada da gastronomia local. Quem gosta de sanduíches não pode deixar de experimentar uma especialidade da cidade: o po’boy, que existe em diversas versões, com recheios que vão de almôndegas a linguiça de crocodilo, de camarão empanado a rosbife.
Sustos e lendas urbanas
Além de agradar aos ouvidos e ao paladar, Nova Orleans também pode ser fonte de histórias assustadoras. Costuma-se dizer que a cidade é uma das mais mal assombradas dos Estados Unidos. E, como a música e a culinária, o terror também é capitalizado para o turismo. Muitas agências oferecem passeios pelas casas do French Quarter que foram palcos de casos escabrosos. Um deles é a do Príncipe Suleyman, um turco que se dizia sultão de um país no Oriente Médio e alugou uma mansão no French Quarter no século XVII. A casa virou um harém repleto de mulheres e de eunucos para realizar festas regadas a música alta e jogos sexuais. Um dia, todos foram encontrados mortos e mutilados dentro da mansão, à exceção do suposto sultão, cujo corpo estava inteiro dentro de uma cova, onde parecia ter sido enterrado vivo. Além de histórias como essa, Nova Orleans tem lendas de vampiros, passeios em cemitérios (onde os mortos são sepultados sobre a terra e não debaixo dela, numa técnica pouco convencional) e onde há referências ao vodu por toda parte, já que a região teve muita influência africana no sincretismo religioso.

Esteja você disposto ou não a encarar o lado sobrenatural da cidade, Nova Orleans é puro encantamento para qualquer turista. Seja pela história, pela cultura, pela hospitalidade e pelo bom humor dos moradores, sempre há motivos para levar ao pé da letra o título de uma famosa canção que virou uma espécie de lema da cidade: “let the good times roll”. E em Nova Orleans, os bons tempos rolam sem parar.
Sempre há música no ar
Ver música ao vivo é um programa obrigatório em Nova Orleans. Uma das principais casas de shows da cidade é a House Of Blues (https://www.houseofblues.com ), que fica no French Quarter. A programação não se limita apenas ao ritmo que ajuda a batizar o local, já que também há shows de comédia e até noites de karaokê com bandas ao vivo. Para certeza de música mais tradicional, não deixe de ir ao Preservation Hall (https://www.preservationhall.com/), um santuário do jazz de Nova Orleans. Os shows acontecem de domingo a domingo e geralmente têm como protagonistas alguns dos músicos mais veteranos (e talentosos) da cidade. Já a programação da Maison (https://www.maisonfrenchmen.com/) geralmente está cheia de novos talentos locais. A casa também tem um ótimo restaurante. Colecionadores de discos também têm cantinhos para se divertir e abastecer na cidade. Para raridades de jazz, blues, R&B e soul, procure a Louisiana Music Factory (https://www.louisianamusicfactory.com/). Além de um bom acervo de música local e pop em geral, a Peaches Records (https://www.peachesrecordsneworleans.com/) também tem ótimos souvenirs musicais, como camisetas e canecas.
Entre um gole e outro
O French Quarter está repleto de lugares para se experimentar os sabores da culinária cajun-creole. Um deles é o Famous Gumbo Pot (Decatur Street, 600), que fica quase às margens do rio Mississippi. O restaurante serve frutos do mar e pratos típicos da cozinha creole desde o café da manhã. Para provar os po’boys, sanduíches típicos de Nova Orleans, o mais famoso local é o Johnny´s (https://johnnyspoboys.com/). Fora do French Quarter, uma opção é o Parkway Bakery and Tavern (https://www.parkwaypoorboys.com/). Os de camarões empanados são os melhores. Um po´boy bem inusitado é o de linguiça de crocodilo servido pela Crescent City Brewhouse (https://www.crescentcitybrewhouse.com/). Para acompanhar, escolha um dos cinco tipos de cerveja produzidos pela casa ou, quem sabe, uma degustação de todos. Depois do jantar, vale a pena tomar alguns drinks no Lafitte´s Blacksmith Shop (https://www.lafittesblacksmithshop.com). O bar, que tem uma atmosfera de taverna, chama para si o título de mais antigo dos Estados Unidos: está em atividade desde 1772.
A vida após o Katrina
A alegria e o alto astral de Nova Orleans foram abalados por uma tragédia, em 2005. O furacão Katrina inundou 80% da cidade, destruiu milhares de casas e matou aproximadamente duas mil pessoas. Estima-se que 124 mil moradores que deixaram a cidade na época, nunca mais voltaram. Muitas cicatrizes continuam abertas, especialmente em bairros que foram quase totalmente arrasados como o Ninth Ward. Há muitas casas danificadas, lotes inteiros desocupados e poucos serviços como transporte público e escolas. Por outro lado, a esperança de um futuro melhor foi semeada com a ajuda do pianista Harry Connick Jr. e do saxofonista Branford Marsalis. Eles se juntaram para bancar a construção de um bairro planejado para abrigar os músicos da cidade que perderam suas casas com o furacão. Marcado por habitações multicoloridas, o Musician’s Village virou uma atração à parte em Nova Orleans e também simbolizou o esforço para que a cidade não perdesse a tradição da música. Além das casas, o Musician´s Village também abriga o Ellis Marsalis Center for Music, uma espécie de híbrido entre escola e centro cultural.

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
Reply