Juliano Cazarré, o ator que cativou o país na pele do ingênuo Adauto na novela “Avenida Brasil”, aos 32 anos já tem um currículo invejável também no cinema. Atualmente, o ator está no ar interpretando o personagem Niño em “Amor à Vida” e, a partir do dia 18 de outubro, também estará em cartaz com o filme “Serra Pelada”. Sim, Juliano é um respeitado ator de cinema, com uma irretocável atuação em trabalhos sob a batuta de feras da direção como Fernando Meirelles, Claudio Assis e Heitor Dhalia.
Nascido em Pelotas – mas criado em Brasília – é perfeitamente compreensível que ele seja inicialmente julgado como árido e estranho tal qual o Cerrado. Forte engano. Juliano tem vida, calçadas e esquinas, muitas esquinas; e assim como a capital federal, é incompreendido num primeiro momento. “Olha pra mim. Eu sou um cara muito diferente do que meus papéis retratam”, ressalta o ator, vestido de forma sofisticada, com uma bolsa a tiracolo de causar inveja a qualquer fashionista.
Vivendo no Rio com a mulher Letícia e seus dois filhos Vicente e Inácio, o “brasiliense”, como se intitula, curte a vida diurna da cidade: vai à praia e pedala nas ciclovias da Barra da Tijuca, longe da vida boêmia que surge ao cair da noite carioca.
Não esperem que as próximas linhas descrevam um homem rude, galanteador ou aventureiro, pois Juliano é um homem sensível, de olhar polido, fala macia e bastante sereno. Bem distante dos seus personagens, o ator, que também já dirigiu um longa, busca na atuação uma linguagem mais virtuosa.
É bom que fique claro: Juliano Cazarré é um homem profundo, que pensa, reflete e constrói uma bela trajetória profissional ainda que, em alguns momentos, uma fenda temporal o leve para outros caminhos. Juliano se deixa conduzir, sabendo que o rio muda ao longo de sua corrente.
Sentados à beira de um palco, na zona oeste do Rio de Janeiro, deixamos a nossa conversa encenar um papo filosófico, que fluiu por meio do conceito de felicidade e transformação. E já que a filosofia nada mais é do que “pensar melhor para viver melhor”, filosofar com Juliano Cazarré certamente é melhorar em dobro. Afinal, quem não gosta de admirar o belo?
Você cresceu fora do eixo Rio-SP e, aos 32 anos, já tem um currículo invejável no cinema. Como foi essa trajetória?
Estudei artes cênicas na UNB e sempre quis ter uma companhia de teatro, de pesquisa, pra perceber a linguagem teatral, trabalhar o virtuosismo do corpo, da voz... No teatro, você pode fazer qualquer coisa, você pode ser um tigre, uma árvore, um Deus; essa é a beleza do teatro. Mais tarde, eu encontrei isso no cinema e me afastei da busca inicial de um teatro mais virtuoso, mais físico. Em 2004, rodei meu primeiro longa – “A Concepção” - e a vida foi se abrindo pro cinema. Fiz “Nome Próprio”, do Murilo Salles, em 2006; “Magnata”; “Tropa de Elite”; “Menina Morta”;“360” e me vi dentro da turma do cinema.
Você já entrou pela porta do cinema e depois migrou para a TV?
Quando eu me deparei, eu já estava no universo do cinema, o que eu amo fazer e em 2007 eu mudei pra São Paulo. Não estava programado pra ir pra TV, só pra ir pra São Paulo. Lá, já tinha feito muita coisa, fiz muito coadjuvante no cinema e então conheci a Leticia (sua mulher) e mudei pro Rio – aí sim, visando mostrar a cara na TV, ampliar os horizontes, buscar personagens maiores... nada contra os coadjuvantes, eu adoro fazê-los, porque não te fazem carregar o filme nas costas e você consegue brincar com eles.

E então veio o Adauto, de Avenida Brasil.
Veio o Adauto, o meu primeiro protagonista, e agora um protagonista no cinema também, o Juliano, de “Serra Pelada”, do Heitor Dhalia.
Como foi conduzir esse personagem tão marcante?
Tivemos a sorte de trabalhar com liberdade, com uma direção e um autor que confiam no ator, aceitam colaboração... Isso foi muito prazeroso, além de bons colegas de elenco, todos talentosos e tranquilos, ninguém queria se sobressair. Se eu tivesse uma piada boa para o Caruso (Marcos Caruso, ator), ele incorporava e vice-versa. Foi o clima de muita criatividade, dentre outros fatores, que ajudou “Avenida Brasil” a ser um belo trabalho.
E como foi se livrar de um personagem tão marcante?
Entre o Adauto e o Niño eu já fiz Serra Pelada – ali eu saí do Adauto. Foi rápido, pois terminei de gravar a novela num dia e no outro eu já estava ensaiando Serra Pelada, em São Paulo. Quando a gente acerta, é importante não se apegar ao acerto. Não se vangloriar ao longo do tempo. “Ok, o Adauto deu certo, mas vamos para o próximo. Já deu”.
Vocês gravaram Serra Pelada no Pará?
Sim, passamos 10 dias no Pará no final do filme. E também gravamos em outras cidades como Paulínia, São Paulo.
Trocar um personagem lúdico como o Adauto, por uma história mais densa, não deve ter sido fácil...
Foi muito rico o processo, os ensaios... Desenvolvi uma amizade muito grande com Sophie Charlotte e Júlio Andrade, atores com quem mais contraceno ao longo do filme, sem contar outros grandes amigos, de longa data, como Wagner Moura e Matheus Nachtergaele. Um elenco recheado de pessoas talentosas facilita a construção de um trabalho intenso, pesado... Foram dois meses de trabalho árduo, com muitos deslocamentos.
Que lição ficou desse processo? Afinal, a Serra Pelada foi palco de um movimento histórico...
O ouro é meio maldito. Todos ganhavam e perdiam o dinheiro que vinha dele. É o Brasil, né? Tudo bagunçado, ninguém sabe o que foi feito exatamente desse ouro todo... Mas o que é legal da história retratada no filme é a amizade entre dois grandes amigos, mais do que uma aula sobre o que, de fato, aconteceu na Serra Pelada. A história se passa lá, mas a Serra é o pano de fundo da ganância. As brigas, a corrupção, a violência ocorrem na Serra Pelada, mas o foco é a ficção, é ver o ouro desfazer a amizade entre dois homens.
São sempre homens fortes, densos, quase primitivos, né, Juliano? Até a sua aparência carrega a rudeza dos seus personagens, divinamente retratada no filme “Febre do Rato”, do Cláudio Assis.
Eu acho que o cinema soube se aproveitar disso bem. É uma característica minha que eu sei fazer, mas não quero passar o resto da minha vida fazendo o que eu sei fazer. Quero tentar também o que eu não sei fazer. Eu quero muito pegar um personagem que destoe disso, porque eu não sou assim, né?! Você tá me vendo (Juliano está bem vestido e livre dos dreadlocks que caracterizam a sua personagem em ‘Amor à Vida’). Eu quero fazer um personagem que se vista bem, que fale bem; mas, às vezes, aparecem bons projetos que carregam esse homem mais primitivo, natural e que são irrecusáveis.
É uma galeria de personagens fortes e brutos que destoam do mundo no qual você cresceu, que era mais poético... Seu pai ganhou um prêmio Jabuti, você escreveu um livro chamado “Pelas Janelas”...
Eu tenho muita vontade de escrever mais. Tenho refletido sobre isso. Me sobra pouco tempo pra escrever, me sinto um pouco afastado do cara que eu queria ser no começo, um cara que pesquisa...
Quais as suas influências literárias?
Eu saio muito pouco dos clássicos da Grécia, releio livros inesgotáveis como “A Ilíada”, “Odisseia”, Epicuro... gosto muito de livros que traçam painéis históricos. “A História da Feiúra”, do Umberto Eco, enfim, livros que traçam um histórico sobre a busca da felicidade ao longo das civilizações, entre outros.
Sobre a felicidade, o Luiz Felipe Pondé diz que vivemos uma sociedade do conforto que “exige o direito de ser feliz”, mas os Deuses não estão preocupados em realizar essa felicidade tão desejada como garantia. Você acredita nessa ditadura da felicidade?
Eu sinto que existe a obrigação da felicidade e acho isso nocivo. Essa felicidade do camarote do carnaval, de pessoas com um microfone na mão dizendo que estão muito felizes, ou postando fotos no Instagram, fotos de comida, de lugares lindos em que estão, como se não bastasse ser feliz... É obrigatório fazer uma apologia à felicidade quando, na verdade, essa questão é bem mais profunda, nem mesmo os filósofos entram num consenso. Confundimos a felicidade com alegria. Quando eu como algo que me agrada, eu acho que estou alegre e não feliz. E acho até que a felicidade é feita de pequenos momentos de alegria ao longo da vida.
Ou seja, não existe uma felicidade constante, mas fragmentos de felicidade...
Eu cito muito Epicuro, um filósofo grego do qual eu gosto muito e que diz que os deuses existem, uma vez que nos ocupamos deles, mas eles não se ocupam da gente, eles realmente têm mais o que fazer. Eles não se vingam da gente. A felicidade pra Epicuro não é uma coisa positiva no sentido de acumular coisas, mas sim a ausência de coisas; não é a presença do dinheiro, saúde, mulheres, mas sim a ausência de dor no corpo e sofrimento no espírito. E eu concordo com isso.
Uma ideia que foi amadurecida por Schopenhauer mais à frente diz que a vida não nos é dada para ser usufruída, mas para ser suportada, ou seja, passar a vida sem dores físicas ou psíquicas é o critério de medida da felicidade.
Isso! O cara que já é feliz com o que tem é mais realizado com aquele que deseja sempre ter algo que lhe falta. Tem uma frase do Epicuro que diz “se você quer enriquecer alguém, não aumente suas riquezas, diminua os seus desejos”. Eu concordo com isso. E acredito também que a felicidade é fugidia, ela nos escapa. Quando você acha que está feliz, você vê que aquilo já passou e já busca algo novo.
Nesse sentido, acho que estacionar em Nietzsche é consolador. A ideia de amar o seu próprio destino, seja ele qual for, é bem reconfortante nessa ditadura do ser feliz. O bom e velho “torna-te quem tu és”.
É por aí... Se ocorre algo na sua vida que você pode mudar, então mude. Se não, não lamentar o fato é fundamental. Aceitar o seu destino é uma atitude mais soberana em relação à vida e à morte. Eu vivo querendo fixar as coisas, mas vejo que só existe a mudança. Nesse sentido, eu sou mais Heráclito do que Parmênedes.
“O homem não se banha duas vezes no mesmo rio” é uma célebre frase de Heráclito...
E é uma frase perfeita porque dá direito não só ao homem mudar, mas à natureza também. Eu adoro essa frase. A gente quer sempre fixar algo. “Agora eu acordo sempre mais cedo”, “agora eu só como tal coisa”, tudo falha. Eu estabeleço várias regras e todas elas falham. É importante estabelecer uma rotina, mas aceitar que as coisas mudam o tempo inteiro.
E mudando do Juliano ator para o escritor, o que podemos esperar do seu livro “Pelas Janelas”, lançado em 2012?
Escrever é um exercício. Se você escreve todos os dias, fica mais fácil. Eu tenho pouco tempo para escrever, mas quero escrever mais e melhor. O livro une minhas poesias, algumas mais escatológicas, outras mais leves. Outro dia, escrevi um artigo sobre paternidade que me deixou bem feliz tanto quanto à estética do texto, quanto ao conteúdo. Você vai aperfeiçoando.
Qual a sua visão da paternidade?
A paternidade está totalmente ligada ao afeto, colocando o DNA numa posição mais primitiva, ou seja, pai é o cara que está lá do lado e não o dono do espermatozoide. Eu acordo e primeiro penso qual a fruta que tem pra preparar o suco dos meus filhos e depois penso no que eu vou comer. Ser Pai é se sacrificar.
Você já escreveu um livro e teve filhos. Já plantou uma árvore?
Eu acho que já plantei algumas árvores sim...
E quais os projetos futuros?
Eu sinto que preciso escrever mais. Me dedicar a isso. Todos os dias eu falo pra minha mulher “vamos largar tudo e voltar pra Brasília! Vou escrever, vai ser difícil, mas depois eu vendo um roteiro, uma história. Vamos ficar perto das pessoas que amamos!”. Ela ri e ressalta que, logo depois, eu digo que quero virar carioca, viver a rotina do Rio (risos). Cada dia uma correnteza do rio...
