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Doce revolução

No som, Justin Timberlake, Daft Punk, Two Door Cinema Club, hitsfamiliares àqueles que frequentam as festas de fim de semana. O espaço tem cores vibrantes. Grafite. Dá para ver alguns rapazes batendo papo, sentados numa mesa ao canto. A descrição podia muito bem ser da vida noturna em qualquer bar do centro da cidade – mas, aqui, o povo está interessado mesmo é em brigadeiro gourmet. Aquele menorzinho, sabe? Pois é, tem de todos os tipos. E não somente o sabor tradicional: são mais de 30 versões do doce.

Apesar do espaço aconchegante, aqui nada lembra uma casa comum. A decoração diferente tem motivo. “Geralmente, os homens ficam meio sem graça de entrar em um lugar todo rosa. Então fizemos o espaço para que homens, mulheres, crianças, todos se sintam à vontade”, explica Taiana Laiun, a proprietária.

A Brigaderie é uma das primeiras a vender brigadeiro gourmetem Belém – fenômeno que tomou conta da capital e trouxe de volta à baila as famigeradas docerias, tão populares na década de 90. Embora a loja tenha sido criada há pouco mais de seis meses, a história construída pelas irmãs Taiana, Taíssa e Andrea tem mais de dois anos. Começou com um ateliê na Travessa Benjamin Constant, em cima de um dos mais famosos bares da cidade. O local era identificado por uma campainha que tinha um adesivo com desenho de brigadeiro. Para chegar até lá, era preciso subir uma escada bem estreita. E, ao abrir a porta, o que se via era apenas uma cozinha simples.

Lá dentro, as três irmãs trabalhavam, “ralavam” muito para conseguir acertar o ponto das receitas. É que elas não tiveram ajuda profissional; e, com a cara e a coragem, resolveram pesquisar e criar os próprios doces. Para isso, houve muito desperdício. Elas, inclusive, nem conseguem lembrar quantas massas de cupcake, latas de leite condensado e barras de chocolate perderam nesses testes. Muita coisa foi jogada fora. Mas o resultado de tanto esforço chega a beirar a perfeição.

Entre os ingredientes, chocolate – mas só do belga. Esse diferencial está entre os motivos que fizeram a Brigaderie atrair tantos clientes. No início, os produtos só eram vendidos por encomenda, mas a aprovação foi tão grande que aqui e ali as meninas tinham alguma coisa para pronta-entrega. E era tanta mulher apertada naquele ateliê que não teve jeito: elas precisavam de um espaço maior. “O mais engraçado é que a gente pensava que não ia ter cliente pra vender nem 10 brigadeiros, e hoje vendemos 300 por dia”, conta.

De lá pra cá, as vendas praticamente dobraram, e o público variou bastante. Nas prateleiras, figuram ainda os produtos que fizeram a doceria ser um sucesso: brigadeiro tradicional, de cupuaçu com queijo cuia, recheado com Twix, churros... Todos viraram cupcakes, mas é difícil encontrar algum que supere a mistura de doce de leite com canela. A cada fornada, já tem uma fila de gente esperando pra sentir o gostinho que lembra as tardes de infância no Arraial de Nazaré – sabor que foi até copiado por outras docerias da cidade e de outros estados, como Goiás.

Os amigos também participam da confecção dos produtos. O de Negresco, inclusive, foi uma sugestão. Uma colega da Taiana viu na internet que era possível colocar o biscoito dentro de uma massa de brownie. E o resultado...? Espetacular!

As redes sociais ajudaram e muito a alavancar as vendas na Brigaderie. Taiana é fotógrafa profissional; e todo dia, no Instagram, fotos maravilhosas enchem os olhos e a boca de água de tanta vontade que dá. E as três irmãs não pensam em parar. Recentemente, foi criada a linha de sorvetes da Brigaderie, feita por nada menos que a Cairu, sorveteria paraense que já é famosa em todo o país.

E sabe por que? É só conferir lá no início da reportagem: Taiana leva o sobrenome Laiun. Isso mesmo. Ela é uma das herdeiras da sorveteria. Todos os sabores foram pensados por ela. Tem caramelo, pistache, amêndoas... Feitos justamente para serem degustados com os doces da Brigaderie. “Vamos trazer o chocolate do Combu pra colocar nos sorvetes. O objetivo é crescer cada vez mais”, diz Taiana.

 

Feito à mão

O sucesso dos brigadeiros abriu os olhos de muita gente sobre o mercado em Belém. Foi o caso da brasiliense Karla Jardim, dona da Feito à Mão. A loja foi inaugurada no início de setembro; e, de um mês para o outro, o crescimento nas vendas já foi de quase 30%. Mas não foi de cara que a empresária embarcou no mundo dos doces. Antes, Karla era gerente de uma empresa de transportes. Começou a se interessar por culinárias por causa dos filhos. Foram muitas frustrações nos aniversários das crianças até que ela decidisse que ia fazer tudo, dos docinhos ao bolo. Encarou cursos, viajou, se especializou. E como em toda festa tem convidados, os próprios começaram a perguntar de onde vinham tantas coisas gostosas. A partir daí, choveram encomendas. O problema é que tudo era feito na casa dela e o marido já não aguentava mais não poder nem sentar no sofá, que estava repleto de bandejas de brigadeiros.

Karla então começou a procura por um espaço aqui em Belém. Foi um casarão antigo, na Avenida Almirante Wandenkolk, que definitivamente conquistou o coração dela e o de sua sócia, a amiga Marisa Marins. Ele estava meio detonado – mas nada que uma boa reforma, comandada por um bom arquiteto, não desse um jeito. Foram quatro meses de obra. A ex-gerente de transportadora só tinha uma dificuldade: o nome. Foi então que num sonho ela se viu em frente a uma doceria, onde “Feito a Mão” estava escrito em uma placa. “Era uma casa antiga, com uma placa cheia de rococó. Virei para o meu marido, o Max, e disse que esse seria o nome”. O lugar do sonho era cheio de arabescos e flores. Isso também foi representado perfeitamente, segundo ela, pela arquiteta. A loja tem pintura clara, mas cadeiras com estofado colorido. O clima é gostoso e aconchegante. A impressão que se tem é que a gente saiu por alguns minutos do calorão de Belém. 

Para o cardápio, a grande inspiração foi a culinária francesa. Tudo muito artesanal. Um exemplo é o Crème Brûlée–doce feito de baunilha, leite e açúcar queimado –, que foi transformado em brigadeiro nas mãos da Karla Jardim. A receita é a mesma da sobremesa tradicional. Ela apenas estudou e encontrou uma forma nova de cozimento do doce, que dá pra enrolar com as mãos. Esse é o carro-chefe da doceria, mas existem ainda outros 55 sabores. Dá pra imaginar?

O regional também ganhou espaço: há brigadeiros de pupunha, cupuaçu e até tucupi. Tamanha originalidade faz Karla vender 400 docinhos por dia – principalmente às quartas-feiras, quando acontece um rodízio na Feito à Mão. Rodízio de brigadeiro. Parece loucura, né? Mas é verdade. Dá pra provar tudo. O difícil é só conseguir manter a dieta.

 

Eti Mariqueti

As mulheres definitivamente estão à frente das docerias em Belém. Há 10 anos, Mariucha começava em casa o que, futuramente, seria a Eti Mariqueti – uma das mais conhecidas lojas do gênero na cidade. Duas irmãs, com cerca de 20 anos de idade, iniciaram a vida profissional fazendo bolos e doces para aniversários no local de trabalho, na escola... E às vezes nem cobravam por isso. O que aconteceu foi que, de tão elogiados, os próprios clientes passaram a exigir o pagamento. Foi daí que a atividade despretensiosa, que era só pra complementar a renda mensal da família, virou coisa séria.

Mariucha Santos, uma das proprietárias, se formou em Publicidade e Propaganda, mas não exerceu a função. A dedicação foi total ao novo negócio. O nome veio do apelido da irmã Eliete Santos, a outra proprietária, que era chamada de Eti quando criança. O registro virou marca e sinônimo de bolo de brigadeiro. Sim, isso mesmo. É quase impossível olhar para um bolo de chocolate coberto por bolinhas confeitadas com granulado colorido e não falar imediatamente: “ esse bolo é da Eti Mariqueti”. Curiosidade: a ideia de fazer o produto mais famoso da doceria veio de outra irmã, a única que não trabalha na loja. Atualmente, são vendidas 80 unidades do bolo por dia. “Ela me pediu pra fazer um bolo cheio de brigadeiros. E deu muito certo, né? Ficou uma delícia e até hoje ela diz que vai me cobrar os direitos por ele”, brinca Mariucha.

Do bolo de brigadeiro, surgiu o de casadinho, o de cupuaçu... O negócio foi tomando forma e cresceu muito. Além da loja da Braz de Aguiar, existem ainda as da Boaventura e da João Balbi. E as irmãs não querem parar. Já começaram a fazer eventos, e o próximo passo é distribuir refeições. “A gente nunca quis o serviço mais refinado, sempre quisemos aquele gosto de coisa de família, que foi feito artesanalmente. Então queremos montar uma linha de semiprontos, mas esse é um projeto futuro”, acrescenta.

 

Doçura’s

Embora a retomada das casas de doce seja algo meio recente em Belém, nem todas as docerias aqui celebradas foram criadas nesta década. As tradicionais ainda têm espaço por aqui. É o caso da Doçura’s. Em uma sala pequena, de portas de vidro, ali mesmo, no meio da doceria, Suely Esteves atende os clientes que fazem encomendas para casamentos, festas de 15 anos... Ela conhece o nome e também o sobrenome de cada um deles. Possui uma relação de amizade com a maioria. Atende dos avós aos netos. Os pais, filhos, os tios, sobrinhos... São gerações que fazem parte da história da doceria, que tem mais de 30 anos.

Tudo começou na Rua 13 de Maio, no bairro do Comércio. Quem deu início à trajetória da Doçura’s foi a matriarca Alaíde Amaral, cozinheira amadora (ou profissional?), daquelas que aprenderam o ofício com a família. Fazia doces, salgados, o que pedissem. E apesar da concorrência – que, na época, era de duas ou três casas como a dela –, não se intimidava. Sempre confiou no que fazia, e encontrou na qualidade dos produtos a receita para também ter a confiança dos clientes que, sem dúvida, ela conquistou.

Não é à toa que, das concorrentes dos anos 70, poucas – talvez nenhuma –sobreviveram ao tempo. Nesse período, a loja ganhou cara nova. Das cores berrantes, que os arquitetos dizem dar vontade de comer, ao rosa claro, que lembra o conforto de casa de vó, tudo parece ter sido pensado detalhadamente. Até o apoio dos pratos foi feito com capricho. Mas o que faz a gente encher os olhos mesmo é a vitrine da loja. A variedade é tão grande que, mesmo sem fome, é impossível não querer provar pelo menos uma lasquinha.

O mercado mudou e a Doçura’s seguiu a tendência, apesar de ainda manter boa parte do cardápio original. Até hoje, o bolo de leite simples, sem recheio, sem cobertura, é o que mais vende na loja. Em um final de semana, saem aproximadamente 50. Mas no topo da lista também estão os bolos decorados. Tudo personalizado, de acordo com o pedido do cliente – assim como as caixas com brigadeiros gourmet, que Suely se gaba de ter mais de 30 sabores na doceria há pelo menos seis anos, antes do boomdo produto em Belém. “Tem gente que vem aqui e pede, de olhos fechados, pra gente fazer o evento. E nós fomos nos adaptando a todas as necessidades deles, às necessidades de mercado. Pesquisamos o que há de melhor aqui e fora do país”, diz Suely.

Com o passar dos anos, a Doçura’s também se adaptou às tecnologias. Suely já até perdeu a conta de quantas vendas fechou por Whatsapp, um aplicativo de mensagens gratuitas para celular. Uma forma de estreitar ainda mais a relação com os clientes; e, quando sobra tempo, com a família, que trabalha junto: além de Suely e sua mãe Alaíde, as irmãs Silvia e Silvana também cuidam do sucesso da marca. “Acho que, se não fosse um negócio familiar, a Doçura’s não funcionaria tão bem. Eu passo meu dia aqui, cada uma cuida de um detalhe, e assim a gente vai tocando o nosso negócio. Trabalhamos com os sonhos de muita gente e vivemos para torná-los realidade”, ressalta Suely.

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