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Imerso no mundo

Na infância, ele achou que o seu destino era ser jogador de futebol. Quando entrou na faculdade de Filosofia pensou que seria professor universitário. Filho, sobrinho e neto de músicos, o paraense Felipe Cordeiro não escapou de dar continuidade à linhagem musical da família. Abraçou a música como profissão. A convivência no meio artístico começou cedo. Entre uma lembrança e outra de quando era menino, estão as frequentes idas aos estúdios de gravação acompanhando o pai, o produtor e instrumentista Manoel Cordeiro, um dos pioneiros da lambada no Pará. Antes dos 10 anos já colecionava discos e tinha como ídolos Chico Buarque, Raul Seixas, Titãs e Michael Jackson. Aos 11, por vontade própria, pediu aos pais para entrar na Escola de Música da Universidade Federal do Pará, onde estudou piano durante cinco anos. Saiu do universo erudito, entrou nas rodas de samba, aprendeu a tocar bandolim, violão e começou a compor canções que foram gravadas na voz de vários intérpretes da MPB no Pará.

O interesse pela guitarra já veio na fase adulta, basicamente pela vontade e necessidade de tocar guitarrada. Se algum dia o instrumento nas mãos tiver que ser a bateria, será. Isso também serve para o baixo, o charango [pequeno violão sul-americano, geralmente feito da carapaça da costa do tatu] e qualquer outro instrumento. Não por se considerar um grande instrumentista, pelo contrário, sente-se muito mais um compositor. Porém, acredita que a necessidade faz o artista. E para certos resultados artísticos, é preciso criar possibilidades e alternativas, sem medo do novo, sem receio de ousar. E ousou! Em 2011, lançou o álbum Kitsch Pop Cult, disco que marcou a transição de uma nova etapa na carreira artística de Cordeiro. Nesse momento ele assumiu o palco como cantor/compositor e apresentou a mistura de carimbó, rock e a estética Kitsch numa sonoridade rítmica e inventiva.

Numa breve pausa durante a entrevista, Felipe lembrou de uma frase importante que o músico Paulo André Barata lhe disse: “Felipinho, tens mais a aprender com o teu pai do que comigo”. Foi aí que a ficha caiu. Começou a mergulhar na linguagem de música que o pai assinou nos anos 80, a música popular dançante da Amazônia com influência do Caribe. Naturalmente, o Kitsch Pop Cult foi dedicado ao pai. Naturalmente Manoel Cordeiro se integrou à banda do filho, o que naturalmente fez toda a diferença. O disco, produzido por André Abujamra, esteve na lista dos 20 melhores discos do ano de 2012, eleito pela revista Rolling Stone e foi aclamado pela crítica da revista Bravo! como um dos mais importantes lançamentos desta década. 

Não parou mais: shows pelo país, participação em importantes festivais de música, aparições em alguns programas de TV de rede nacional, como “Altas Horas”, “Som Brasil”, ambos da Rede Globo, e “Experimente”, do canal fechado MultiShow. Este ano realizou o primeiro tour pela Europa, colaborou na trilha sonora do filme “Serra Pelada”, o novo longa-metragem do cineasta Heitor Dhalia, que será lançado no Brasil e em Cannes, gravou uma música em parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes, participou do projeto “Agenor – canções de Cazuza, – CD que lançou obras menos conhecidas do Cazuza na versão de artistas da nova geração –, e recentemente finalizou o segundo disco de carreira. Ainda não acabou! Perto dos 30 anos, o músico se divide entre as viagens de trabalho, a casa em São Paulo, onde mora há pouco mais de um ano, as responsabilidades de ser “dono de casa”, e ainda assim garante que leva uma vida simples e tranquila, caminhando no seu ritmo, sem enlouquecer com a velocidade hiperbólica de SP.

O novo CD “Se Apaixone Pela Loucura do Seu Amor” está saindo do forno, um disco que segundo Felipe é mais simples, menos conceitual, com canções que falam de amor e mergulha pouco no universo kitsch (a new wave oitentista e o brega) se aproximando mais do que ele acredita ser a essência da sua música, o pop tropical. Com o patrocínio do programa Natura Musical, por meio da Lei Semear, “Se Apaixone” tem a produção de Carlos Eduardo Miranda e Kassin, será lançado pela gravadora YB Music e traz parcerias com os músicos Betão Aguiar, Luê, Lia Sophia, Saulo Duarte, Iva Rothe, Manoel Cordeiro e Arnaldo Antunes.

Com um percurso musical tão heterogêneo, as referências, claro, são abundantes e variadas, dos clássicos aos contemporâneos. Na lista dos veteranos preferidos estão Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Science, Arto Lindsay, Lanny Gordin, Mestre Vieira, Manoel Cordeiro; da nova safra de músicos ele cita o trio Metá Metá, Siba e Gustavo Ruiz. Independente do gênero, para Felipe o que realmente importa é o artista encontrar o seu processo de fazer música, ter autenticidade, liberdade de criação, pois não lhe resta dúvida de que o processo é tão importante quanto o resultado. Música se faz com sons, arte se faz com ideias, defende.

A música parece ter escolhido Felipe, e não o contrário. Mais do que uma herança genética, a música está em sua alma, é perceptível em sua fala segura, leve e determinada de quem reconhece o valor que tem, sabe onde quer chegar com o dom inerente.

 Você é um apaixonado declarado por filosofia, é formado em Filosofia pela Universidade Federal do Pará, mas escolheu a música como profissão logo após concluir a graduação. Optar pela música e não pela filosofia foi uma decisão difícil?

Nessa época eu admirava e me espelhava em caras como José Miguel Wisnik, Luiz Tatit e Arthur Nestrovski, pessoas que têm uma relação com o universo acadêmico e paralelamente têm discos gravados, fazem shows. Eu tinha o sonho de exercer a atividade de professor e ao mesmo tempo fazer música. Quando optei por ser músico profissional, estava no final do meu curso de filosofia. Percebi que, no meu caso, ou eu me dedicava a uma coisa ou outra. Pensei: “se hoje eu tenho uma vida dividida entre filosofia e música e já acontecem coisas legais, se eu me dedicar por completo, será melhor ainda”. E, desde então, sigo a minha vida com dedicação integral à música.

É perceptível que a filosofia está presente no seu trabalho. De que maneira você busca fazer com que a filosofia e a música dialoguem nas produções?

Eu abandonei a filosofia, mas ela não me abandonou (risos). Na verdade, larguei o lado mais acadêmico, pois a filosofia continua me interessando. Não é necessariamente proposital que a filosofia esteja no meu trabalho, e sim um reflexo. Ficava instigado, me perguntando como soaria para as pessoas um cara sair da faculdade de filosofia e começar a flertar artisticamente com o Alípio Martins (cantor de lambada e brega dos anos 80). Fiz o Kitsch Pop Cult pouco tempo depois do término da graduação, e quis trazer a seguinte reflexão: “Até que ponto a cultura que chamamos de erudita, não depende necessariamente dos melhores momentos criativos da cultura popular”? Até que ponto os chamados bom gosto e o mau gosto não são dois lados da mesma moeda? Esse questionamento deu origem a todo o percurso temático e estético do Kitsch Pop Cult. A filosofia como raciocínio criativo e crítico está sempre presente, mas muito pouco como conhecimento acadêmico.

No final do semestre passado você fez a sua primeira turnê pela Europa. Como a sua música foi recebida pelos europeus?

A primeira vez que estive na Alemanha foi em novembro do ano passado, tocando em Berlim no Festival Wordtronics. A recepção foi ótima, tanto que após o show já fui sondado para voltar. Em junho deste ano realizei uma turnê de 25 dias pela Europa fazendo shows em Roskilde (Dinamarca), Bonn, Köln e Berlim (Alemanha). A recepção em todos os lugares foi a melhor possível.  Foi uma experiência única e que ficará na memória afetiva para sempre. Recebi propostas para lançar o meu disco em selos internacionais, de voltar com uma nova tournée e começar outras nos EUA e América Latina. Mas ainda são só propostas.

Você declarou que o disco novo traz uma sonoridade diferente do Kitsch Pop Cult e abandona, quase que por inteiro, a perspectiva eletrônica. O que podemos esperar?

Quando eu comecei a fazer o disco, achei que seria menos dançante e no final das contas saiu mais dançante que o outro. Uma parte do CD dialoga com Kitsch Pop Cult e a outra é bem diferente. É como se a metade pertencesse ao caminho do disco anterior, que é mais ligado às tradições paraenses, e a outra metade está ligada ao pop brasileiro em geral, mais particularmente com o pop brasileiro oitentista. É um disco mais simples, menos conceitual.

 

O nome do disco é “Se apaixone pela loucura do seu amor”. As canções todas falam de amor. Por que essa temática?

Achei que era uma boa hora para falar sobre amor, tanto por questões pessoais quanto sociais. O disco se insere no contexto das coisas simples da vida e o amor é a coisa mais simples, como diz o Vital Lima (na canção“Das Coisas Simples da Vida”). As músicas foram nascendo desse universo, as letras falam de diversas situações, ora tem uma coisa mais lírica e pessoal, ora é uma crônica de baile, como é o caso de “Ela é Tarja Preta”. Percebo que a média das pessoas tende a ter um pouco de preconceito com as músicas que falam de amor, por acharem que é um tema mais corriqueiro, careta e menor para a música. No final das contas é a temática mais importante para a arte e para a canção popular. Tentei falar de amor de um jeito simples e honesto, procurando escapar do lugar-comum.

Já no seu segundo disco de carreira você tem entre os parceiros de música, o Arnaldo Antunes, ex-integrante do Titãs, um grupo que você era fã na infância. Como é isso pra você?

É uma honra, né? O Arnaldo é um cara muito simples, generoso, aberto ao novo, sempre interessado em trocar ideias. Ele é um pensador da canção, um multimídia, poeta, cantor, showman, um artista que trafega com naturalidade desde a arte experimental até a arte pop. É uma referência que vem da infância mesmo, da época do Titãs. A carreira solo do Arnaldo é marcada por uma ampla experimentação da palavra na canção popular, o que pra mim, faz dele um dos mais importantes autores brasileiros dos últimos tempos. Fazer parceria com ele foi uma grande alegria, além de muito instigante.

Como foi a aproximação entre vocês?

Foi bem natural e se deu muito por causa do Betão Aguiar, produtor e baixista do Arnaldo (e baixista da minha banda também). O Arnaldo já tinha escutado o Kitsch Pop Cult e gostou muito do disco. Ele manifestou vontade de fazer parceria e eu adorei a ideia. “Ela é Tarja Preta” está também no disco novo do Arnaldo que será lançado este ano. Gravei a guitarra da versão dele e participei também como coarranjador. Já estou tocando essa canção nos meus shows e tem sido muito celebrada pela plateia. É uma música que tem um carisma especial.

Que diferenças você sente em termos de amadurecimento profissional e pessoal do Kitsch Pop Cult para o novo trabalho?

O fato de eu ter viajado bastante nos últimos tempos, ter conhecido muita gente no meio do caminho, me trouxe outro olhar sobre o meu trabalho, me obrigou a ter uma visão mais desapegada e ajudou a ampliar os horizontes. Inevitavelmente isso aparece no meu trabalho. Fiz o Kitsch Pop Cult com certa despretensão e hoje já existe uma expectativa graças à boa aceitação do disco anterior. Foi a primeira vez na vida que fiz um CD sob pressão. Não foi um disco em que eu parei para me dedicar totalmente a ele; fiz em meio às turnês. O segundo disco é o mais difícil porque sempre existe uma expectativa maior. Mas também não entrei em desespero, tentei lidar da forma mais tranquila com a situação.

Recentemente você também colaborou com a trilha sonora do filme “Serra Pelada”, o novo longa-metragem do cineasta Heitor Dhalia, gravado no Pará. Como foi a sua participação?

O Dhalia é um dos meus cineastas brasileiros preferidos, por isso além de ter sido uma grande responsabilidade participar desse projeto, foi um superaprendizado. Quando ele foi fazer a pré-produção do Serra Pelada em Belém ocorreu de ele assistir a um show meu. Depois, ele me chamou para conversar e disse que o show tinha mudado o roteiro do filme. E aí veio o convite para eu compor músicas originais em parceria com o Antonio Pinto (que assinou a trilha sonora de Cidade de Deus e Central do Brasil), e que assina a de Serra Pelada também. Além das composições, gravei guitarras e ajudei o Antonio na sonoridade de algumas músicas. A minha música sempre foi influenciada pelo cinema, então, participar de um trabalho desse porte foi muito importante.

Então a sua música também é inspirada pelo cinema...

Sim! Gosto muito de cinema porque ele consegue unir diversas linguagens artísticas: música, teatro e fotografia. Sempre busquei referências nas trilhas sonoras, especialmente nas de Gyorgio Ligeti, Ennio Morricone, Emir Kusturica e Nino Rota. Quando faço música penso cinematograficamente, imagino a cena. Tenho vontade de ir a fundo nesses projetos de música e cinema.

Como é a sua relação com São Paulo?

Sinto-me em casa. Já tinha morado em São Paulo na adolescência durante um ano e criei um vínculo com a cidade. É uma cidade que gira em torno da produtividade e de intensas movimentações culturais e isso me motiva bastante. Apesar de eu trabalhar muito em São Paulo, tenho uma vida mais calma, tento viver no meu tempo, sem entrar no ritmo frenético da cidade.

Longe de Belém, o que faz você sentir mais saudade?

Ah, dos amigos e da família. Sinto falta também de estar perto de parceiros da música e de algumas comidas típicas. Sempre que posso, trago açaí no isopor. (Risos)

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