São 22h00 de uma quarta-feira e milhões de brasileiros assistem a mais uma cena de novela. Segundos depois, mais de 130 mil fãs bombardeiam as redes sociais do ator que encarna um dos personagens da atração televisiva, com mil corações e declarações de amor (muitas das quais são mais... “carnais”, na realidade). O ator passa a ser vítima, quase diariamente, de um “ataque de lirismo”, o mesmo que retratou em sua música “cadê meu jardim?”, em que canta: “O homem teve um enfarte do coração/ E ao invés de ‘bom dia’ dizia ‘eu te amo’/ A vida dele se enfartou/ e ele preferiu um ataque de lirismo/ A vida não é assim tão previsível”. De fato, a vida não é.
Aos 42 anos, o ator, músico, instrumentista, compositor e diretor musical Alexandre Nero concilia os trabalhos no teatro e na televisão com o lançamento de seu CD “Vendo Amor – Em suas mais variadas formas, tamanhos e posições”, gravado em 2010. Alexandre foi idealizador e criador da “Associação dos Compositores da Cidade de Curitiba”, fundada em 1994 e foi integrante do “Grupo Fato”, da banda Maquinaíma e do grupo Denorex 80, todos projetos de grande destaque no cenário musical curitibano.
Atualmente encarna o vaidoso advogado Stênio, na novela global “Salve Jorge”, manuseando com maestria os holofotes para o seu personagem ao longo da trama, exatamente como fez com o violento e machista Baltazar, de “Fina Estampa”, que chegou ao final da novela aplaudido pelo público e crítica, após formar uma improvável dupla cômica com o personagem homossexual Crô, interpretado pelo amigo e ator Marcelo Serrado.
Alexandre está longe de ser mais um produto televisivo enlatado, é sim um alquimista, com o poder de transformar seus personagens em metal nobre, talento depurado pelas dezenas de peças teatrais que encenou, com destaque para “Os Leões”, em 2006.
Por ter perdido os pais na adolescência e ter sido criado dentro de um efervescente caldeirão cultural em Curitiba, onde nasceu, é compreensível que Alexandre Nero Vieira seja um cara fora dos padrões. “E aquariano”, como faz questão de frisar, como se o signo astrológico fosse parte fundamental para entender sua essência. Isso explica não só as fortes batidas das asas de Alexandre, como as letras de suas músicas, em especial a acima citada “cadê meu jardim?”, que diz “Se está tudo aqui bem dentro, em mim/ Que venham todos os fins, porque eu sei recomeçar”.
Como diria seu conterrâneo, o poeta Paulo Leminski, “Não discuto com o destino/ o que pintar eu assino”. E foi assim, numa tarde de domingo, que pintou a oportunidade de entrevistar o Alexandre num típico restaurante paraense em Ipanema. E ele, sem discutir, assinou.
Ao pesquisarmos o seu nome na internet o seu currículo aponta que Alexandre Nero é cantor, compositor, arranjador, sonoplasta, diretor musical etc. Começo perguntando: o que você não é?
Alexandre: Humilde (risos). Na verdade essa definição vem de currículos que eu distribuía antes de ficar famoso, profissões nas quais eu sou sindicalizado e que posso exercer. Mas do ponto de vista artístico acredito que podemos ir muito além dessas definições burocráticas. Hoje o artista pensa na concepção do seu cartaz, no seu projeto que vai ser inscrito em editais, em como pode prender o público, entre outras coisas que compõem a sua carreira central de ator ou músico, por exemplo.
No Brasil não temos essa cultura de multiartistas, o que muitas vezes causa resistência do público que se depara com o ator que também é cantor, ou vice-versa, correto?
Acho que essa coisa “brodwayniana” também limita. Quer dizer que se o cara atua, canta e sapateia não pode fotografar, escrever poemas e roteiros para filmes? Acho isso tudo muito limitador. Cantar e interpretar são coisas técnicas, que se aprendem, todo mundo pode fazer tudo. A pergunta é “o que você quer passar com a tua arte?”.
E como você se descobriu neste processo de desenvolvimento artístico? Começou a atuar, compor, cantar...
Se você me perguntar o que eu sou, vou responder que sou um músico, cantor, compositor e ator. Mas acho que poderia ser muitas outras coisas, aliás todo mundo pode fazer o que quiser. Eu escreveria um roteiro? Claro que sim. Eu filmaria este roteiro? Sim. Eu apresentaria um programa? Claro. Nós estamos falando de arte e não de medicina, advocacia e engenharia nas quais a falta de aptidão pode gerar danos maiores. A arte é subjetiva, todo mundo pode fazer arte. Agora as pessoas podem gostar ou não, a arte pode ser boa ou não.

E você vem de um cenário muito rico nesse contexto, Curitiba é berço de muitos artistas experimentais como Paulo Leminski, entre outros...
Isso. Gosto muito do Leminski, que tem uma frase que diz: “Poeta é quem se considera”. E isso você pode levar para qualquer meio. Eu por exemplo não me considerava ator há tempos atrás, hoje eu me considero e pode ser que amanhã não me considere mais.
Podemos brincar com as frases dos poemas do Leminski ao longo desse papo, como aquela que diz “não discuto com o destino/ o que pintar eu assino”.
Exatamente! Isso foi o que aconteceu na minha vida. Eu sempre trabalhei com música e via atores muito ruins e isso me causou curiosidade, pensava “Opa, isso eu sei fazer!”. E pra ganhar dinheiro também, porque o artista precisa de grana e ampliar o seu campo de atuação é financeiramente positivo também. Tenho um amigo que não sabia andar de moto e se candidatou a um papel de um motoqueiro, ele me procurou pra aprender a pilotar moto, foi lá e fez o papel. Isso é a vida do artista.
O que demanda uma certa falta de pudor...
Sim, exatamente (neste momento chega à mesa o típico licor de jamburana – flor do jambu, aperitivo peculiar da culinária paraense, famoso pelo tremor que causa na boca. Alexandre experimenta).
Você conhece Belém?
Não, na verdade não conheço nada do Norte, adoraria. Nossa, esse licor é muito bom! E essa água toda fica saindo pela boca...É assim mesmo? Tô quase babando (risos).
Como você lida com o salto para a grade de atores de uma grande emissora de tv, considerando a sólida carreira teatral que você construiu em Curitiba?
Eu nunca pensei em chegar na Globo, o que está muito atrelado ao eixo Rio-São Paulo, eu como sou de Curitiba, uma cidade que não faz tv, com um cenário cultural muito bacana e não atrelado a uma aceitação da massa, nunca sonhei estar aqui. Em Curitiba nós queremos que você goste mas não fazemos pra você gostar. Foi tudo muito inusitado pra mim, um produtor me assistiu no teatro e gostou.
E você já havia fundado uma associação de compositores em Curitiba, certo?
Sim, quando eu era garoto. Eu comecei como músico. Antes da tv eu só era conhecido como músico, que foi a minha profissão e ainda é. Vivi só de música por 20 anos, o teatro era um hobby, algo secundário. Hoje eu sou músico, mas não vivo da música atualmente. Eu gravo disco porque é o meu trabalho.
Como foi tua história com a música?
Eu já trabalhei com grupos muito sérios artisticamente falando, um gênero mais erudito, música experimental, viajamos pra Europa...Tenho uma vocação acadêmica e não uma formação acadêmica. Foi o que disse lá atrás, você pode tocar qualquer instrumento desde que tenha muita vontade. Tocar violão não é nada mais que datilografar. Meus amigos músicos ficam aborrecidos quando falo isso, mas é verdade. A prática te faz tocar, já a aptidão, genialidade ou talento contribuem para você tocar ‘muito’ bem.
Você toca outros instrumentos?
Meu principal instrumento é violão e canto e fui brincando com outros porque eu quis possibilidades, toco instrumentos de corda como cavaquinho, viola caipira, guitarra, baixo, só não toco os instrumentos de corda eruditos. “A música é matemática” – John Lennon dizia isso quando afirmava que podia tocar qualquer instrumento, assim, teoricamente eu toco qualquer instrumento, mas na prática eu toco os de corda, é algo como ser ator, teoricamente um ator pode fazer comédia, drama, qualquer papel, mas na prática se você não fez circo ou teatro contemporâneo, pode não convencer naquele cenário.
E como ator, como as oportunidades se apresentaram na sua vida?
Um produtor de elenco me viu na peça ‘Os Leões’, muito premiada no festival de Curitiba e me chamou pra participar de um especial de fim de ano na Globo, quando uma preparadora de elenco me viu no processo de leitura, acreditou que eu pudesse ir além, e me indicou para outros produtores de elenco. Eu era um ator de Curitiba que não conhecia ninguém no Rio, fiz testes e comecei a fazer “A favorita”, depois fui chamado pra outras novelas como “Paraíso”, “Escrito nas Estrelas”, “Fina Estampa” e fui ficando, hoje moro no Rio.
Uma história bem aleatória...
Muito! Lembro que uma vez me perguntaram como eu gostaria de estar vivendo dali a 10 anos e eu respondi ‘exatamente como estou hoje’, ralando, produzindo, trabalhando... Claro que a gente almeja a fama, reconhecimento, mas a gente vê que a realidade é outra, o prazer tem que estar no fato de se autoprovocar, em provocar o público.
E o assédio que vem com a fama?
Eu estou me acostumando. Antes eu era meio ‘Mogli’, eu não entendia por que as pessoas vinham me dar parabéns. Eu chegava a ser agressivo e não percebia o motivo de alguém querer tirar foto comigo, pois eu já trabalhava havia muitos anos e nunca pediram pra tirar foto. Estou aprendendo a lidar. As redes sociais são um bom meio pra humanizar o ‘artista’, mas em contrapartida você começa a ser criticado porque fala besteira ou erra como qualquer outra pessoa, e aí algumas pessoas acreditam que o artista tem que ser normal, mas tem que ser mito, é bem paradoxal isso. Este tipo de público não me interessa. Não tenho talento pra ser famoso... Alguns colegas chegam num lugar e fazem uma determinada pose que as beneficia, e eu estou começando a brincar com isso. Pareço menos feio nas fotos (risos).
Voltando a citar Leminski, você concorda quando ele afirmava que ‘todo ser em movimento é perigoso”?
Acho que quase todo ser em movimento é perigoso. Qualquer provocador, subversivo é um artista em potencial. O Solda, parceiro e amigo íntimo do Leminski, diz que “todo poeta sentado está em pé de guerra”.
“Um erro e o poema explode na tua cara”, também dizia Leminski...
(risos) Verdade, Leminski é genial!
“Vazio agudo/ando meio/cheio de tudo”... outro haikai dele.
Muito exato. Foi isso que me fez falar de amor no meu CD. Já que acham brega falar de amor achei um ato de rebeldia falar de amor. Explicar isso pro público do Roberto Carlos é ridículo, vão achar que isso já foi feito, mas eu quis falar de amor de um outro jeito. Tentei.
Você encarnou essa coisa transgressora também quando compôs o júri do Programa Amor&Sexo, com posicionamentos sempre polêmicos...
(risos) Sim, eu inclusive tenho o talento da provocação, nem sempre tudo o que eu falo eu acredito. Estou apenas propondo “vamos levantar esta discussão?”.
E são essas discussões que nos tiram do lugar, nos ajudam a evoluir.
Exatamente. Hoje eu estou mais leve, me divertindo muito mais nas coisas que eu faço, é muito bom poder quebrar o ‘copo da mãe’, buscar a criança boba e não a de cabelo engomado. Hoje eu sou muito mais roqueiro do que fui na adolescência.
E repetindo a pergunta que já te fizeram lá atrás: onde você quer estar daqui a 10 anos?
Eu adoraria estar fazendo o que eu faço. O meu único medo é não conseguir envelhecer dignamente.
E o que você está fazendo?
Hoje eu estou na Rede Globo (e posso não estar daqui a um tempo), atuando na novela das 21h e ao mesmo tempo estou em uma revista com o André Abujamra e o Carlos Careqa (dois artistas com quem Alexandre possui um projeto paralelo). Também tenho feito shows, o que é mais raro em momento de gravação de novela. Meu único planejamento agora é transformar o meu CD “Vendo Amor” em DVD ou um documentário, mostrando todo o processo de criação e realização e vai se chamar ‘revendo amor’.
E quanto custa esse amor?
Depende. O amor que eu vendo custa R$25 nas lojas (risos). Já o amor que as pessoas estão vendendo pode custar um carro pro filho, por exemplo. A brincadeira do ‘vendo amor’ está no sentido de vendar, de observar o amor pra se falar de outras formas, mas a principal crítica ou ironia do CD é essa da sociedade que compra o amor. Também vendo outro tipo de amor que pode custar mais caro ou mais barato (risos).
