"Amor, tô no Recife e só volto no sábado”, “Eita, amor, tava em São Paulo”, “Leila, querida, essas minhas viagens malucas me tiram do sério, mas agora ficarei mais pelo Rio. Vamos nos encontrar na quinta em algum botequim da sua preferência?”. E assim foi feito. Em uma tarde de primavera carioca, o escritor e jornalista Xico Sá já estava à minha espera para realizarmos esta entrevista. Tranquilo e muito à vontade em um bar da Avenida Atlântica. Tão afetuoso quanto demonstra em suas mensagens digitais, o cearense nascido no Crato distribui gentileza entre os garçons e frequentadores do tradicional bar de Copacabana, bairro que escolheu para viver por tempo indeterminado.
Conheci Xico na pré-estreia da peça “Big Jato”, baseada em seu mais recente romance, já cotado para virar filme sob a direção do pernambucano Claudio Assis, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2014. O romance “Big Jato”, que concorre ao prêmio “São Paulo de Literatura”, como melhor livro do ano, narra a saga de um personagem sem nome, que habita o Vale do Cariri e a partir dali, constrói sua trajetória brejeira e dramática pelo sertão brasileiro, baseado na rica memória afetiva do autor, famoso por sua escrita passional.
Para quem não conhece o Xico Sá, escritor de “Chabadabadá – Aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha”, “Modos de macho & modinhas de fêmea” entre tantos outros livros, talvez o identifique da bancada de jurados do programa de televisão “Amor & Sexo”, onde encanta com suas tiradas inteligentes, bem humoradas e galanteadoras. Um “Bukowski do Agreste”, que também se desdobra entre as versões de colunista da Folha de São Paulo e de comentarista esportivo de programas televisivos.
Se ainda assim não for possível ligar o nome à pessoa, Xico Sá ganhou o prêmio Esso de jornalismo pela reportagem que fez ao descobrir o paradeiro do então foragido PC Farias, na década de noventa.
E haja destino para tanta estrada!
Atualmente, o menino cearense Xico decidiu passar uma temporada no Rio de Janeiro depois de muitos anos entre São Paulo e Recife, e assim como o rio São Francisco, vulgo “Velho Chico”, o jovem Xico desaguou no Atlântico e veio bater no ‘mei’ do mar.
Xico, depois de 20 anos em São Paulo, por que essa mudança para o Rio de Janeiro?
Eu tenho essa coisa cigana, de rodar pelo mundo. Até pra nascer foi numa viagem. Eu morava em Santana do Cariri, na roça, e minha mãe estava por acaso numa feira com as amigas no Crato (CE), onde eu nasci. Depois morei em Nova Olinda, Juazeiro, Serra Talhada, Salgueiro, Recife, Olinda, Brasília, São Paulo. Depois vivi no Rio. Quando fui casado, voltei pra São Paulo e agora decidi mudar pro Rio, mas me sinto muito à vontade em qualquer canto.
E como você administra tantas funções, já que escreve para a Folha de São Paulo, além de trabalhar na divulgação dos seus livros e estar cada vez mais inserido na televisão?
Eu posso trabalhar em qualquer lugar, quando se trata de produção literária. Além de escrever, trabalho uma vez por semana na redação do Sport TV e no Amor & Sexo, na Globo. Na verdade a primeira mudança pro Rio foi por amor. Desta vez foi pra arejar a mente, caminhar na praia, adoro andar do Leme até o Forte de Copacabana.

E você veio do jornalismo, certo?
Sim, eu era um jornalista sério, de terno e gravata (risos). Desde adolescente eu tinha um sonho de ser escritor e não jornalista, mas quando cheguei no Recife, vi que a coisa era diferente: o único que vivia como escritor era Jorge Amado. Nem Veríssimo ou João Ubaldo sobreviviam da escrita na época. E como o jornalismo geralmente é o lugar onde os escritores vão buscar o seu sustento, eu acabei virando um jornalista muito sério. Formei-me em 1984, mas já trabalhava nos jornais locais, como o “Diário do Comércio”, entre outros.
Inclusive você descobriu o paradeiro do PC Farias. Como foi isso?
Eu trabalhava na Folha de São Paulo e tinha essa pegada investigativa. Então, enquanto eu atuava na cobertura do escândalo Collor, acabei dando uma sorte e consegui uma entrevista com ele, sozinho, exclusiva, e acabei ganhando a sua confiança, de modo que fiquei responsável por acompanhá-lo, ficar na sua cola. Até que chegou o tempo em que ele desaparece, quando a coisa começou a apertar, e após quatro meses descobri o seu paradeiro com fontes próximas, por conhecer todo o entorno dele. Descobri que ele estava em Londres, corri pra lá; ele então fugiu pra Tailândia, mas em Bangkok é que eu faço a matéria já com a prisão dele.
Tudo isso como repórter da Folha de São Paulo?
Sim, já estou na folha há 18 anos. Hoje como cronista e não mais repórter.
Então, finalmente, pôde virar escritor?
Isso. Hoje tenho 15 livros publicados, alguns de iniciativa minha ou a convite da editora, como o “Divina Comédia da Fama”, uma crônica jornalística sobre o universo das celebridades, numa época em que não tinha essa indústria azeitada de assessoria. Antes do universo da internet, o que hoje mais contribui para “celebrar” uma pessoa, tudo com uma visão bem humorada...
Que é o seu estilo literário... o bom humor, mais ácido e ao mesmo tempo doce. Com pitadas de Luiz Gonzaga e Platão, numa combinação improvável, mas que funciona muito bem. No entanto, “Big Jato” vem numa nova pegada, mais dramática, com adaptação para o teatro (a peça estreou no Rio de Janeiro no último dia 15 de novembro). O que você achou de ver seu livro retratado nos palcos teatrais pela primeira vez?
Achei estranho. Gostei muito, mas na pré-estreia fiquei espantado em ouvir minha frase num outro sentido. Já da segunda vez, absorvi melhor.
Inclusive “Big Jato” vai virar filme, e dirigido pelo consagrado diretor pernambucano Claudio Assis, certo?
Correto, já está em andamento e vai começar a ser filmado em março de 2014.
Mas no cinema você já tinha a experiência do filme “Febre do Rato”, vencedor na categoria de melhor roteiro, no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.
É, “Febre do Rato” surgiu de um argumento meu, que foi trabalhado coletivamente por um grupo de poetas do qual eu fazia parte no Recife; um coletivo maluco e dali saiu o argumento do filme. Uma coisa meio maluca que já fiz em outros filmes também – coisa de amigo que acha que por conta da afinidade com o tema pode colaborar com algo, como foi o caso de “Deserto Feliz”, do Marcelo Gomes e Paulo Caldas, por conhecer muito a região do Rio São Francisco, entrei no projeto pra fazer diálogos, o domínio da prosódia da região.
E no caso do “Big Jato” havia uma pretensão de levar seu romance ao cinema?
O Cláudio [Assis, diretor] já tinha proposto, mas fui resistente, por um zelo maluco com o livro, mas ele sacou o livro e vai fazer o filme de forma mais parecida com o livro. Acho que está em boas mãos. Mas no cinema, tudo surgiu por circunstâncias de amizade, desde o roteiro, até participações, como a proposta numa mesa de bar pra que eu fizesse o papel de mim mesmo em “Cheiro do Ralo”, com o Selton Melo. Ali meio boêmio bebendo numa mesa de bar (risos). Nada é profissional.

Acabou que o escritor Xico Sá virou uma espécie de personagem. Eu mesma tinha esse desejo de sentar numa mesa de bar com você, após acompanhar teus livros e crônicas...
Certamente (risos). A forma como eu me coloco nas crônicas, o poeta, o boêmio, apaixonado, tem sim um personagem que às vezes me irrita, mas que na maioria das vezes eu deixo solto e relaxo. Tem tom de Bukowski, quando escrevo algo mais erótico, ou Nelson Rodrigues quando escrevo as crônicas de futebol. Cada faceta minha é rotulada de uma forma.
E como você define o seu trabalho?
Eu sou um vagabundo. Um cronista mundano que normalmente não é tratado na literatura. Com uma temática mais rasteira, mais boêmia, mais vira-lata, com personagens do cotidiano. Não me preocupo em ser solene com a literatura... essa falta de solenidade – sem a aura da academia brasileira de letras – cativa, pois o que afasta muitos leitores, considerando a derrota do nosso sistema de educação, é a própria solenidade do escritor.
E não tem como não cativar o leitor com trechos como “Ora, o máximo a que Dioclécio se permite, e olhe lá, é um leite de colônia – nem Minâncora passava nas espinhas, na juventude, com medo de comprometer a macheza toda. Tão macho, mas tão macho que usa dois sabonetes no banho: um para a parte da frente e outro para o latifúndio dorsal”. Como não simpatizar com o personagem Dioclécio (risos)?
Sim, quem não conhece um Dioclécio na vida real? (risos).
E no meio dessa simplicidade toda, você também costuma inserir citações importantes nas suas crônicas...
Eu sempre jogo com isso. Antes temia soar arrogante, mas muita gente me escrevia agradecendo alguma citação que o levaria a descobrir outro grande autor, então cito de Waldick Soriano até John Fante, Shakespeare... se falam de amor, não vejo diferença entre eles, como não vejo diferença entre a bossa nova ou o brega.
Em que fonte o Xico Sá bebeu?
Inicialmente a música romântica, hoje chamada de brega, de Pinduca, Raimundo Salgado, Waldick Soriano, Eliane Pitman... os boleros cubanos, o próprio Roberto Carlos, Nelson Gonçalves. Depois veio a leitura de Paulo Mendes Campos, Antonio Maria, Otto Lara Resende, Nelson Rodrigues...
E você também trabalhou com música?
Sim, fiz algumas letras junto com os meninos do Mangue Beat, Chico Science, Mundo Livre, Otto... fiz uma espécie de assessoria com eles, pois além deles ficarem “lá em casa” e me fazerem perder todas as namoradas com aqueles 20 homens dentro de casa (risos), eu fazia muito texto e release de discos, contato com a imprensa... eu era o embaixador do mangue. Atualmente faço todos os textos dos discos do Otto, por conhecer tudo o que compôs aquele disco, incluindo a convivência, noites chorando um no ombro do outro, vivendo o luto dos finais de amor.
Uma espécie de Cooperativa Pernambucana.
Uma parceria de quem vem de fora e se encontra na cidade grande. O que acontece também com os músicos do Pará, a exemplo do Felipe Cordeiro que é amado por essa rapaziada.
E sobre os prêmios que você já ganhou? O “Big Jato” é finalista do Grande Prêmio São Paulo de Literatura, certo?
Já ganhei alguns como o prêmio Esso, Folha... prêmios que vão abrindo as portas.
E sua carreira na televisão?
Tudo o que eu faço na TV, vem da minha escrita, por escrever sobre o comportamento homem e mulher, eu participei do “Saia Justa” (GNT), por escrever sobre futebol eu fiz o cartão verde (TV cultura), e hoje participo do Sport TV; por falar de amor, estou no programa “Amor & Sexo” (globo), enfim, é sempre o cronista indo pra televisão defender o que já escreve.
E o que é o amor pra você nos dias de hoje?
Eu me preocupo com esse medo exagerado do amor, do vínculo, o cara mal dorme na casa da menina e teme deixar uma camiseta. Todos devem ter sua vida, tudo bem, mas esse medo do vínculo atrapalha. Uma ligação já assusta o cara, calma camarada, ela não quer casar com você! Insisto nessa pedagogia para os moços de hoje, num tom irônico, professoral, para chamar atenção para esse medo exagerado, uma assepsia maluca.
E vem uma revolução masculina por aí?
Acho que nem terminou a das mulheres. Há uma incompreensão muito grande do que as grandes feministas queriam. A própria gentileza, código do cavalheirismo mínimo, acaba soando como submissão, o que é quase como criminalizar minha gentileza. Ofereço-me para pagar o jantar e a menina já se ofende. Acho que tem muita ideia desencontrada nessas posições do masculino e feminino nos dias de hoje.
O que acaba aprisionando muitas mulheres nessa inversão de papéis, sobretudo na questão da estética. Lembro de uma crônica sua na qual você protesta pelo “destravecamento da mulher” valorizando a “mulher comfort”.
O que gera uma escravidão sem fim. Nisso a mulher europeia sai em vantagem. Vai à praia de topless do jeito que tiver; é o corpo dela, o que ela tem naquele momento. A mulher pode ser gostosa dentro e fora do padrão. A grande safadeza, o grande erotismo não está condicionado ao corpo dito “perfeito”. Eu tenho muito mais tesão no processo do encontro, no que se conversa, da atmosfera da noite...depois até olho pro corpo (risos). Isso é uma herança triste para os mais jovens que vão condicionar os relacionamentos futuros. O feitiço é outro. E não estou negando o tesão, a atração imediata pelo corpo – acho ruim ser só isso. Uma loucura paranoica.
“Deixai as rugas residirem sem pagar o aluguel da vaidade em vossos rostos”, como você escreveu outro dia numa das suas crônicas no site da Folha.
É por aí.
Outra que gosto bastante é a que você condena a despedida com a frase “a gente se vê”, alegando ser melhor dizer logo que vai comprar cigarro (risos).
Quando eu escrevi essa crônica, com base na queixa de uma amiga que vem no meu consultório sentimental informal (risos), eu refleti sobre a crueldade dessa frase, a covardia máxima, de uma frouxidão imensa. Melhor o cara desaparecer à moda antiga: vai comprar cigarro, o “kingsize sem filtro do abandono”!
O homem então se assusta com essa nova mulher destemida, a ponto de dizer “a gente se vê” e sumir?
Um equívoco atual que ainda sobrevive é a ideia inconsciente de que existe mulher pra casar e pra se divertir. O homem conservador ainda tem isso vivo no seu imaginário. Por isso que essa mulher que se declara livre ainda espanta. A ideia do “chifre” ainda é muito violenta (risos). Meu amigo, vá escutar um brega, curar esse chifre com uma cachaça, ouvindo Alípio Martins com sua cabeça enfeitada (risos).
Um escritor apaixonado como você, no auge dos 50 anos, e com tanta história de amor vivida e testemunhada, deixaria qual conselho para o novo cabra-macho?
No modo geral somos muito acomodados. Um dado de boteco que eu observo é que o homem fica feliz com a consagração da repetição das coisas. O garçom chega e pergunta “o de sempre, doutor?” e o homem abre um sorriso. Tudo o que a mulher quer é ser levada num restaurante japonês diferente. A dramaturgia amorosa vem dessa diferença entre homens e mulheres, e dentro disso vem o amor, do contrário, se a mulher funcionasse com a mesma leveza masculina não haveria amor, e sim um churrasco, uma pelada.
E como “ombudsman das moças”, o que o Xico Sá recomenda?
A mulher precisa intimar o homem ao amor, e acho incrível que a mulher seja radical nesse sentido, pois nos chama para o vínculo. A chatice feminina é fundamental!
Nossa, Xico, você me libertou! (risos) E já tem algum amor carioca?
Estou com alguns ensaios, ainda não vingou como um grande amor. Adoro acordar com uma invenção amorosa na cabeça. E tem que ter disposição, nada de preguiça! Se não der certo, o homem deve cumprir todos os rituais da lama, ligar de madrugada, ser maltratado, mas se curar. “E se a vida dói, drinque caubói”.
