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"Por que, em sua primeira viagem como passageiro, você sentiu aquela vibração mística, quando lhe disseram que você e o navio estavam fora do alcance dos olhos da terra?” A pergunta flutua em um dos trechos da obra-prima de Melville, “Moby Dick”. Mais do que a história da vingança do Capitão Ahab contra a baleia branca que lhe arrancou uma das pernas, esse é um romance sobre o mar. Um dos muitos e mais belos exemplos do fascínio que os oceanos do mundo despertam em artistas de diferentes gerações. Na calmaria ou na procela, o encanto das águas reside no desconhecido. E foi pensando nesse mistério, isto é, nas múltiplas sensações da experiência no mar, que Marcelo Camelo batizou a sua nova banda, formada em parceria com Mallu Magalhães e Fred Ferreira.
 
“O Marcelo sugeriu o nome e a gente adorou, porque você pode achar o mar em vários momentos das canções, dependendo do que ele representa para você”, explicou Mallu, autora de cinco das doze faixas do álbum. As outras sete são de autoria de Camelo, entre elas, “Cidade Nova”, que inclui o verso “eu só trago o mar de algum lugar comigo”. 
 
Apesar da relação que mantém dentro e fora dos palcos - Mallu e Marcelo são casados -, o álbum da Banda do Mar não inclui nenhuma canção escrita a quatro mãos. “Não existe um motivo exato para isso, só preferimos dividir as composições. Eu compus as que eu canto e o Marcelo, as dele”, ressaltou a cantora, coerente com a letra da canção “Me sinto ótima” (“a melhor viagem é seguir a trilha que eu abri”). 
 
A opção por um caminho solitário de composição reforça, no álbum, a personalidade dos dois artistas, cujos trabalhos individuais são singulares na forma de cantar e compor. Como o próprio Marcelo descreve na letra de “Pode ser”, a Banda do Mar é um misto da intensidade de Mallu e da “calma do mundo” do ex-Los Hermanos. “Fazer parte de uma banda é algo novo. Eu sempre tive a sorte de ser acompanhada por músicos incríveis, mas quando se é parte de uma banda, ainda mais na Banda do Mar, onde estamos entre amigos, é algo totalmente diferente”, reconheceu a autora de “Muitos chocolates”, explicando que os assuntos e os caminhos melódicos das canções são outros quando o objetivo final é um projeto coletivo. “Hoje em dia, quando eu componho, algumas músicas saem parecidas com a Banda do Mar, outras não se encaixam, mas é algo que acontece naturalmente”, garantiu Mallu, agora com 22 anos.
 
Somos do mundo 
 
A Banda do Mar surgiu por causa da mudança de Mallu Magalhães e Marcelo Camelo para Lisboa, em 2013. Nessa “cidade nova”, onde tudo é “estranho e lindo”, foram abertos os caminhos para a parceria com o músico português Fred Ferreira, baterista dos grupos Buraka Som Sistema, Orelha Negra e Laia. “Nas minhas composições, aparecem todos os sentimentos que uma mudança traz”, explicou a cantora, em possível referência às letras de “Mais ninguém” (“mesmo que não venha mais ninguém, ficamos só eu e você / fazemos a festa, somos do mundo / sempre fomos bom de conversar”) e “Me sinto ótima” (“eu me achei no colo do meu par / a melhor parte de mim eu acabei de descobrir / e, se perguntarem por mim, diga que estou ótima”).
 
A convivência em Portugal consolidou a criatividade do trio, porém a relação de Fred e Marcelo é bem anterior ao projeto da banda. “Somos amigos há mais de dez anos”, contou o português, pai da pequena Maria, afilhada de Camelo. “Eu já conhecia algumas coisas do Brasil, mas quando ele e a Mallu mudaram para Lisboa, aprendi ainda mais sobre a música brasileira”, revelou o artista, que no disco se reveza entre a bateria e a percussão. Mesmo assim, por mais que em muitos momentos do álbum da Banda do Mar ressoem na concha do ouvido referências da música nacional, entre as quais, por exemplo, a Jovem Guarda, o pop/rock de Rita Lee e a psicodelia de Gal Costa no fim dos anos 1960, fica claro que, depois da experiência de viver no exterior, o verso “não tenho mais medo do mundo” não é mero acaso. “A maior influência da vida em Lisboa foi o Fred”, reconheceu Mallu.
 
O tempo que eu tenho é pra voar 
 
 
Desde que o álbum chegou às lojas, em agosto de 2014, a agenda de Marcelo, Mallu e Fred está repleta de shows, gravações em programas de TV e entrevistas. A turnê pelo Brasil começou em outubro, em Porto Alegre, e já passou por Rio de Janeiro, São Paulo, Natal, Fortaleza, Florianópolis, Salvador, Teresina, Curitiba e Belo Horizonte, entre outras cidades, de norte a sul do Brasil. No palco, sucessos de outros trabalhos dos artistas, como “Velha e Louca” (Mallu Magalhães) e “Além do que se vê” (Marcelo Camelo), completam o repertório do show. A adesão dos músicos Marcos Gerez, integrante do Hurtmold, no baixo, e Gabriel Mayall (Bubu), da banda Do Amor, na guitarra, garante aos espetáculos um tom mais roqueiro. Fazendo jus ao clima familiar mencionado anteriormente por Mallu, Bubu e Marcos são antigos parceiros de Marcelo: o primeiro tocava no Los Hermanos e o segundo acompanhou o artista nas turnês dos álbuns “Sou” (2008) e “Toque Dela” (2011). 
 
“A nossa agenda tem sido bem corrida, estamos vivendo em hotéis”, revelou Mallu, ressaltando que, ainda assim, encontra tempo para outros projetos e para músicas que não são as músicas da Banda do Mar. “A gente vive disso, então é impossível desligar. Inclusive, o Fred esteve no sul do Brasil para um show essa semana”, contou a artista. Paralelamente ao trabalho nos palcos, ela recentemente concebeu as capas dos álbuns de Bruno Capinan, “Tudo está dito”, e de Tom Zé, “Um Vira-Lata na Via Láctea”, lançados em 2014. 
 
Em dezembro passado, a Banda do Mar aportou em Belém, em única apresentação no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia. Na ocasião, o show de abertura ficou a cargo do duo paraense Strobo. “Tanto eu quanto o Marcelo já havíamos tocado em Belém e voltar agora, com a banda, foi muito legal. O público nos acolheu muito bem”, comemorou Mallu. “Aliás, tem sido assim em todo o país. Estamos muito felizes com a recepção que estamos tendo e com o carinho”, garantiu a cantora, animada com a repercussão do álbum e da turnê, que, ao que tudo indica, está longe da “acostagem”, termo náutico que se refere à proximidade do cais.
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