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Força e honra

 

Escutar o nome Machida nos dias atuais rapidamente traz à memória imagens como octógono, karatê, títulos e, principalmente, família. Com a ascensão do filho Lyoto no cenário das artes marciais mistas, esse sobrenome oriental que chegou às terras paraenses no final da década de 60 tem conquistado o carinho e a simpatia de quem mora por aqui.

A primeira página dessa história começou a ser escrita quando o patriarca, o engenheiro civil Yoshizo, veio para o Brasil. A proposta era trabalhar em um projeto de abertura de estradas no norte do país - mais precisamente, no interior do Pará. A saudade das artes marciais foi tão forte que ele resolveu mudar o seu caminho para viver uma grande paixão: o karatê. Com Ana Cláudia Machida,criou seusdiscípulos de sangue: Katê, Chinzô, Lyoto, Kenzô e Francisco. Eles aprenderam desde cedo não apenas as técnicas da luta, mas a lição de viver com respeito ao próximo - um dos grandes ensinamentos do mestre.

Durante a entrevista, o sotaque forte e o semblante calmo não negam as raízes desse senhor de 67 anos. Campeão de karatê no Japão e no Brasil, o patriarca é um exemplo para seus filhos e alunos. E mesmo com a idade avançada, Yoshizo Machida continua conquistando títulos, de uma espécie diferente: as honrarias da vida.

Site da Revista Leal Moreira - Como começou a história da família Machida no Brasil?

Yoshizo Machida– Primeiro, meu pai e minha mãe eram contra a minha vinda para o Brasil. Eles diziam que aqui só tinha mato, mas eu insisti e vim. Comecei aqui no Pará trabalhando em um projeto de engenharia, mas a saudade do karatê bateu e eu resolvi abrir uma academia junto com o mestre Saitô. Na época, pouca gente conhecia a arte marcial aqui. Daí, fui para São Paulo, Rio de Janeiro até chegar em Salvador, onde morei uns dez anos. Como eu já havia formado um grupo de karatê aqui, esses alunos insistiam para que eu voltasse. Como não paro no lugar, resolvi voltar para cá. Nessa época, Lyoto tinha apenas 3 meses de vida. Cheguei a plantar cacau, mamão, jerimum, melancia, tomate, pepino na região de Santa Isabel. Minha rotina era de segunda a sexta-feira dar aulas de karatê e no fim de semana ir para a plantação. Só que na agricultura dependemos de chuva, né? E na época não chovia o suficiente. Acabou que eu fui à falência (risos). Foi a partir daí, também, que eu concentrei meu objetivo no karatê. Fiz parte Federação de Karatê aqui em Belém. Como treinador, participei do campeonato brasileiro, sulamericano e mundial.

S.R.L.M - E como foi esse começo como mestre em karatê?

Y.M -As pessoas assimilavam o karatê apenas como uma luta; e, em nossa família, sempre aplicamos a arte marcial como educação. Nessa época, trabalhei como professor de educação física em colégios aqui da capital e em grupamentos da polícia, e também passei a reforçar essa noções nas aulas. Lembro que a gente morava no mesmo espaço em que hoje funciona a primeira academia. Os meninos ficavam olhando os treinos e, quando eu menos esperava, já estavam treinando.

S.R.L.M– Houve um intercâmbio entre o karatê aplicado pela família Machida e o jiu-jitsu da família Gracie. Quando isso aconteceu?

Y.M -Há muito tempo a gente se juntava para lutar com quem praticava jiu-jitsu, e isso era, na verdade, uma forma de ver quem tinha a técnica mais forte. Nosso contato mais próximo com a família Gracie começou quando Lyoto entrou para o MMA .Dessa forma, houve uma troca de fundamentos de cada estilo. Na época, ganhei um livro do Rorion Gracie, que ensina as principais técnicas da arte marcial.

S.R.L.M– Hoje, a família Machida tem um representante que já foi campeão mundial e está em destaque na Arte Marciais Mistas. Como foi a ida de Lyoto para o MMA?

Y.M - Desde pequeno, Lyoto lutava sumô; depois karatê e também jiu-jitsu. Quando chegou perto dos 17 anos, disse que queria lutar MMA. Só que a mãe dele não concordou com a ideia e proibiu, porque na época esse esporte era muito violento, com regras não muito claras e não existia um regulamento definido. Era como uma pancadaria. Depois que ele se formou em educação física, foi para o Japão, onde ficou uns 3 anos. Participou de torneios e começou a ganhar as lutas. Depois foi para os Estados Unidos, onde treinou wrestling, e seguiu para a Tailândia, onde aprendeu o Muai Thai. Quando voltou ao Brasil, participou do torneio de sumô e ganhou o vice campeonato. Em 2003, ele foi chamado por um famoso lutador japonês chamado Antônio Inoki e começou a carreira no MMA, que já estava mais organizado, com regras mais claras.

S.R.L.M– O senhor prima muito pela disciplina e pelo respeito para com o próximo. Qual é o maior perigo quando essas noções não são passadas?

Y.M –A mão é uma arma, e com ela você pode fazer muita coisa. A partir do momento em que o nível da pessoa for aumentando, ela tem que saber usar melhor essa arma. Por isso é importante a formação do caráter do indivíduo. Se ele não souber usar essas técnicas e sair por aí aplicando em outras pessoas, ele passa a não respeitar o próximo e se achar melhor do que os outros. É como dar uma arma na mão de uma pessoa que não tem capacidade psicológica de usá-la. Quando houve a difusão do jiu-jitsu no Brasil, as pessoas aprenderam golpes letais como o mata-leão e outros tipos de estrangulamentos que, se aplicados, são capazes de matar. Quando a gente vai aprender na prática uma arte milenar como karatê e judô, não está ali aprendendo apenas a técnica. Está aprendendo também a respeitar o próximo. A competição é para aprimorar ainda mais o que você aprendeu, lógico que no mesmo nível dos seus competidores. Para isso, usamos um kimono branco para mostrar que estamos com a mente limpa e cheia de respeito.

Disciplina é importante. Eu lembro que, na minha infância, depois dos treinos de karatê, todo mundo saía e eu continuava lá. Eu queria ser o primeiro. Até hoje, acordo às 5 horas da manhã para abrir a academia e treinar. Acredito que todo mundo tem uma luta interna e aprimeira luta começa dentro de nós. Vencendo isso, somos capazes de qualquer coisa.

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