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O exercício de ser outro

Pela vida inteira, um ator se debruça sobre o desafio de ser quem não é, com o máximo de sinceridade. Um exercício, segundo Virginia Cavendish, que tem a ver com autoconhecimento e que leva a lugares melhores e desconhecidos dentro de si próprio. Atriz e produtora, com trabalhos expressivos na televisão, no cinema e no teatro, ela abriu as portas de seu apartamento, no Alto Leblon, Rio de Janeiro, e conversou com a Revista Leal Moreira sobre carreira, família e projetos.

Descendente de intelectuais pernambucanos, Virginia estreou no teatro aos seis de ano idade. Em parceria com o cineasta Guel Arraes, deu vida a personagens marcantes no cinema brasileiro, como a Rosinha, do “Auto da Compadecida”. Virginia é uma mulher que conjuga beleza e inteligência, que tem consciência do próprio papel e se considera, sobretudo, “ambiciosa artisticamente”.

Você nasceu em Recife. A música é muito forte por lá. O que dizer do teatro?
A música é coisa mais recente. Pernambuco sempre foi o terceiro polo de teatro do Brasil. Na década de 1980, o João Falcão começou a fazer teatro. Tinha o Antonio Cadengue... Depois, no início dos 90, veio o manguebeat, mas veio o cinema também, com o Lírio [Ferreira], o Paulo Caldas, o Claudio Assis, fazendo um cinema independente. A gente não tinha cinema em Pernambuco antes do filme do Lírio, o “Baile perfumado” (1996).

E você começou a atuar na década de 1980, em Recife?
Sim, comecei como estudante. Eu tinha 17 anos, na UFPE. Fiz trabalhos comerciais e publicitários com o João Falcão. Logo em seguida, fui para Campina Grande. Fiquei seis meses lá, trabalhando com um diretor chamado Moncho Rodriguez, um espanhol que reuniu atores do Brasil todo para morar em comunidade e trabalhar no ‘Centro Cultural Paschoal Carlos Magno’. Foi a minha primeira peça, a primeira vez que eu saí de casa. Achei o máximo. Para mim, aquilo ali era tudo.

Quando você decidiu sair de casa, foi tranquilo comunicar isso para sua família? Você é filha única?
Não. Sou a terceira, a caçula. Meu pai e a minha mãe não tiveram problemas com isso. O meu pai chegou a reclamar algumas vezes do teatro. “Minha filha, vá fazer outra faculdade. Teatro não dá dinheiro”, ele dizia. Mas eu era cega. Só queria saber de teatro.

Você vem de uma família de intelectuais. A sua mãe [Sueli Cavendish], por exemplo, é ensaísta e produtora...
Sim, hoje ela dá aula de Literatura Comparada, em Pernambuco. Meu tio, Jorge Wanderley, que morreu, era poeta, grande tradutor, um cara brilhante. Foi professor da UERJ durante muito tempo. E o meu pai sempre esteve ligado à universidade: foi pró-reitor, foi do CNPq, porém ligado à área dele, fitopatologia. É um cara respeitado nesse universo, faz palestras em tudo quanto é lugar. Mas a coisa artística tem mais a ver com a minha mãe.

E quando foi o primeiro contato com o teatro?
A mãe fez teatro no final da década de 1970, com o [Antonio] Cadengue, num grupo importante de Recife. Era a montagem de um Pirandello, “Esta noite improvisa-se”. Minha irmã também participava como a filha da personagem da minha mãe. Eu ia aos ensaios porque não tinha com quem ficar em casa. Comecei a gostar e a querer participar, mas não tinha papel pra mim. Até que um dia a minha mãe insistiu com o diretor e ele concordou: “então, tá bom, você vai ter duas filhas.” Aí entrei na peça. Mas, no final, a minha mãe acabou saindo, porque teve vergonha, não era a dela. Ficamos minha irmã e eu.

A sua irmã também seguiu com a carreira?
Não. Era uma época meio confusa. Eu tinha só seis anos de idade. Meus pais estavam se separando. Aquilo ali era um barato para mim, para ela. Eu gostava da coxia. Um dos atores era o dono de uma doceria. Tinha sempre docinhos, brigadeiros... coisas que eu amava. O meu primeiro salário foi uma (boneca) Susi (risos).

E a formação profissional como atriz? Como aconteceu?
Com 16 anos, eu comecei a pensar em ser atriz. Deu vontade de novo. Aí voltei a fazer teatro. Fiz um curso na Fundação Joaquim Nabuco, uma instituição muito boa em Pernambuco. Dois meses de teoria, dois meses de corpo, dois meses de voz, dois meses de dramaturgia e, no final, montamos a “Valsa nº 6”, do Nelson Rodrigues, com direção do Cadengue. A Geninha da Rosa Borges [Maria Eugênia Franco de Sá da Rosa Borges, atriz e diretora] comandava o grupo. Fiz bem direitinho. Lembro até que ganhei uma bolsa de estudos pra fazer. Foi o meu primeiro curso sério de teatro antes de entrar para a universidade.

Você estreou na Globo na década de 1990. Como foi sua chegada ao Rio de Janeiro?
Muita coisa aconteceu. Depois de Campina Grande, eu resolvi ir para São Paulo. Passei cinco meses lá e voltei para Recife por causa de um namorado. Não sabia muito bem o que queria. Tinha vontade de ir para os Estados Unidos, ser garçonete de bar, fazer off-Broadway, estudar, aquela coisa toda. Mas fiz o primeiro tele-escola da Globo, em Recife, que foi produzido em Pernambuco e decidi esperar para fazer o segundo, para juntar uma grana e poder viajar para os Estados Unidos, onde também estava o meu pai, fazendo o pós-doutorado. Só que não saiu, a produção do programa ficava adiando e, nesse meio tempo, conheci o pai da minha filha [o cineasta Guel Arraes], que morava no Rio. Começamos a namorar sério e, em vez de ir para os Estados Unidos, acabei vindo para cá, tentar carreira no Rio. Cheguei em 1992.

Muita gente procura o Rio com o sonho de ser ator. Dizem que, no Rio de Janeiro, todo mundo é ator/atriz. Como é possível se destacar?
Não sei... primeiro de tudo, sorte.

Tem a ver com sorte?
Tem a ver com sorte, também. O meu ex-marido é diretor. Trabalhamos juntos, produzi peças com ele. Isso deu uma visibilidade. Então, o que eu tivesse pra mostrar, apareceria ali também. Era bom e era ruim ao mesmo tempo. O cara já era conhecido, então eu ficava como “a mulher do diretor”. A velha história de sempre, que é um saco de ouvir. Mas, com o tempo, cada um prova o que tem a dizer.  

O grande sucesso da sua parceria com Guel foi “O Auto da Compadecida” (2000). Como era a relação profissional de vocês?
A gente teve uma parceria muito bacana. Profissional, de vida, de tudo. Era muito de verdade. E ele é pernambucano também, assim como o pai dele, a família dele. Todos são de lá. Talvez, pra ele, tenha sido importante me ter como um resgate, porque ele foi exilado, passou a vida toda fora de Recife. Morou na França, depois voltou direto pro Rio. Através de mim, ele voltou a ter esse contato com a origem dele. E para mim também foi muito importante. Guel é um grande diretor. É muito bom você admirar, amar e trabalhar ao mesmo tempo. A gente viajou pelo sertão procurando locação para o filme. Eu, ele e Luisa [Arraes, filha do casal] ainda no colo. Nos perdemos, visitamos a fazenda do Ariano Suassuna. Foi uma experiência muito rara de ter. Todo mundo deveria ver o sertão à noite. É muito bonito. O “Auto” foi feito assim, todo mundo junto, a trupe passeando. Andamos pelo interior do Ceará, pela Paraíba... Engraçado como a Rosinha foi uma personagem marcante, mas, como atriz, eu prefiro muito mais o trabalho que fiz em “Lisbela e o Prisioneiro” (2003).

Mas você ainda sente no dia a dia o sucesso da Rosinha?
Sim. Na rua, as pessoas me chamam de Dona Rosinha. Em São Paulo, tem guardador de carro que diz “já vi o filme dezessete vezes!”. O povo se identificou... É muito bonito e a história é muito tocante. Acho que é um clássico.

É um desafio maior adaptar o personagem de um livro? Quanto tempo de ensaio você levou para fazer a Rosinha, por exemplo?
Tem que ensaiar, estudar, entender a gênese do personagem. Quem ela é, de onde vem, como é o desenho dela dentro da trama. O desafio é preencher tudo isso. Se você não preenche, o personagem fica “chapado”. Acho que foram dois meses. O Guel ensaia muito. Ele tem uma coisa que eu nunca vi em outro diretor. A gente recebe o roteiro já com a marca, em vermelho, tudo ‘detalhadinho’.

O pernambucano tem um sotaque muito forte. Isso não foi um problema pra você?
Eu nunca tive um sotaque muito puxado. Desde o começo, fazendo comerciais com o João [Falcão], eu tive essa preocupação. Qualquer sotaque muito carregado fica feio. Pernambucano, paulistano, carioca. E também, eu não tenho biotipo pernambucano. Eu não sou Patrícia França, morena, brejeira. Eu posso ser de qualquer lugar. Tem gente que diz que eu pareço italiana... As pessoas não olham pra mim e dizem, “ela é pernambucana”.

Na versão de “Lisbela e o Prisioneiro” para o teatro, você fez a protagonista. No filme, não. Por que essa mudança?
Eu fiz a Lisbela durante dois anos e meio no teatro. Quando fomos fazer o filme, o Guel achou que tinha que ser outra pessoa. Não sei se era coisa de idade, se foi uma decisão dele e da Paula [Lavigne, produtora do filme].

Você ficou chateada?
Fiquei na dúvida. Ele disse para eu fazer a Inaura, a antagonista. Eu pensei “será que eu faço?”. Ele disse “se não for assim, eu não dirijo”. Chegou a esse ponto. Engoli e, racionalmente, decidi fazer. No fim, foi bom, porque conhecia muito bem o personagem, contracenava com ele na peça. Foi uma jogada maravilhosa fazer a Inaura. As duas são pernambucanas, nordestinas, mas bem diferentes.   

Você prefere fazer teatro, cinema ou televisão?
No teatro, você tem que estar inteiro. Você não mente no palco. As pessoas vão e dizem “ah, esse ator é péssimo, ele fica com a mão dura”. Você vê o corpo inteiro. Se a tua voz não projeta, não chega na primeira fila e na última; você não tem como enganar. Ou é um bom ator, ou não é. Em televisão, todo mundo é mais ou menos a mesma coisa. Ninguém é muito ruim ou muito bom. A não ser que seja muito ruim mesmo... No cinema, é a câmera na tua cara, muita intimidade, tudo muito pequeno. Onde eu mais me sinto à vontade é no cinema e no teatro. Com a televisão, até hoje ainda não tenho um relacionamento muito amigável [risos]. Mas gosto de fazer, me divirto.

Você é uma mulher bonita, mas uma atriz precisa ter desprendimento. De repente, você faz um papel em que aparece sem maquiagem ou mais velha. É tranquilo ser mulher vaidosa e atriz?
Depende do papel, do veículo. Não importa se é mais velha, se é mais nova, se é feia ou bonita. O personagem precisa ter verticalidade. Você precisa cavar, tirar coisas boas dali e mostrar o que você pode fazer com aquele trabalho. Se não for assim, pra que eu vou fazer? Na televisão, você faz o mesmo personagem a vida inteira. Só dá pra fazer coisas diferentes no teatro e no cinema.

Falando em cinema, você tá produzindo um filme...
Sim, se chama “O outro lado do vento”. Vamos começar a filmar em setembro, com direção do Walter Lima Junior. É uma adaptação do livro de Henry James, “A outra volta do parafuso” (1898). Um clássico de horror, um suspense psicológico. O livro se passa no interior da Inglaterra e adaptamos para o interior de Pernambuco. Com todas as histórias que tem lá de assombração, Pernambuco é um cenário perfeito, porque tem muito dessas narrativas por lá. Gilberto Freyre publicou um livro, “Assombrações do Recife Velho” (1955), que fala disso: das casas de engenho que rangem com os escravos mortos. O roteiro é do Walter, com Adriana Falcão e dois colaboradores, Guilherme Vasconcelos e Nelson Caldas. Um orçamento de 4 milhões e 200 mil reais.

Você vai protagonizar?
Sim. Faço uma professora que vai educar duas crianças órfãs num engenho abandonado, no início do século passado. É uma história bem bacana. “Os outros”, filme com a Nicole Kidman, é baseado no mesmo livro. O Walter vai arrebentar, ele é muito bom diretor de atmosfera. Esse é o projeto da minha vida. Não quero ficar fazendo televisão a vida inteira, sempre fui muito mais ambiciosa artisticamente.

Que ambição é essa?
Produzir teatro e fazer cinema. Agora estou trabalhando com Antunes Filho, em São Paulo. Minha ambição é fazer trabalhos que me exijam mais do que eu possa dar. Por causa do personagem, você envereda em você mesmo e sai em outro lugar, melhor.


Cinema
1988 – Batom
1989 – Kuarup
1993 – Soneto do Desmantelo Blues
1996 – Corisco e Dadá
2000 – O Auto da Compadecida
2003 – Lisbela e o Prisioneiro

 

 
 

Tv
1998 - Labirinto / Dona Flor e Seus Dois Maridos
1999 -  Andando nas Nuvens / O Auto da Compadecida
2000 -  O Cravo e a Rosa
2001 - As Filhas da Mãe
2004 - Da Cor do Pecado / A Grande Família / Começar de Novo
2005 - Carga Pesada / Mandrake
2006 - Avassaladoras
2008 - Ó Paí Ó / Casos e Acasos
2009 - Caminho das Índias
2010 - Malhação ID / A Grande Família
2011 - Malhação Conectados / Homens de Bem
 

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