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Extra Rodrigo Mocotó

Rodrigo Oliveira divide um pouco mais de sua intimidade. Leia, a seguir, mais da entrevista que a Revista Leal Moreira fez com o chef.

Revista Leal Moreira: Achas que tuas filhas seguirão a mesma carreira? Pretendes apoiá-las?
Rodrigo Oliveira: A Nina, a mais velha, é uma gourmet. Prova qualquer coisa que lhe ofereçam e tem opinião sobre tudo. Não gosta de muito de salgado, nem de muito doce. Come de peixe cru a espinafre e aprecia todo o ritual da mesa. A Flor é comilona, pode devorar um prato de arroz e feijão quase do tamanho do meu. É também um pouco mais resistente a provar as coisas, talvez por conta de sua alergia ao leite. Contudo, é apaixonada pela cozinha, larga qualquer brincadeira se chegamos perto do fogão. Já aprendeu inclusive a fazer tapiocas!
De qualquer modo ainda é muito cedo para saber. Acho que a história delas está nas primeiras linhas. Eu cresci numa empresa familiar, que, na verdade, refletia a união de nossa família. O que eu busco é fazer o mesmo com minha nova e pequena família. E, se dali alguém quiser seguir um caminho dentro do que faço, estarei aqui para ajudar, não sem uma pontinha de preocupação, como fez seu Zé Almeida anos atrás.


Revista Leal Moreira: Qual das duas, pelo que observas, tem mais jeito e inclinação para cozinha?
Rodrigo Oliveira: Ambas tem o fundamental para serem cozinheiras de talento: a curiosidade, o interesse, a vontade de fazer, mudar e fazer de novo. Na verdade, acho que isso vale para qualquer outra carreira, não? A Maria Flor, neste momento, mostra mais interesse pela cozinha – tem sua cadeirinha praticamente fixa ao lado do fogão, mas acho que isso também pode ser uma fase. Amanhã pode ser a Nina. De qualquer modo, o que eu e a Ligia incentivamos não é a “carreira” precoce de nenhuma das duas, mas o prazer e a alegria que cozinhar pode proporcionar às pessoas.
Mas, pensando bem acho que seriam uma ótima dupla, a Flor na cozinha e a Nina no salão!

Revista Leal Moreira: O que definiu a escolha da localização do restaurante – longe do circuito habitual dos restaurantes em SP?
Rodrigo Oliveira: Bem, o Mocotó já exige muito tempo e trabalho de todos nós. Fazer uma casa distante de nossa “casa-mãe” me pareceria um caminho espinhoso demais, para ambos os lados. Quando a padaria, vizinha ao Mocotó, deu sinais de vagar, pensamos: “aí está o endereço de nossos sonhos, bem na esquina”. Foi quando começou a nascer o “Esquina Mocotó”, o filho mais novo, de cara nova, mas sob a sombra de seus pais. Neste caso, a experiência, a proximidade, a sinergia, falam mais alto do que a sedução de montar um restaurante no luxo dos Jardins, por exemplo.
Sempre estivemos aqui na Zona Norte e foi natural estabelecer o restaurante por aqui. Hoje vários parentes têm negócios parecidos com o nosso na região.
Nosso trabalho aqui no bairro, com as pessoas que dependem de nós, os produtores que ajudamos a se desenvolver, ainda está longe de terminar. Como diz o baião de Venâncio e Corumba, “só deixo o meu Cariri no último pau de arara…”

Revista Leal Moreira: A exemplo do que acontece com tantos outros colegas profissionais, imagino que tenhas muito pouco tempo livre. Mas no tempo que sobra, o que mais gostas de fazer?
Rodrigo Oliveira: Meu tempo livre é dedicado à minha família, que é meu refugio e minha maior motivação pra trabalhar.
Então, sobrou um tempinho? Vou com as meninas para o parque, perto de casa, onde brincamos e subimos em tudo quanto é brinquedo, para preocupação da Ligia. Vamos, normalmente domingo à noite, quanto fecho os restaurantes, comer numa lanchonete próxima de casa. Pessoalmente, sempre que posso, dou uma fugida com minha bike, normalmente à noite, e leio bastante – meio por dever, meio por prazer – tento juntar os dois. Outro programa que gostamos de fazer, Ligia e eu, é assistir filmes e, mais raramente, visitar restaurantes de colegas.

Revista Leal Moreira: Seu prato favorito... E um ingrediente com qual você adora trabalhar!
Rodrigo Oliveira: Adoro a comida que cozinho no restaurante: é comida cotidiana. Mas quando cozinho em casa adoro fazer massas. Talvez se não trabalhasse com cozinha brasileira, faria cozinha italiana.
Em relação aos ingredientes, tenho duas sortes: trabalhar com vários ingredientes que gosto e dirigir, juntamente com Carlos Dória, o “C5”, o Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, onde pesquisamos ingredientes brasileiros, incentivamos produtores, discutimos rumos, instigamos uns aos outros a buscar o melhor de nosso chão. Agora não posso negar que o porco, um dos mais nobres e ricos personagens de nossa culinária, é um dos alimentos que merecem mais destaque em nossa cozinha. O próprio Câmara Cascudo disse que “Não há alimentos mais elogiado nem material que forneça maior número de pratos. O porco faz a festa”. Inspirado nesta visão fizemos esta semana (novembro) um jantar no “Esquina Mocotó”, que reuniu chefes de enorme talento como o André Mifano, Gabriel Broide, Jefferson Rueda, Paola Carosella, Rafa Costa e Silva e Mariana Dias. Foi uma ode ao Porco, uma verdadeira festa.

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