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Locadoras virtuais

No começo, havia o cinema. Um programa para famílias se divertirem unidas, casais se aproximarem e amigos comerem pipoca juntos. As cidades cresceram, a tecnologia avançou e divertir-se em casa passou a ser um misto de necessidade e opção. Por isso, videocassete, DVD e Blu-Ray se sucederam ao longo dos anos à medida que as tevês aumentaram o tamanho da tela, ficaram mais finas e com uma resolução cada vez melhor. Mas aquela visitinha à locadora de vídeo tem sido cada vez menos necessária e até se tornado tão cansativa quanto cruzar a cidade em busca de um multiplex confortável. Novos gadgets e serviços on-line parecem ter sido criados para deixar o sofá da sala mais atraente e dar a ele o título de lugar perfeito para curtir filmes e seriados, sem fila para comprar ingresso ou celular tocando na poltrona ao lado.

Imagine escolher um filme na internet e poder assisti-lo na hora, sem esperar por downloads, como num misto de prateleira de locadora de vídeo com You Tube. Essa é a proposta da Netflix, empresa norte-americana que existe desde 1997, mas só chegou ao Brasil em 2011. O acervo, que conta com filmes e seriados nacionais e estrangeiros com legendas em português, pode ser acessado via web ou em dispositivos, como tablets, smartphones e videogames. Ou seja, é possível desfrutar do serviço, de forma doméstica ou levando para qualquer parte_ dentro da mochila, por exemplo. Com uma boa conexão em casa, é possível ver o conteúdo em alta definição sem os típicos travamentos de uma transmissão por streaming. Com uma internet 3G rápida e estável, é possível assistir nas telas dos dispositivos móveis, sem ocupar a memória deles.  Tudo isso pagando quinze reais por mês, valor um pouco maior que o do aluguel de dois lançamentos numa locadora bem servida e menor que o do cinema – especialmente aos finais de semana.

O acervo ainda não é dos mais numerosos e essa é uma das principais queixas dos usuários da Netflix, especialmente relacionadas aoi pequeno número de filmes recentes. Mas a praticidade e o preço fizeram muita gente mudar completamente os hábitos. O empresário Luciano Santa Brígida, por exemplo, não apenas deixou de frequentar as locadoras, como também parou de baixar filmes pela internet desde que assinou a Netflix. “A facilidade de acesso é um dos maiores diferenciais do serviço. Em casa, assisto a filmes pelo videogame. Quando viajo, pelo tablet. Muitos reclamam do acervo da Netflix, alegando contra os filmes velhos. Mas não é tão diferente assim de uma TV por assinatura. O preço é um valor que vale muito a pena pagar. Pagaria até mais, diante da qualidade de serviço”, conta Luciano, que diz assistir de dois a três filmes por semana via Netflix.

Para a professora Luciana Alves, a novidade trouxe a solução de outro inconveniente. “É bom assistir a filmes em casa sem a obrigação de retornar à loja para devolvê-los. Por várias vezes, paguei multas altíssimas por atraso, pois nem sempre tinha tempo de devolver os DVDs na data marcada”, conta. Mas esse não é o único benefício trazido pela tecnologia. “Deixei de ver alguns filmes na televisão porque, na Netflix, posso escolher com calma, começar a ver, interromper, depois continuar”, explica Luciana, que procura sempre por filmes estrangeiros e alternativos.

Mas as novidades criadas para fazer com que você tenha prazer em ficar em casa não param por aí. A Apple, empresa que sempre lança as tendências mais desejadas do mercado da tecnologia, não poderia ficar de fora e oferece, desde 2007, a Apple TV. Não se trata de um aparelho de tevê, mas de um objeto menor que uma caixinha de chocolates, que se conecta à televisão por meio de um cabo HDMI e à internet por uma conexão sem fio. Com a Apple TV, é possível assistir não apenas a filmes (pela Netflix, por exemplo), como também ter acesso ao conteúdo de vídeo da iTunes Store, assistir a vídeos do You Tube e do Vimeo, navegar pela sua coleção de músicas ou reproduzir vídeos e fotos de dispositivos como iPad, iPhone e iPod Touch.

O modelo de acesso ao conteúdo da iTunes Store na Apple TV é um pouco diferente do sistema do Netflix. É muito mais uma loja propriamente dita do que um serviço via assinatura. Com uma conta na iTunes Store (a mesma que se usa para comprar música e aplicativos, por exemplo), é possível comprar ou alugar filmes, tanto clássicos quanto sucessos recentes de bilheteria. Para a compra de filmes, o preço médio é dez dólares. O aluguel sai, em média, por quatro dólares e funciona da seguinte maneira: o usuário tem trinta dias para começar a assistir ao filme. Após iniciá-lo, tem até quarenta e oito horas para assistí-lo quantas vezes quiser. Ou seja, nada muito diferente de uma locadora de vídeo, com a vantagem de não existir o risco de ouvir o triste “está alugado” ao procurar pelo seu filme favorito no balcão. Além disso, grande parte do conteúdo está disponível em resolução de 1080p, equivalente à do Blu-Ray.

Todas essas possibilidades despertaram a curiosidade de Rodrigo Cavalcante, que trabalha como desenvolvedor de aplicativos para dispositivos móveis. Depois de pesquisar muito sobre a Apple TV, comprou o aparelho e, pouco mais de um mês depois, já percebia novos hábitos. “Não tinha o costume de assistir a filmes em casa. Passei a alugá-los pela iTunes Store e acredito que isso seja apenas o início de um grande serviço e sistema de entretenimento que a Apple está criando”, diz.

O administrador de empresas Maick Costa também comprou uma Apple TV motivado pela curiosidade. Foi a uma loja oficial da marca, viu uma demonstração do produto e se encantou com o que a caixinha mágica pode fazer. Hoje, não passa um dia sequer sem assistir a algum conteúdo por meio dela, principalmente vídeos do You Tube, filmes e seriados via Netflix. A praticidade foi decisiva para que o consumo à moda antiga fosse deixado de lado na casa de Maick. “Abandonei locadoras, definitivamente! A base da Netflix não é inteiramente de filmes recentes, mas as sugestões de filmes_baseados no que você já assistiu_e o link com os filmes assistidos por amigos trazem o melhor da locadora pra perto de você”, exalta.

Como se não bastassem todas as vantagens tecnológicas, essas novidades têm até maneiras de substituir o boca-a-boca, aquela indicação de um amigo ou de um atendente que pode fazer a diferença na hora de escolher um título. No Netflix, ao preencher o cadastro, o usuário indica preferências pessoais, não limitadas apenas ao gênero. É possível, por exemplo, dizer que gosta de “filmes motivadores”, “dramas românticos independentes” e “filmes estrangeiros violentos de ação e aventura”. Além disso, à medida que você assiste aos títulos, um sistema de inteligência artificial trabalha para dar indicações baseadas nas preferências e no histórico.

Outra possibilidade é conectar a conta da Netflix à do Facebook e saber quais são os filmes preferidos dos seus amigos. As indicações aparecem na interface do serviço e também no mural do Facebook de quem opta por essa conexão.  Para os usuários, essa é outra vantagem dos novos serviços. “Descubro filmes bons que não me interessariam por ver que meus amigos já assistiram. O boca-a-boca sempre é a melhor ferramenta. Já me surpreendi com filmes que meus amigos assistiram e que são muito bons”, conta Maick Costa. “Confesso que não acreditei muito no início nesse sistema de recomendação; mas hoje realmente me surpreendo com os filmes que ele me indica”, diz Luciano Santa Brígida.

Acervos em crescimento, banda larga a toda velocidade, aparelhos de tevê abertos a novas funções e serviços inteligentes e inovadores; tudo isso pode não matar o cinema ou acabar com as videolocadoras, mas cria alternativas para o entretenimento doméstico. Definitivamente, tédio é uma palavra que combina cada vez menos com a opção de ficar em casa.

Por dentro do Netflix

Segundo dados da Netflix, o serviço está disponível em 43 países na América Latina. “Uma vez que a América Latina tem cerca de quatro vezes mais famílias com banda larga do que o Canadá, há muito espaço para crescer”, afirma a companhia.

No período de julho a setembro de 2011, a receita global da empresa cresceu 48%, passando de US$ 553 milhões para US$ 822 milhões.

São 25 milhões de clientes no mundo todo. A empresa tem a política de não divulgar os números aqui no Brasil, mas estipula-se que cerca de 10 milhões estão na América Latina.

Alguns gêneros são melhor representados (comédia, por exemplo). Há 100 filmes de terror e 400 thrillers na listagem, com vários clássicos e 24 novelas ou séries em português, todas desconhecidas.

Há três grandes motivos para o sucesso do Netflix: o preço, a velocidade (mesmo com a internet menor que 1 mbps, o filme começa em segundos), e um espertíssimo algoritmo que sugere filmes baseados no seu gosto, ainda capaz de prever quantas “estrelinhas” você vai dar a um filme, com margem de erro mínima. O algoritmo é considerado surpreendente, de acordo com especialistas. Fonte: internet.

 

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