Entre em Contato

Endereço

Ed. Metropolitan Tower - R. dos Mundurucus, 3100 - Cremação, Belém - PA

Telefone

+55 (91) 4005-6800
Carregando clima...
Carregando bolsa...
Ela é um doce

Ela é uma só. Basta uma palavra para você saber quem está cantando. Mas também é muitas. Cantora, compositora, instrumentista, escritora, relações públicas formada pela Universidade de Minas Gerais, dubladora, colunista de jornal. Nasceu em Serra do Navio, no Amapá, mas poderia ter sido em Belo Horizonte, onde vive há muitos anos. Ou, quem sabe, no Japão, como os seus avós. Começou com os cabelos curtos e vestida de “rapazinho” no Pato Fu. Hoje, tem os cabelos mais compridos (só um pouco), usa Ronaldo Fraga, é a mãe da Nina. Deu voz aos onze CDs e aos cinco DVDs gravados com a banda do coração, que permanece na ativa. Quando decidiu, a convite de Nelson Motta, produzir um álbum em carreira solo para homenagear Nara Leão, Onde Brilhem Os Olhos Seus (2007), ganhou prêmios e quiseram mais. Ela deu. Luz Negra (2009) trouxe em CD e DVD o show que percorreu várias cidades do Brasil. E aí, Andy Summers também quis. Com o ex-guitarrista do The Police, ela lançou Fundamental (2012). Fora as letras de música, é também autora dos livros Nunca Subestime Uma Mulherzinha (2007) e A Mulher Que Não Queria Acreditar (2011). “Uma dama requintada e esquisita”, como diria Adélia Prado, mas que ainda está “apreciando o caminho”. Assim, de pés no chão, Fernanda Takai é mesmo um doce. Real ou imaginário. Um barato total.  

 

Enquanto pensava nessa entrevista, muitas mulheres vieram à cabeça. Logo de cara, por exemplo, pela relação que você tem com Minas Gerais, Adélia Prado. Em um dos poemas de Bagagem (1976), ela se diz “requintada e esquisita como uma dama”. Você é uma dama como Adélia?

Acho que tinha um blog de nome ótimo chamado “Uma Dama Não Comenta”. Engraçado é que às vezes sei que as pessoas me acham um tanto esquisitinha. Se soubessem que sou apenas uma dona de casa que canta... Adélia tem uma aura de simplicidade, sabedoria e dignidade muito grande. Ainda não subi essa montanha. Estou apreciando o caminho.

Uma imagem emblemática do Pato Fu é do clipe de “Qualquer bobagem”, em que você, John e Ricardo Koctus estão no banco de trás de um carro, fazendo caretas. Li que, naquela época, você não queria ser apontada como a “mulherzinha” do grupo e por isso se vestia com as roupas dos rapazes. Conta mais sobre essa resistência.

Aos vinte anos eu pensava que a imagem de mulheres no palco era explorada de uma forma clichê e na maior parte das vezes é. Fui aprendendo que tudo depende do seu conceito e de todas as linguagens que se somam à sua música: roupa, luz, atitude, amizades, profissionais que estão à sua volta, equipe, músicos. Então eu diria que hoje estou mais atenta ao mundo. Não resisto mais. Demoro um pouco a dar a resposta.

 

Depois, você começou a vestir Ronaldo Fraga. Acho uma combinação muito boa, porque traduz no visual a força de sua personalidade enquanto cantora, mulher. É quase uma simbiose: uma mulher vestida de Ronaldo Fraga é um pouco Fernanda Takai! Como começou e a que você atribui o sucesso dessa parceria?

Ronaldo voltou da Inglaterra no mesmo período em que o Pato Fu começou a aparecer no cenário musical com mais força. Éramos da mesma cidade, mas nunca tínhamos trabalhado juntos. Precisou o Hugo Prata (diretor amigo, querido e muito competente) chamar o Ronaldo pra fazer o figurino de um videoclipe nosso. Depois do primeiro encontro, soubemos que havia muita coisa em comum entre nós. Ficamos amigos e repetimos várias vezes os encontros de moda, música, histórias, comida e bebida.

 

Por causa da suavidade de sua voz, muita gente pode imaginá-la como uma mulher frágil, delicada. Por isso, acho muito bom o título do primeiro livro, Nunca Subestime Uma Mulherzinha. Quais as situações recorrentes em que você se sente subestimada?

Na maior parte das vezes por mim mesma! Tem dia que a gente acha que não vai dar conta de determinada tarefa ou que não devia ter aceitado fazer um trabalho, uma participação... Mas acho também que a gente subestima as mulheres que estão perto demais de nós: nossas mães, tias, colegas de classe ou serviço. Pensamos que sabemos tudo sobre todos e nos surpreendemos com mudanças de atitude para o bem – para o mal, nem preciso dizer. Esse título vale pra homenzinhos também. Todo mundo tem dia de ser grande e de ser miúdo.

 

Qual a sua maior influência vocal, e por quê?

Gosto demais da Suzanne Vega. Ela é uma artista que canta de um jeito único, compõe maravilhosamente bem e toca um violão muito gostoso. Ouvi vozes diferentes ao longo desses meus 42 anos. A maioria absoluta de meus discos tem mulheres no vocal: Clara, Nara, Rita, k.d. Lang, EBTG, Goldfrapp, Rosa Passos, Dusty Springfield...

O seu perfil no instagram (@fernandatakai) revela uma forma particular de enxergar o mundo: frutas também podem sorrir, o contorno de uma torre também pode ser uma foca equilibrando uma bola, etc. Manoel de Barros que diz que “o olhar do voyeur tem condições de phalo (possui o que vê)”. É também subestimar uma mulherzinha pensar a visão sob essa abordagem masculina?

Mas Manoel de Barros é masculino, feminino... Vixe, ficou parecendo uma canção do Pepeu, né? Eu também não gosto muito dessa condição de gêneros muito separados em conceito e atitude. Acho que a gente pode ser quem quiser e ver o mundo com o desejo de possuir ou de libertar. Talvez eu pense um tiquim mais na libertação. Sempre fui uma pessoa certinha, com metas estabelecidas, boas notas e hoje eu tento não prender minha filha no meu esquadro. Isso me tem feito ser alguém melhor. De alguma forma, tudo que fica por aí em meu nome nos dias atuais, é um grande livro de memórias para as pessoas que me querem bem. E os inimigos poder dar uma olhadinha...

 

Você é um ícone do pop brasileiro. Citou a Rita, mas não posso deixar de pensar em Marina Lima. Ela sempre foi, igual a você e a Rita, uma pessoa singular, referência para essa nova turma de mulheres que tocam guitarra. Há influência dela na sua carreira?

Marina e eu sempre nos encontramos por aí, em desfiles, shows, aeroporto e há uma empatia enorme entre nós. Ouvi muito suas músicas. Sei que ela tem um cuidado grande com a vida, com a música e com as palavras. Então, finalmente a gente se encontrou pra compor. Aguardem!

 

A respeito dessas trocas e da carreira solo, quando você achou que seria necessário construir uma obra independente do Pato Fu?

Eu tinha colocado alguns limites pra minha carreira solo e percebi que estou quebrando todos. Questões de agenda, de conteúdo... Queria dar prioridade à banda, mas não é assim que a vida funciona. Não posso exigir fazer mais ou menos shows solo. Às vezes acontece eu estar muito ocupada com minhas coisas, assim como os outros integrantes. Estamos na estrada há 21 anos. Acho que há respeito e discernimento suficiente pra fazer tudo acontecer.

 

E para fechar com Alice Ruiz:

“O tempo leva / o poema / que o vento trouxe / Por um momento / viver foi doce”.

Viver é doce como a sua voz?       

Viver é doce mas tem dia que dói.

Muito.

  • Tags:
  • 0