
Em uma entrevista com total tom de bate-papo dos mais descontraídos, Murilo Couto revela ser a favor da livre concorrência na área que lhe fez conhecido e que não descarta a possibilidade de tentar outros gêneros de atuação. “Mesmo tendo muita vergonha de acabar sendo ruim”, confessa.
“Beleza, beleza!”. É assim que o comediante paraense Murilo Couto me atende para a nossa quase meia hora de conversa, na maior tranquilidade. No entanto, a voz mansa às vezes deixa no ar dúvida se ele está respondendo as perguntas de forma séria ou está, na verdade, tirando um grande sarro de tudo aquilo - no melhor sentido que a palavra pode ter.
Aos 27 anos de idade, ele já coleciona alguns anos longe da cidade onde nasceu, Belém; passou pelo Rio de Janeiro, quando teve participações na novela ‘Malhação’, da Rede Globo; e hoje mora em São Paulo, já tendo integrado o elenco do extinto ‘Agora É Tarde’, da Band, e está desde 2012 como fixo no ‘The Noite’, o late-night talk show de Danilo Gentili - você deve ter visto, se não no programa, na internet, o rap que ele fez natal juntando a cantora Fafá de Belém e o guitarrista Chimbinha, em letra e atuação absolutamente divertidas para mostrar que Belém é uma cidade grande como qualquer outra, sem jacaré na rua e afins. “Pessoal de SP não sabe nada daí, é impressionante!”, reforça.
Crítico e bem exigente com o próprio trabalho, afirma que precisa mostrar seus textos para outros escritores de confiança para acreditar na qualidade do que produz - e lembra que a qualquer hora pode voltar a exercer a curta carreira que teve como corretor de imóveis. “Na hora em que descobrirem que eu não sou engraçado”, completa, destilando a autocrítica. “Minha luta contra a preguiça [na hora de criar] é constante, por isso que é bom achar ruim e eu acho mesmo ruim, porque aí eu tento melhorar!”, justifica. Confira a entrevista:
No teu site você começa se descrevendo mas falando das coisas que você não fez na vida: gazetar aula para viajar com os amigos, quebrar a perna fazendo o que não devia, te pergunto se o humor é uma constante na tua vida, desde sempre...?
Eu acho que desde moleque eu tento, sabe, quem pode falar são os outros! Eu sempre gostei de ver, de tentar fazer, mas o resultado mesmo é muito complicado saber se é constante ou não... Eu acho que não, né, pelo que eu vejo. Mas a tentativa sempre foi de ser!.

Como comediante já são quantos anos?
Comecei no stand-up comedy acho que no final de 2007 para o começo de 2008, tem uns sete anos, né?
Aqui em Belém, certo?
Isso.
Ir para São Paulo foi tentar a sorte ou já tinha algo em vista?
Quando me mudei pra SP eu já morava antes no Rio de Janeiro, na verdade, há uns dois anos, quando fiz ‘Malhação’ [novela teen diária da Rede Globo]. Na verdade, o stand-up começou em São Paulo e depois foi pra Belém, aí por causa do stand-up rolou o teste pra ‘Malhação’ no RJ, aí depois vim para São Paulo de novo por causa do teste para o programa do Danilo [Gentilli, comediante], fiz o teste pro Agora é Tarde, passei e vim pra SP. Então já vim com algo engatilhado.
E vem cá, é sério a parte do corretor de imóveis...?
Ahahaha, é, sim, uma profissão que eu mantenho...
Tu ainda trabalhas como corretor de imóveis?
Não, agora não. Mas na hora que descobrirem que eu não sou engraçado, posso voltar a ser...
Mas a experiência deu certo?
Muito pouco, eu mais acompanhava um tio meu que trabalha com isso em Belém.
Uma coisa que escreveste faz tempo no teu blog, de que o bom de achar tudo que a gente faz é ruim é que existe sempre a vontade de melhorar. Tu segues essa máxima como comediante, como ator...? Te consideras um ou outro ou os dois?
Ah, profissionalmente acho que os dois, né, mas eu mesmo não me considero nada... (risos) Sou um picareta, me considero mais um picareta! (risos) Mas eu acho isso mesmo, essa vontade de melhorar, mas tem que lutar contra a preguiça, que é muito grande, sempre. Ainda mais se o comediante faz uma piada que é ruim mas as pessoas dão risada, é porque o público também não está com esse critério todo. Aí a preguiça bate muito forte, pra quê melhorar se já se está agradando? Tem um pouco disso também. Por isso que é bom achar ruim e eu acho mesmo ruim, porque aí eu tento melhorar!
E como é o teu processo, tu escreves, passas para outros lerem para ouvir mesmo ‘olha, isso aqui tá muito ruim, não tá legal’...?
Sim, sim, porque como eu sempre acho ruim eu preciso de alguém que eu confie para me dizer que tá bom. Se depender da minha avaliação, não confio muito não. Mas eu refaço, mostro para alguém, a pessoa dá ideia e aí eu tento mexer de novo, e sempre mexendo e trocando... Por exemplo, para um show que eu vou fazer, tô planejando um show solo, gravado, porque ainda não tenho nada nesse sentido, e aí algumas piadas são de agora, que eu já tenho, mas eu queria resgatar coisas que eu fazia no começo, mas já acho todas muito antigas, ruins, aí estou tentando mexer nelas para não gravar uma coisa que eu não goste.

Agora, assim, Murilo, a concorrência no teu meio é pesada, né, comediante brota da terra, de tudo quanto é lugar...
Toda hora. Ah, tem que destruir quem chega, né! (risos) Não, mentira, claro. Eu me dou bem de verdade com a galera, eu acho, as pessoas que começam e que eu acho que estão indo bem, e eu gosto muito de ver gente começando porque ou o cara não tem muito vício de comediante ou então ele tem outras referências, está tentando um negócio novo, não está habituado... Eu sempre gosto de ver os comediantes novos e incentivar. Procuro um comediante que eu gosto mais e ache diferente e que eu tenha inveja das piadas do cara e tento ajudar. Boto para fazer show comigo, esse tipo de coisa. Crescimento é bom, quanto mais comediante melhor, não sei se é igual em outras áreas em que a competição também é ruim. Eu não acho que a competição seja ruim, acho que ela melhora a qualidade do humor.
Tu és a favor da livre concorrência nesse sentido então?
Eu sou. É bom para quem já está fazendo, se espertar e tal, e fazer melhor.
E a prática ganha mais respeito, mais reconhecimento, não? Quanto mais gente fazendo...
É, porque ‘ah, só tem cinco e eu estou entre os top 5’, ora, grande b****, você pode ser o pior, né?
Eu tenho que falar do rap com a Fafá, né, que é muito legal...
Ahh, que alegria! Que bom! Aquilo ali é defesa mesmo, pessoal quando saber que sou de Belém chega e aí vem umas besteiras... Não tô falando que Belém é f***, tô falando que Belém é normal, como qualquer outra cidade grande! Mas o pessoal de São Paulo acha que não, né, acha que é um lixo. E se andar direitinho acha mesmo uns lugares bem lixo... (risos) Povo aqui não sabe nada de Belém, não tem muita ideia, sabe, parece um mistério: como será Belém? E é bom, né, que o rap mostra o que a gente já sabe, que tem carro, que tem shopping, olha só, que mistério! (risos) O que eu achei mais legal foi que a Fafá quis! Eu queria fazer desde quando eu era da Band, só que não deu pra fazer o clipe, aí no SBT rolou da Fafá cantar e o Chimbinha fazer o solo de guitarra, ele topou ir gravar...
E como foi isso, você pediu ou casou de vocês conseguirem se encontrar e casou tudo direitinho?
O The Noite estava recebendo convidados e eu fiquei meio que esperando, a música já estava pronta. Aí o Chimbinha quando foi lá eu pedi ‘pô, grava um solo pra mim’ e ele gravou. A Fafá ia dar uma entrevista, aí mostramos para ela a música e o projeto para passar no dia em que rolasse a entrevista dela, ela achou muito legal e topou fazer. Ficou legal demais, né, ela simpática para caramba, rindo demais, me senti até bem, né, ficou parecendo que as piadas eram boas...
E é verdade que teve gente daqui que não gostou...?
Sempre tem, né? ‘Ah, tá sacaneando Belém, tá falando mal de Belém’, não sei, é gente que não gosta de nada... Eu sinto que tem gente de Belém que se estiver fora da cidade, não pode falar mal, tem que falar como se fosse a melhor coisa do mundo, uma cidade perfeita. Mas quem tá aí fala, né, normal, dos problemas, como é em qualquer lugar do mundo. Isso aqui é ruim por isso e isso... Mas vai falar disso em São Paulo, aí é horrível, não pode. Se tomar o açaí de São Paulo você é um traidor! E pô, eu acho tão bom os dois, o daqui e o daí...!
De ‘Malhação’ para o elenco fixo do The Noite, como foi esse trajeto?
O stand-up comedy foi ligando tudo. Eu fazia em Belém, comecei a fazer de vez em quando em SP e no RJ. Aí os caras do ‘Comédia em Pé’ me chamaram para fazer um teste para ‘Malhação’, o Cláudio Torres, que escrevia para a Globo, me indicou. Acabou minha participação em ‘Malhação’, fiquei um ano no Rio fazendo o ‘Comédia em Pé’ e eu já conhecia o Danilo de antes do CQC [na Band], da Malhação também, de shows em bares de SP e tal. Ele me colocou na lista de testes de todos os comediantes que ele chamou. Aí foi teste e indicação por conta dos shows.
E de lá para cá já são quantos anos?
Desde o começo, começou em 2011 ou 2012.
E a periodicidade, é semanal?
Não, é todo dia! Na Band que eram três vezes por semana.
Olha a gafe de quem não assiste TV...
Não tem bronca, tem que ver não... (risos) Mas acaba que a minha participação não é diária, eu entro duas, três vezes na semana, mas é muito bom o resultado disso. Até nos shows de stand-up, como o programa é direcionado para o humor, e tem o Danilo, que é bem conhecido, tem o Léo e mais gente que faz também, o retorno é legal, é o que proporciona que eu possa viajar pelo Brasil fazendo shows.
Já ia perguntar: estás viajando bastante fazendo stand-up?
Estou, sim, bastante, e agora estou com vontade de viajar com outro show, né, já passei por várias cidades e agora quero voltar com um outro show, outro repertório.
Escrever é algo que fazes sozinho ou em equipe?
Eu prefiro escrever sozinho. Na verdade, é assim: eu anoto tópicos, não tem que ser um texto inteiro para decorar, eu anoto algumas ideias e no palco eu vou desenvolvendo isso a partir do que funciona, do que eu acho legal, vou vendo e ouvindo o show e mexendo numa coisa aqui, outra ali. Não sou muito de sentar e escrever piada por piada assim. O Léo [Lins, também comediante fixo no ‘The Noite’], por exemplo, que tá no programa, ele faz piada por piada e escreve muito bem. Mas eu não consigo. Não é o meu estilo.
É um supercliché a pergunta, mas o cotidiano ainda é a maior inspiração? Uma gracinha que você ouve na fila do banco, ou xaveco no ônibus...?
É, sim, na verdade eu acho que isso muda por causa do jeito que a gente olha para as coisas. Para o comediante, o importante é estar ligado no que acontece. No começo de carreira, o cara tá com o sangue nos olhos, está sempre ligado para tirar piada de qualquer lugar, e aí que acaba sendo assim, vai no banco, no ônibus, no avião e o cara está ligado e vai anotando. Acho que o próximo passo, pelo menos para mim, é o que tento fazer, é ficar ligado nas coisas em geral. Não faço muita piada sobre as pequenas coisas do dia a dia, acho que é mais a visão particular, e tentar opinar de alguma forma.
Aquela tua forma de enxergar que, talvez, outra pessoa não tenha enxergado...
Isso mesmo. Ainda bem que jornalista sabe falar, tá vendo, se for depender da explicação de comediante... (risos)
E rola também aquele branco, aquele momento em que você precisa criar algo e não sai nada, em que bate um desespero porque tem uma semana que você não bola uma piada nova...?
Muito! No stand-up não rola muito essa cobrança porque a gente está viajando, fazendo shows em lugares diferentes então a plateia é nova e não ‘decorou’ as coisas, então dá para repetir. Mas para o programa, que exige sempre algo novo, tem prazo, aí bate o desespero! É sentar na frente do computador sem nenhuma ideia e ter que tirar algo, ler notícia e escrever um roteiro a partir dali. E é desesperador porque tem vezes que não tem na-da. Aí bota uma roupa de mulher e dá um grito bem alto que aí já resolve, apela mesmo e pronto, pelo menos para ‘desempacar’, tem que entregar uma coisa, tem prazo, né...
O stand-up é a base do teu trabalho, é um gênero que o brasileiro já entende e gosta? Quando começou a ter visibilidade, ir para o YouTube e tal, sempre houve muitas críticas sobre tal piada ser pesada, como transitas por isso para não ser antipatizado mas também não fazer igual o que todo mundo faz?
Então, o stand-up, no Brasil, é muito confuso ainda. A pessoa faz um show de improviso e são quatro caras ao mesmo tempo fazendo uma cena com música e tudo o mais. É confuso no sentido de definir o que é stand-up e o que não é. Meio que virou, durante um tempo, tudo que era de comédia era stand-up, até uma peça de comédia era stand-up. E essa pegada de humor pesado e piada pesada virou uma marca do stand-up mais por causa do Rafinha [Bastos, comediante] e do Danilo, dois fortes representantes do gênero, e fazendo esse estilo de humor. Mas o que define stand-up é um cara com piadas originais e sozinho. Às vezes está falando sobre banana e só e é stand-up. Acho que o estilo já se estabeleceu aqui sim, não sei se o público sabe muito bem como diferenciar, mas acho que já saiu do ‘boom’ e dos comediantes que forem aparecendo, quem for bom, fica, o público vai direcionando, tem gente que gosta de piada pesada, tem quem goste de ouvir mais história, outro que gosta de imitação, já está espalhando. Se firmou como gênero e não é uma coisa só. Tem de todo tipo, comediante e público de todo tipo. Não tem isso de ‘ah, não gosto desse determinado tipo de piada’, então não gosto de stand-up.
Disseste que gostas de ajudar a galera que está começando. Em Belém, você tem relação com quem tá começando, tenta dar essa força?
Eu tô longe de Belém já há um bom tempo, mas do cenário daí eu conheço uns caras que são muito bons, o Vinícius Lima, por exemplo, ele é do interior. Ele é muito bom, e está morando em São Paulo, ele ficou um tempo com o pessoal do “Em Pé na Rede”, que é de Belém, mas se mudou pra São Paulo. Fora isso eu tô meio por fora... Sei do pessoal do grupo ‘Game Over’, mas desde que eu saí eu não tenho conseguido acompanhar direito, pessoal não coloca muito vídeo na internet, e é difícil fazer em Belém comédia. Mas sei que é difícil manter isso aí. Às vezes abre um bar, não demora, fecha. Faz show em teatro, ninguém vai, acham caro o ingresso. É complicado fazer stand-up em Belém.
Para fechar, tem uma frase que diz que nem todo ator é comediante, mas para ser comediante é preciso ser ator, um bom ator. Tu consegues te ver, Murilo Couto, em outro gênero?
Tenho vontade de tentar, sim, mas tenho muita vergonha de dar errado. Na comédia eu já me acostumei quando dá errado, já não passo tanta vergonha. Mas de repente fazer um drama e ser ruim... Tenho medo disso. Já ouvi essa frase e meio que baseio nela, sabe? ‘Se a galera tá dizendo, vou acreditar...’ Mas eu mesmo não acredito muito não, acho que eu poderia fracassar legal em outros gêneros!
Mas não é algo que descartas?
Não, é uma vontade, eu quero fazer, sim!
