
Historiador, professor e pesquisador de moda, Rui Martins Junior foi puxado para dentro do mundo da moda naturalmente desde a sua adolescência. O que o motivou? A sociedade ao seu redor. Desde muito cedo, Rui começava a perceber um discurso, uma mensagem se desenrolar a partir das roupas e comportamentos das pessoas com as quais convivia. Aquele seria o seu chamado para compreender que moda é muito mais do que peças de vestuário.
Estudioso da temática já há 12 anos e finalizando seu doutorado com a temática “História social da Amazônia”, Rui Junior – como gosta de ser chamado – foi buscar na história o sentido e significado das dinâmicas que via nas ruas, na TV, nos grupos sociais - antes e depois dos shopping centers em Belém. O site da Revista Leal Moreira convida você a conhecer os segredos por debaixo dos panos que cobrem a sociedade.
RLM – Quando a moda se tornou o foco do seu interesse e estudo?
Rui Martins Junior - Ela sempre me interessou muito, desde muito jovem. Sempre fui muito interessado em cinema, história em quadrinhos, na arte da comunicação em geral - um universo onde eu já percebia que as pessoas se apresentavam de uma maneira diferenciada. Aquilo me chamava muito a atenção, porque eu percebia que os que faziam parte daqueles grupos, da comunicação, da arte, acabavam adotando estilos de vestimentas e indumentárias diferenciados, como um recurso de se identificar partícipes daquele mesmo grupo. Depois de um tempo, fui investigar que realmente isto pode acontecer no campo da moda. A gente pode pensar, por exemplo, que em uma festa de aparelhagem no Pará os frequentadores acabam usando um “look” que demarca suas identidades. Isso é uma perspectiva antropológica da moda: eles acabam se reconhecendo como partícipes daquele mesmo grupo a partir daquele visual escolhido; e muito provavelmente não é um visual aleatório, uma escolha aleatória. Eles pensam naquilo. Já adulto, comecei a estudar de maneira mais laboriosa. Eu decidi realmente enveredar pela moda. Entre 14 e 15 anos eu já me interessava muito, já frequentava. Naquela época não tinha shopping center, o forte em Belém era a Brás de Aguiar em 1990 ou 1991. Era um espaço que representava um pouco desse diferencial da moda. Não tinha muitas grifes, mas para você construir um “look” diferenciado, tinha que buscar consumir essas estéticas nesses locais.
RLM – Nesta época, Belém já apresentava algum movimento relacionado a moda?
Rui Martins Junior -Já, sempre. Não existiam os shoppings de fast fashion (moda rápida - essas lojas onde você vai lá e escolhe uma marca), ou uma loja de departamento fast fashion. Como não tinha isso, o movimento era outro. Se as pessoas naquele momento quisessem construir "looks" diferenciados, tinham que consultar muitas revistas. As pessoas levavam o modelo na costureira, e eu entendo isso como um movimento de moda. Tinha um interesse no diferencial. É claro que em 93, com a chegada do primeiro shopping em Belém, isso vai acelerar muito mais, porque chegam as lojas de departamento. Antes disso existia a Mesbla, com um bom exemplo de fast fashion na época, mas era extremamente caro se vestir. Percebo, também, um outro fenômeno atualmente, certa democratização dessas estéticas que antes eram tão caras. Hoje você pode consumir essa estética por preços bem mais acessíveis.

RLM – Por que o costume de ir à costureira se perdeu?
Rui Martins Junior - Em função exatamente disso, do fast fashion. A pessoa vai e compra. Vivemos em uma sociedade muito dinâmica. Um mundo absolutamente midiático, globalizado; somos bombardeados de informações diariamente. Então a ideia do laboratório, de construir a roupa, depois voltar para tirar a medida, e então voltar para ver como está ficando a roupa... Isso de alguma maneira se perdeu em função do imediatismo. É uma característica da sociedade contemporânea: a pressa. Eu mesmo me coloco numa situação de laboratório. Às vezes, quando saio de casa e sei que vou ter um compromisso, vou com uma roupa de manhã e no intervalo do almoço eu vou no fast fashion de um shopping rapidamente e já saio com a roupa todinha na própria loja. Lembro que, quando eu comecei a fazer isso, as pessoas ficavam surpresas. Nós tínhamos uma cultura de que se deveria comprar a roupa e guardá-la para um momento especial. A sociedade hoje está perdendo isso. Não é perda de cultura, mas a adoção de um dinamismo que é característico dessa sociedade. Você não vai guardar as roupas, você vai usá-la imediatamente! Aqui em Belém nós temos algumas datas fundamentais que revelavam isso: o período nazareno, que é do Círio de Nazaré. Eu lembro que, na minha infância, minha mãe comprava a roupa do Círio, de Natal, de Ano Novo, da Páscoa...
RLM – Ainda existe um pouco isso?
Rui Martins Junior - De alguma maneira sim, mas você vai percebendo que as novas gerações são mais imediatistas. A pessoa vê uma estrela em um tapete vermelho ou em uma novela usando determinado look, e naquela mesma noite a pessoa quer usar aquele mesmo look. Então ela se dirige imediatamente até um fast fashion e compra aquele visual, consome aquela estética. Isso não é muito dificultoso já que a moda se democratizou um pouco a partir dos fast fashion - e a noite ela vai estar com aquele look. Em apenas questão de horas.
RLM – Como seria esse consumo da estética?
Rui Martins Junior - De uma referência, por exemplo: foi um "boom" recentemente uma atriz que usava pulseiras numa novela, e foi como um fenômeno que tomou as meninas, as jovens, e até as mulheres adultas adotaram o visual. Esse fenômeno é o consumo de uma estética, que não é somente plástica. Você consome também a postura da referência, do personagem. No caso, era uma delegada que tinha uma postura forte, uma mulher forte e determinada, persistente. De repente o consumo da estética é acreditar que esta consumindo não somente a estética plástica, mas que está consumindo os valores, a personalidade, a força. E você reproduz. Você acaba reproduzindo a força da personagem por meio daquele consumo estético. Isso é um trabalho de antropologia da moda.
RLM – Esse consumo estético acaba padronizando a moda?
Rui Martins Junior - Padroniza, mas a moda é efêmera. Já diz o grande filosofo francês Gilles Lipovetsky: “é um padrão temporal momentâneo”. E é isso que caracteriza a moda.
RLM – Mas isso é positivo ou negativo?
Rui Martins Junior - Esse é o movimento da moda. No livro “Moda, o império do efêmero”, de Gilles Lipovetsky, ele explica claramente que essa característica é o sentido de ser moda, já que a moda precisa ser caracterizada como efêmero. Então essa estética tem uma espécie de tempo de vida, e depois vai surgir uma nova estética que vai ser consumida e assim por diante.
RLM – Consumir certa estética, padronizando e criando uma espécie de "ditadura" da moda, não tem um efeito negativo para a sociedade?
Rui Martins Junior - Aí eu acho que as pessoas tem que partir para o bom senso. As pessoas caem na armadilha do consumo estético. Às vezes elas não compreendem,
não fazem uma avaliação do seu próprio corpo e imagem, e tentam de todas as maneiras associar a sua imagem com aquele conceito estético - o que pode gerar problemas, obviamente. Aí fica claro o poder da mídia: a referência é tão forte que as pessoas às vezes não têm muito discernimento.
RLM – A efemeridade da moda cria um consumo desenfreado, impensado?
Rui Martins Junior - Sim, é possível. Existem trabalhos muito interessantes no campo da psiquiatria que apontam para uma questão patológica, uma questão social que acaba desaguando num problema de saúde. As pessoas que têm a necessidade tão grande de consumir aquela estética, na verdade, têm desejo de ser reconhecido como participante de um grupo. Se você não consome certa estética você é excluído, isso é uma característica do capitalismo. Aí já é uma reflexão muito mais complexa. Porque o capitalismo é essa maquina complexa, grandiosa e esses movimentos que tangem a moda são reflexos dessas demandas estruturais do capitalismo. Tem um livro chamado “Vítimas da Moda: por que a criamos e por que a seguimos?”. Ele destaca que todos nós de alguma maneira estamos dentro deste grande movimento. Ora nos deslocamos, ora somos inseridos, ora somos forçados a nos inserir. Por exemplo, se você vai a uma festa de gala, você não pode ir de jeans. Você tem que ir com um traje adequado àquele momento. Então ou você não vai ou você vai ter que consumir aquela estética de alguma maneira. É muito difícil alguém ser absolutamente neutro. De alguma maneira, a moda está em nós. Até porque quando se fala em moda não é somente o consumo estético que vai cobrir o corpo: roupa, sapato, chapéus, óculos acessórios etc. A mobília da casa é um discurso de moda. O que se come, a maneira como se organiza a mobília, o azulejo, a pintura da parede; tudo está ligado a ideias do conceito de moda.
RLM – Porque você decidiu pelo caminho de historiador para estudar esse fenômeno que é a moda?
Rui Martins Junior - Isso parece muito novo para nós aqui, mas há algum tempo historiadores brasileiros vem se dedicando em fazer historiografia da moda, sobretudo em São Paulo. Na Europa isso já tem mais tempo, sobretudo na França. O historiador francês já havia se dado conta da necessidade, há algum tempo, de acessar o passado a partir desse prisma, que é o aspecto da cultura material. E nesse universo da cultura material está inserida a moda. Está nos móveis, nas texturas, nas cores, nos tecidos, roupas, sapatos, perucas, maquiagem, cabelos, joias. É muito interessante olhar para o passado, estudá-lo para entender o presente. É um caminho que hoje vem ganhando força, felizmente. Aqui no Pará precisamos avançar mais. Estou elaborando um projeto de pesquisa sobre história social da moda e do corpo. Tem interesse da sociedade em melhor compreender se tem história de moda no Pará. E nós temos uma rica história, mas que precisa ser melhor explorada.
RLM – Por que é importante conhecer a moda por meio da historia?
Rui Martins Junior - Isso sempre me é perguntado. Quando se fala em moda, nós podemos pensar em vários outros aspectos, como política, por exemplo. Até o final do século XIX, você poderia reconhecer a figura política a partir do que ela vestia - uma indumentária específica dos governantes, da força política e administrativa. Até hoje uma força política não pode se apresentar de qualquer maneira. Existe uma espécie de indumentária do poder. Existe uma obra chamada “Homens de Preto” onde se fala justamente sobre isso: como é que o preto durante muito tempo para as mulheres foi usado como luto, mas para os homens era usado como símbolo de poder. Os homens de preto eram os homens do poder, ligados ao universo político-administrativo. Outro exemplo: não tem nada mais clássico na história do que um baú de joias. Aquela rica família tem que ter um baú de joias. Isto é um elemento que distinguia. Você poderia reconhecer se uma mulher pertencia realmente a uma família nobre, ou com padrão elevado, a partir do seu enxoval as vésperas do casamento. Quanto mais fosse luxuoso e pomposo, provavelmente a mulher tinha mais poder aquisitivo. Isso tudo era muito avaliado no passado e até hoje é, ainda - de uma outra perspectiva, claro.
RLM – Onde reside a moda?
Rui Martins Junior - A moda não é somente a prática indumentária. Também é reconhecer que quando você compra um sofá, ele tem um tempo de vida na sua sala. Vai chegar um tempo em que a própria dinâmica da família vai dizer "está na hora de trocar este sofá". Quando você troca o sofá, você tem que ter clareza que isto é parte de uma demanda que independe de você. A gente pensa que a troca de um objeto, de uma peça da cultura material, é uma questão pessoal. Não é. Existem dois grandes sujeitos envolvidos: você e a sociedade. De alguma maneira, a sociedade está influenciando neste processo, e isso eu entendo como um movimento da moda. Pode não ser no campo da estética corporal, do seu fenótipo, mas está ligado à mesa de vidro que você resolveu comprar para tua sala de jantar, está ligado àquele vaso, até àquela reforma da cozinha ou à coleção de xícaras, que precisa ser harmônica com o resto. Isso são ideias no campo da moda, estamos inseridos neste universo.

