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O jardim de Tulipa

Houve um momento em que a música pop brasileira se perdeu. Rompeu muitas barreiras e correu atrás de tanto prestígio e dinheiro que acabou criando subprodutos cada vez mais repetitivos e com fórmulas esgotadas. Como toda a categoria musical, porém, se reinventa e floresce com uma bela novidade, no jardim da música pop nasceu uma Tulipa.

No coração da grande metrópole das novidades, em que tendências e propostas musicais se perdem dentro de tanto conceito, a simplicidade, a leveza e o pop bem dosado da cantora paulistana Tulipa Ruiz conquistaram o Brasil em um curto espaço de tempo, fazendo dela a grande promessa pop dos últimos anos. Na TV, rádios, blogs, revistas especializadas, iPods e MP3 players de cada canto do Brasil a voz doce da cantora santista emanou a poesia cantada de seu disco de estreia, “Efêmera”, produzido por Gustavo Ruiz, seu irmão, e com composições e parcerias de outro integrante da banda, seu pai, Luiz Chagas.

Tulipa chegou com sua família. Luiz era guitarrista da banda Isca de Polícia, a banda de Itamar Assumpção, e foi um dos grandes responsáveis pela educação musical da cantora, como ela revela nesta entrevista exclusiva à Revista Leal Moreira durante sua passagem por Belém, no projeto “Se Rasgum Apresenta”, durante o Círio de Nazaré.

Um show chamado “Novos Paulistas” uniu Tulipa a outros novos nomes consagrados do cenário musical da capital paulista, como Thiago Petit, Tiê, Dudu Tsuda e Tatá Aeroplano (os dois últimos da banda Cérebro Eletrônico), para um show especial no Sesc Vila Mariana. Foi junto a outro nome dessa turma, contudo, que ela começou a se aventurar e investir em sua carreira musical.

Simpatia e sutileza
Marcelo Jeneci, que também vem colhendo belos frutos de seu trabalho de estreia, o disco “Feito pra acabar”, surgiu no mesmo estúdio e cercado dos mesmos amigos, tanto que Jeneci e Tulipa fizeram diversos shows juntos e têm músicas compostas em parceria. Gustavo Ruiz, guitarrista de Tulipa, foi quem produziu os primeiros trabalhos dos dois artistas.

Com mais de dez mil cópias vendidas apenas no circuito independente de shows, a cantora, seu irmão e o pai preparam o novo disco, que será lançado ano que vem. Enquanto isso, Tulipa aproveita e faz shows arrebatadores, cheios de simpatia e sutilezas, contagiando com seu carisma e uma sensualidade ímpar em cima do palco. Em pouco mais de um ano ela já coleciona coisas como Rock in Rio, Jô Soares, os maiores festivais independentes do país, apresentações internacionais, jogo de videogame e até prêmio de melhor cantora pelo canal de TV fechado Multishow.

A leveza de Tulipa se reflete no que ela canta, em temas leves, cotidianos e em canções cheias de arranjos simples e bonitos. Canções que falam sobre passarinhos, bordados, tardes de domingo e sessões de cinema. Canções de amor que não falam de amor e sobre as rotinas de um músico por São Paulo. Temas simples em canções doces, mas que não soam bobas e encantam pela verdade. É sobre isso que a cantora revela novidades, inspirações, preferências, comparações e sobre a arte de ser simples.
 
Mesmo vindo de um berço musical você optou por outro começo de carreira, como jornalista. O lance de artista frustrado virar jornalista foi exatamente o oposto com você?
Acho que não, porque sou filha de jornalista-guitarrista. Na minha cabeça meu pai sempre “escreveu e tocou”, nunca separei muito as duas funções. Sempre gostei de escrever, desenhar e cantar. Gosto de exercitar cada uma dessas coisas. Não optei por começar como jornalista, aconteceu, assim como a música.
 
Suas primeiras experiências musicais sempre foram entre família?
Cresci ouvindo os discos do meu pai, vendo minha mãe cantar e meu irmão descobrir o violão. A experiência com a música sempre foi estimulada dentro de casa e fazia parte do nosso cotidiano. Acordar, escovar os dentes, ferver água, colocar um disco, tomar café. Achava estranho um lugar sem violão. Comecei a cantar em casa, com o meu irmão, Gustavo Ruiz, e até hoje a gente faz música junto.


 
 

Li em alguma matéria uma comparação sua como uma mistura de Gal Costa com Björk. O que acha dessa observação?
Achei divertido. Mesmo se não fosse eu ficaria curiosa em saber quem era a cantora que é “mistura de Gal com Björk”. Que combinação maluca e interessante, né? Entendo e não me assusto com a necessidade que as pessoas têm em fazer comparações, é natural. É uma necessidade de decupar o outro para poder entendê-lo. Só que às vezes as comparações viram cruzamentos gozados, como esse. E eu só me divirto.

Quais os cinco discos que você definiria como os mais influentes para a decisão de se tornar uma cantora?
Podem ser seis? “Court and Spark”, da Joni Mitchell, “Rumo aos Antigos”, do Grupo Rumo, “Wild Life”, do Wings, “Cantar”, da Gal, “Feminina”, da Joyce e “O que vier eu traço”, da Baby Consuelo.
 
O segredo é ser leve e sincera?
Acho que o segredo é curtir, no sentido de degustar, de estar muito presente no que está sendo cantado, tocado e falado. E compartilhar isso tudo com quem está vendo.
 
Em que categoria musical você se encaixaria? Novos Paulistas?
Não, Novos Paulistas nem é uma categoria musical, é apenas o nome de um show que aconteceu duas vezes em São Paulo. Prefiro chamar de “Música Popular feita no Brasil de agora”. Às vezes chamo de Pop Florestal, mas é mais uma brincadeira exatamente sobre essa necessidade de catalogar uma música. Quando a gente sai do Brasil, vira World Music. Aqui chamam de pop, rock, MPB, indie. Esses dias disseram que sou samba-rock. Achei estranho, mas depois entendi que gênero musical de um artista é uma coisa absolutamente mutante.
 
Você passou poucas horas em Belém, mas viveu uma experiência que, aos olhos do público, pareceu verdadeiramente intensa. Existem lugares em que se sente um astral diferente ou sua música e a simpatia proporcionam isso?
Sim, existem lugares em que você sente o astral diferente. Tem lugares mais quentes, outros nem tanto. Em Belém as pessoas estavam com vontade de desfrutar o show. Foi um público muito intenso e generoso. Cantaram todas as músicas. Isso aquece o show, energiza. É uma troca, né?
 
Como tem sido a experiência no exterior?
Tem sido ótima! O disco foi lançado na Europa e na Argentina e a música “Efêmera” saiu no game Fifa 11, o que ajudou bastante a não ficarmos limitados aos termos “MPB” ou “World Music”. Passamos por Paris, Lisboa, Itália, Londres, Washington, Nova York e Buenos Aires. Em alguns lugares as pessoas cantam as músicas, como em Paris e Buenos Aires. Já em Lisboa o público é atento, porque a língua nos aproxima demais. As entrevistas sempre são fluidas, com perguntas interessantes. Em Londres a gente ganhou uma crítica superpositiva do “The Guardian”. Então aos poucos tenho conseguido viajar com a banda para lugares novos e temos sido bem recebidos. É tão legal sair do Brasil com música e ver a recepção das pessoas.
 
O primeiro disco, “Efêmera”, é uma coleção de hits, que nasceu de um momento muito espontâneo do surgimento de sua carreira, junto com o cantor e compositor Marcelo Jeneci. Você teme uma certa pressão para que o segundo álbum soe tão natural quanto o primeiro?
Quando fui gravar a música “Efêmera”, chamei a Céu para fazer coro, ao lado da Anelis Assumpção e da Thalma de Freitas. A Céu chegou primeiro e começamos a conversar sobre a grande maratona que é fazer um disco. No final ela me disse: “No segundo disco você vai se divertir muito mais!” Isso ficou na minha cabeça de um jeito bom. Estou cheia de vontade de gravar coisas frescas, que eu já inventei ou ainda vou inventar. Claro que as pessoas têm expectativa sobre o meu próximo trabalho, mas isso não me pressiona, posso dizer até que me estimula. E que venha o próximo disco!
 
Se pudesse ser bem-sucedida em outra profissão na vida, seria o quê?
Cientista. Queria ter um laboratório para ficar manipulando elementos coloridos dentro de tubos de ensaios, descobrindo curas para milhares de coisas.

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