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O céu, as estrelas e o poeta
 
Nostalgia em tom de chanchada. Quando se abrem as cortinas do musical “Bilac vê estrelas”, o espectador volta ao Rio Antigo, no auge da Belle Époque carioca, quando um mundo de novidades desfilava pela Rua do Ouvidor e “sassaricava” na porta da famosa Confeitaria Colombo. Na mesma cidade em que ocorriam eventos ainda com ares do passado, como a “Revolta da Vacina”, o futuro chegava veloz e com sotaque ligeiramente afrancesado. As belas construções em art nouveau testemunhavam o surgimento das inovações trazidas pela modernidade, como a luz elétrica, o cinema, o automóvel e, mais tarde, o avião.    
 
Com seus grandiosos espaços refletidos em espelhos belgas, decorados com mobiliário em jacarandá e bancadas de mármore italiano, a pomposa Confeitaria Colombo, até hoje considerada um dos maiores cartões-postais da capital fluminense, é um dos ambientes em que a trama se desenrola. Parte da fama do lugar centenário foi construída com a ajuda de importantes figuras do mundo das letras, entre as quais está Olavo Bilac, junto a outros poetas, jornalistas e boêmios. Tanto que, para homenageá-lo, seu nome foi eternizado no cardápio da casa, com o prato “Picadinho à Bilac”. 
 
Nesse Rio de Janeiro do início do século XX, época em que se passa o musical, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, o “príncipe dos poetas”, é tratado como rei. É para vê-lo e principalmente ouvi-lo que moças e senhoras passam, diariamente, em frente à Confeitaria Colombo, na expectativa de flagrá-lo declamando algum verso de sua autoria, algo imortal como as famosas estrofes “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto/ Que, para ouvi-las, muita vez desperto/ E abro as janelas, pálido de espanto.../ (...) E eu vos direi: ‘Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido/ Capaz de ouvir e de entender estrelas’”, de um de seus mais conhecidos poemas, “Ouvir estrelas”, ao qual fazem referência o título do musical e do livro que o inspirou.
 
 
A história contada no espetáculo é simples e rocambolesca ao mesmo tempo. O poeta precisa socorrer o amigo José do Patrocínio, político conhecido como “Tigre da Abolição” por seu destacado papel na luta pelo fim da escravidão no Brasil. Na peça, ele tem sua vida ameaçada pela ganância da dupla composta pela espiã portuguesa Eduarda Bandeira e pelo padre Maximiliano, sacerdote menos dado a orações que às artes malignas e versos de qualidade duvidosa. Tudo por causa de um dirigível que está sendo construído por Patrocínio, com a ajuda de Santos Dumont, e que pode revolucionar os transportes – a aviação, até então, não havia sido descoberta.
 
Autor do livro em que o musical se baseia, o jornalista Ruy Castro é um dos maiores entusiastas da peça e até colaborou em sua produção. “Mas sem interferir diretamente, porque acho que, na transposição de um texto para outro veículo, o autor não tem que ficar se metendo. São linguagens diferentes”, ressalta, no seu jeito muito direto e sincero de dizer as coisas. “No dia do primeiro ensaio do ‘Bilac’, fiz uma preleção para a equipe e o elenco, sobre o espírito da época em que se passava a história: o Rio de 1903, durante o ‘bota-abaixo’ do prefeito Pereira Passos. Dois meses depois, fiquei besta, ao ir à estreia e ver que estava tudo no palco. Desde então, já vi o espetáculo mais de 10 vezes e vou ver de novo, agora em São Paulo”, revela. 
 
As responsáveis por transpor o texto do romance para os palcos foram as escritoras Heloísa Seixas e Julia Romeu, em um trabalho que durou dois anos. “Não apenas lemos o livro como também mergulhamos na obra do Bilac, em seus poemas e crônicas; e estudamos muito o Rio do início do século XX. Essa época é muito charmosa e tem paralelos com o momento que estamos vivendo agora, de intensas mudanças na cidade”, pontua Heloísa, autora, entre outras obras, de “Lugar escuro”, que também deu origem a um espetáculo, adaptado por ela própria. As autoras não hesitaram em tomar liberdades dentro da narrativa, inclusive inventando personagens que não constavam no livro, como os Irmãos Wright, que na peça encomendam o roubo do balão. 
 
Um Bilac inspirado no cinema mudo 
Apesar da admiração no meio intelectual e do assédio das damas da sociedade carioca, nem tudo era perfeito na rotina de Olavo Bilac. Seu indisfarçável estrabismo causava-lhe um enorme desconforto. Explorado com maestria pelo trabalho de expressão corporal do seu intérprete, o ator André Dias, esse detalhe serve de mote para alguns dos momentos mais divertidos do espetáculo, com o personagem de Bilac tentando disfarçadamente se posicionar sempre de perfil em relação aos seus interlocutores. 
 
 
O ator também lança mão de sutilezas da voz para nos apresentar a personalidade retraída do “príncipe dos poetas”, um homem que além de muito vesgo era franzino, mas que tinha o ego inflado de um artista consagrado pela excelência de seus versos parnasianos. Para compor o personagem, André buscou referências do cinema mudo, especialmente nos filmes do comediante americano Buster Keaton. “Criamos um espetáculo que prima pela simplicidade e direta comunicação com a plateia. Não temos a pretensão de recriar personagens históricos, e sim de contar uma história baseada em tais personagens”, explica o ator, que já é conhecido do público paraense. No ano passado, ele causou furor em Belém, graças a sua hilariante interpretação de Ezequiel Neves, empresário e produtor do personagem título de “Cazuza – O Musical”.  
 
O elenco de “Bilac vê estrelas” como um todo, aliás, é um dos pontos fortes do musical. Os trabalhos de Alice Borges, como Madame Labiche, e da dupla de vilões Eduarda Bandeira e Padre Maximiliano, representados por Tadeu Aguiar e Izabella Bicalho, são impagáveis. Na temporada em São Paulo, os dois vilões serão vividos pelos atores Amanda Acosta e Caike Luna.
 
A direção de João Fonseca, também responsável por “Cazuza – O Musical”, foi determinante para alcançar esse resultado. A junção das cenas feita pelo diretor simplesmente eliminou um dos pontos mais criticados pelos que detestam musicais: aquele momento em que a narrativa é interrompida para que o personagem comece a cantar, sem muita explicação contextual. “É como se fosse um programa de auditório”, alfineta Ruy Castro, crítico desse tipo de artifício. Outro mérito de Fonseca, dividido com as autoras do texto, foi o de conseguir manter na peça o tom de comédia pastelão que caracteriza o livro.
 
A trilha sonora composta especialmente para o espetáculo é provavelmente o que mais diferencia “Bilac vê estrelas” de toda a safra recente de musicais brasileiros. As quinze músicas foram criadas pelo compositor e escritor Nei Lopes, que tomou o cuidado de integrá-las ao contexto da história. A variedade dos estilos das canções – há desde lundu, modinha, valsa, fado, maxixe, quadrilha francesa, ária e outros mais – reflete a riqueza musical da época e a maestria de Lopes, que entregou uma trilha que consegue ser, simultaneamente, sofisticada e popular. “É um desafio porque a plateia ainda não conhece as canções. Mas as músicas do Nei Lopes são tão geniais que, no meio de cada uma, é até possível notar que o público já está cantando junto”, elogia Ruy Castro. Destaque para “Canção cigana”, tema oriental entoado por Madame Labiche, com a participação entusiasmada dos espectadores. 
 
Herdeiros do rei
Um dos trunfos para o elogiado resultado de “Bilac vê estrelas” é que parte da equipe esteve na adaptação musical de outro livro de Ruy Castro: “Era no tempo do rei”, montado em 2010, no Rio de Janeiro, e que, durante três meses, levou centenas de pessoas ao teatro João Caetano. Além de Ruy, Heloísa Seixas, João Fonseca, Tadeu Aguiar e Izabella Bicalho são remanescentes da montagem. A trilha sonora, também original, foi composta por Carlos Lyra e Aldir Blanc. Dom João VI foi interpretado pelo cantor Léo Jaime.“Foi como um grande vinho aberto antes da hora. Tinha bela música original, grandes cenários e figurinos, mas, por incrível que pareça, em 2010, há apenas cinco anos, não se sabia direito o que era um musical nacional. (...) Mesmo assim, lotou o Teatro João Caetano, que é enorme, durante dois meses”, recorda Ruy Castro. 
 
Durante mais de quatro meses, “Bilac vê estrelas” lotou salas em teatros da Zona Sul à Zona Norte cariocas e agora segue para temporada em São Paulo. O sucesso do musical é motivo de satisfação para o autor do romance que deu origem à peça. E também de esperança: “Finalmente, espero, vamos entrar agora na fase dos musicais brasileiros, com uma história de verdade, músicas feitas especialmente para o espetáculo e os atores cantando e dançando uns para os outros porque a música faz parte da história, está integrada a ela”, pondera. 
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