
Situações corriqueiras e os sentimentos mais comuns no dia a dia de pessoas com vidas prosaicas, sem grandes acontecimentos, são o mote de “Krum”, o mais novo espetáculo que a atriz Renata Sorrah encena ao lado da Companhia Brasileira de Teatro, no Rio de Janeiro, antes de seguir para cumprir temporada em outras capitais e integrar os principais festivais de teatro do país. Esta é a segunda vez que ela se junta ao grupo, após o sucesso de crítica e público com a peça “Esta Criança” (2012), texto do francês Joël Pommerat, encenado pela primeira vez no Brasil.
Fundada há 12 anos, em Curitiba, pelo ator, dramaturgo e diretor Marcio Abreu, a Cia é considerada pela crítica especializada como uma das mais consistentes do país, sendo responsável por montagens marcantes para a história recente da dramaturgia e da encenação teatral brasileiras. Entre outras investigações artísticas, a atriz e a companhia têm em comum o interesse pela pesquisa de dramaturgos contemporâneos ainda inéditos no Brasil.
“Tem sido um momento de muita alegria compartilhar a criação cênica com eles. É maravilhoso e renovador estar ligado a algumas pessoas, sentir-se parte de um grupo que investiga, pesquisa e cria junto. Escolhemos o texto de ‘Esta criança’ e agora, o do ‘Krum!’. Já posso dizer que colaborei com o repertório de peças da Cia”, celebra Renata.
Também inédito no país e traduzido diretamente do hebraico especialmente para a montagem, o texto de Krum, do dramaturgo israelense Hanoch Levin, foi escrito nos anos 1970. Na época, o jovem autor estava sob influência de nomes como o do russo Anton Tchekhov e do irlandês Samuel Beckett, em um país de história recente e mergulhado em conflitos e contradições. Apenas durante o seu período de vida, entre 1943 e 1999, Levin presenciou em seu país a ocorrência de sete guerras.
A companhia defende que a escolha do autor israelense em um momento histórico como o atual, de acirramento do conflito Israel-Palestina e da explosão das mais diversas formas de fanatismos é, por si só, significativa. O diretor acredita que há algo em comum entre aquele Levin do final do século XX, Tchekhov, Beckett e o momento atual.
“Enquanto o mundo turbulento destila suas violências, as pessoas tentam seguir suas vidas, muitas vezes, sem brilho, confinadas em suas casas ou alimentando expectativas, sonhos de consumo, esperança de dias melhores”, analisa Marcio Abreu. “Pra mim, o teatro sempre está ligado ao que está acontecendo no mundo, na vida das pessoas e, fazendo essa peça, sinto que estou dando a minha contribuição para o momento que estamos vivendo nos dias de hoje”, complementa a atriz.
A peça tem início com o retorno ao lar do personagem-título. Depois de perambular pela Europa em busca de experiências e novos aprendizados, Krum volta para sua casa, em um bairro remoto da periferia de Tel Aviv. Ao chegar, ele afirma não ter construído nada de relevante ou vivenciado qualquer coisa pela qual sua viagem tivesse valido a pena.

No desenrolar da trama, ocorrem dois enterros e dois casamentos e, entre as duas cerimônias, há uma sequência de cenas curtas que exploram o quadro da vida dos habitantes, por meio do reencontro do recém-chegado com os curiosos membros de seu universo: sua mãe, seus amigos, a antiga namorada e os vizinhos. Não existem grandes feitos, tudo é muito ordinário. Ao recusar a possibilidade de qualquer transformação existencial ou escapatória de um mundo com estruturas sociais tão opressoras, a peça formula uma questão: até que ponto é possível sonhar com uma mudança?
Além de Renata, outros nomes de destaque na cena teatral contemporânea foram convidados para integrar o elenco, como Grace Passô, Inez Vianna, Cris Larin e Danilo Grangheia. Também estarão em cena outros integrantes e colaboradores da Cia Brasileira de Teatro em outras produções: Edson Rocha, Ranieri Gonzales, Rodrigo Bolzan e Rodrigo Ferrarini. A montagem conta ainda com a equipe de criação da companhia, como os premiados Nadja Naira (iluminação e assistência de direção), Fernando Marés (cenografia) e Felipe Storino (trilha e efeitos sonoros).
Em entrevista exclusiva à Revista Leal Moreira, Renata Sorrah fala a respeito da nova peça, da parceria com a companhia teatral, lembra momentos importantes de sua carreira e faz sua leitura do cenário atual de criação e produção de teatro, no Brasil.

Como você chegou até o trabalho da Companhia Brasileira de Teatro e a parceria com o Marcio?
Fui assistir “Vida”, uma peça da Cia que estava em cartaz aqui no Rio. Saí do teatro perturbada! Fiquei fascinada com o espetáculo, com os atores e a direção do Marcio, além do roteiro, de autoria dele. Conversamos e logo ficou combinado que iríamos buscar um texto para montarmos juntos. Após muitas pesquisas, trocas e indicações de amigos, chegamos a “Esta Criança”.
Fale sobre as questões trazidas nesse novo espetáculo.
A peça é sobre pessoas que vivem como se não tivessem saída para suas existências nem qualquer perspectiva. Eles não conseguem mudar, vencer a estagnação e banalidade da própria vida. É sobre a busca da felicidade de indivíduos que estão presos, acorrentados a um lugar e a sentimentos dos quais também não se libertam. Esse tipo de sentimento me interessa contar.
Embora tenham estruturas diferentes, as duas peças em que você atua com a Cia trazem temas recorrentes: o casamento, a morte, a vida familiar, a busca da felicidade, a relação entre amigos, parentes, vizinhos.... São temas caros a você?
Sim, porque são inerentes às relações humanas, assuntos que sempre estarão aí, por mais difícil ou desagradável que seja lidar com eles.
E, apesar de se passar em Tel Aviv, as questões abordadas em Krum transpõem limites geográficos e se aproximam da realidade de qualquer um.
Exatamente! Pra mim, o teatro sempre está ligado ao que está acontecendo no mundo, na vida das pessoas. O ator tem que ser, de alguma maneira, o porta-voz disso tudo; não de uma forma explícita, de fazer comício, mas no seu sentimento mais íntimo, ele tem de entender e saber contar a dor do mundo. Tem uma peça do Joel Pommerat que se chama “Estremeço”. Se você me perguntar qual sentimento que tenho agora, te diria: “de estremecimento”. O meu estado como pessoa e atriz hoje é de estremecimento com o que está acontecendo no mundo.
Atuar é também um exercício de aprendizado e generosidade?
Sim. Tudo o que faço no teatro é porque sinto que é importante para o outro. Quero tocar o outro, de alguma maneira, e se eu puder aprender junto, ele também vai me ensinar. Na condição de atriz, eu não ensino. O teatro é uma troca entre os atores, a equipe e também com o espectador. Porque há uma relação que se estabelece entre quem está atuando e quem está assistindo, na plateia, uma relação modificadora. Estar no palco, falando uma coisa de extrema necessidade, dirigida ao outro, para o outro, é muito dignificante na minha profissão e o mais importante pra mim é que aquilo traga uma verdade.
Conte-me um epsidódio marcante, nesses mais de 40 anos dedicados ao teatro, sobre essa estreita relação do ator em cena com o público.
No teatro não existe qualquer máquina entre você e a plateia, há um contato direto e uma reação imediata das pessoas. A primeira vez que senti isso foi quando fiz Nina, personagem de “A gaivota”, do Tchekhov, no Teatro Municipal do Rio [em 1974, dirigido pelo argentino Jorge Lavelli, hoje radicado na França]. Havia uma cena em que ela estava tão atordoada, já praticamente desconectada da realidade... Foi quando notei a respiração do público junto com a minha. No teatro você percebe quando as pessoas te acompanham, quando “estremecem” junto com você. Era a primeira vez que aquilo acontecia e me marcou muito.
Que leitura você faz do cenário teatral brasileiro nos dias de hoje?
O teatro no Brasil enfrenta hoje uma situação muito difícil, economicamente. Mas já esteve pior. Antigamente, existiam praticamente apenas os mercados do Rio de Janeiro e de São Paulo, que eram privilegiados e recebiam a maior parte dos incentivos. Quase todos os atores tinham de vir para o Sudeste se quisessem fazer teatro. Hoje, alguns tentam ficar na sua cidade e sobreviver da sua profissão. No país todo, há mais possibilidades, mas ainda tem um longo caminho a ser trilhado – qual caminho eu não sei. As leis de incentivo e captação, por exemplo, precisam ser modificadas, melhoradas. Outra questão é a própria falta de espaço para encenar. Em vez de abrir, os teatros estão fechando, sendo transformados em lojas, depósitos... Aqui no Rio, alguns fecharam para reforma, como o Glória e o Villa Lobos e, se não me engano, ainda não se sabe quando serão reabertos.
