
Cabe muita coisa dentro do que Juliana Sinimbú representa. Cabem os fortes laços familiares, que desenharam boa parte do rumo que ela seguiu. Cabe a coragem de deixar para trás os planos mais confortáveis e seguir sorrindo ao desconhecido. Cabe o palco e os amigos que a conduziram até ele. Cabe a educação musical construída dentro de casa – sobretudo os conselhos e determinações dos pais sobre como ouvir e respeitar as canções. Canções, aliás, cabem várias, de maneiras diferentes. Nela, estão aquelas músicas que foram descobertas graças à vontade de aprender cada vez mais; assim como também figuram as que a própria vida colocou dentro dela. Sim – ela se descobriu uma compositora e tanto. E das mais honestas: a inspiração para tantas melodias é fruto dos sentimentos que também a habitam. Tudo cabe. Cabem inclusive seu marido e Flora, sua filha de um ano – a obra da qual a artista mais se orgulha por ter feito.
Fosse só caber, já estava tudo certo. Mas é bem mais que isso. Dentro da cantora, tudo convive. Dialoga. Por si só, ela se completa e se extrapola. Desde sua tendência ao drama, valorizada por seus boleros cheios de um ar confessional, até o riso solto e o jeito falante. É impressionante como o muito que é Juliana faz sentido quando visto assim, em conjunto. É na soma de todo o mundo que há em si que ela se revela. Única – ou UNA, como atesta o título de seu disco, recém-lançado e festejadíssimo. Foi na infância que a compositora ouviu do pai que os vinis precisavam ser apreciados do início ao fim. Mal sabia que o ensinamento era uma premonição e tanto: Juliana Sinimbú é um disco, uma coletânea – e como tal, só pode ser compreendido se ouvido por inteiro.
A sua família tem uma relação muito forte com a música. Como isso influenciou os seus caminhos?
A minha família é dividida assim: a parte Sinimbú é toda daqui do Pará; e a família Oliveira – que é a por parte de mãe – é toda paraibana e do Rio Grande do Sul. Acho que só de ter o sangue nordestino, a gente já gosta dos tambores e dos sons de lá. Os costumes amarram muito a gente àquela sonoridade. Aqui, a família do meu pai é toda musical. Todos são músicos empíricos, que aprenderam sozinhos. Meu pai morou na mesma casa que o Pinduca, na infância e na adolescência; então, o Pinduca é como se fosse meu tio. Minhas tias cantam, e todos os amigos de Igarapé-Miri também. Acabou que eu sempre fui acostumada a estar no meio das rodas de seresta, a ver meus tios todos cantando e tocando... Eu era a mais tímida, e fui uma das poucas que seguiu a carreira.

E a influência direta dos seus pais?
Eles eram bons ouvintes. Implementaram na nossa educação – minha e do meu irmão mais velho – que a gente tinha que escutar discos inteiros. Se a gente não escutasse daquele vinil o lado A e o lado B, a gente não conseguiria compreender a obra nem conversar sobre ela. E a nossa rotina era sempre voltada pra música. Éramos deixados no colégio ao som do Roberto Carlos – e tínhamos que ir prestando atenção nas canções. Após o almoço, a gente fazia a sesta escutando um disco. Na hora de votar no que seria ouvido em uma viagem de carro, meu pai e minha mãe tinham peso duplo. Era sempre a fita do papai, depois a da mamãe, e – se desse tempo – tocava um pouquinho da nossa. De início, nós não gostávamos... Mas foi importantíssimo pra nossa formação. Meu irmão é dentista, mas toca cavaquinho tão bem que tocou com a Velha Guarda da Mangueira a convite deles. Todo mundo é mesmo agarrado com música. Eu que chutei mesmo o balde, e preferi ser feliz que me apegar à razão, ter aquele diploma.
Você demorou a se assumir cantora. Por quê?
Por conta dessa necessidade da vida moderna mesmo, de estabilidade. Eu sempre fui meio ovelha negra, aquela que só estudava o que queria... E eu sou de uma família “normal” (risos), não venho propriamente de um clã de artistas. Tem muitos envolvidos com música, mas que possuem carreiras mais convencionais. Não tinha ninguém que tivesse optado por ser um profissional, pra que eu pudesse ver como é a vida de quem provê um projeto cultural, de quem segue com ele. Só agora eu pude fazer isso, com meu disco.
E qual foi o momento em que essa decisão aconteceu?
Teve um dia em que eu já não aguentava mais a faculdade de Arquitetura. Escolhi o curso pela relação com a arte, mas acabei me identificando muito pouco, e isso me frustrou. Em paralelo a isso, a música continuava me chamando. Havia umas reuniões que aconteciam na varanda de casa; nelas, eu ia conhecendo os músicos. Conheci lá o Vital Lima, o Salomão Habib, várias pessoas de quem eu era fã e com quem eu acabava me deparando. Foi ótimo, porque eu já andava bem interessada (risos). Numa dessas rodas, alguém puxou uma música do Tom Jobim em parceria com o Aloísio de Oliveira que só eu sabia cantar. Fui me arredando, arredando (risos)... Cantei. O Salomão gostou e me convidou para fazer a abertura de um projeto dele. Conversei com a minha mãe e pedi a ajuda dela. Foi um grande susto pros meus pais, que achavam que eu seria uma superarquiteta. Que nada. Hoje eu sou muito feliz, e eles são bem felizes comigo também.

Você começou cantando samba e bossa nova. Foi surpreendente quando você apareceu tão próxima dos ritmos latinos. Como foi essa transição?
Quando comecei a cantar, precisei partir do repertório que eu tinha dentro da minha memória – que era o caso do samba e da bossa, que eu adoro, e que já trazia por causa dos meus pais. A partir daí, comecei a estudar, pesquisar artistas que eu achava que precisava ouvir, independente de gostar. Fui conhecer Rita Lee, Novos Baianos, a Vanguarda Paulista, Itamar Assumpção... Fiquei fascinada com tudo que ainda tinha pra ouvir e cantar. Comecei a procurar outras pessoas para tocar, e foi aí que conheci o Renato Torres. Foi um encontro perfeito. Hoje, ele é um irmão muito amado. O Felipe Cordeiro também me ajudou bastante. No início da carreira, fazíamos umas noites no Café Imaginário. Foi quando eu cantei pros maiores artistas da cidade, e sempre uns repertórios muito malucos. Agora, a relação com a música latina... Primeiro, foi graças ao tempo que eu convivi com o Pinduca. Também já tinha o vínculo com o bolero, que é o estilo com o qual eu flerto mais. Eu amo boleros. Tô numa fase de composição que me leva muito por esse caminho. Parece que eu sou teletransportada para as serestas, com meu pai e meus tios. Eu só faço refinar e dar a minha cara pra eles.
Compor influenciou de alguma maneira seu jeito de cantar?
Influenciou bastante. Compor é cantar o que você tem pra dizer. É legal demais. As minhas músicas soam todas autobiográficas. Tem até uma história ótima da minha médica. Ela me ligou pra contar que tinha visto o clipe de Arrocha [faixa do disco Una], que tinha adorado, mas que ela e o marido estavam preocupados comigo. Eu perguntei por que motivo, e ela disse “porque você passou por uma decepção amorosa muito grande, e isso pode influenciar a sua questão hormonal” (risos). E o pior é que tudo aconteceu com essa música. Eu fiz e esqueci depois. Saí ligando pros amigos: “eu cantei ela pra vocês!”; aí o Arthur Espíndola disse “eu gravei!” (risos). Uma loucura. Transformar tudo em música é uma maravilha. E quando a gente vê alguém cantando nossas músicas? Mana, são mil desmaios (risos). Outro dia, um amigo me mandou um vídeo de uma festa em Bragança, em que o DJ colocou o clipe de Arrocha na TV, direto do YouTube. Aparecem as pessoas dançando e cantando a minha música. Gente, chorei! É a hora em que se vê que tudo valeu.
E a maternidade? Como está a vida quase um ano depois da chegada da Flora?
A Flora é demais. É como se ela fosse um botão na minha vida, que foi apertado e tudo mudou. Desde o momento que eu soube que estava grávida, é como se algo tivesse me dizendo “deixe de ser metida à besta, que agora você vai cuidar de outra pessoa”. Pra mim foi o máximo. Quando eu vi que ela parecia comigo... Nossa, que legal. Ela é fantástica, é feliz, é um amor louco. Eu fico repetindo “é minha filha”. É muito bom dizer isso. Ela foi um presente, seja de Deus, dos deuses, do destino ou de qualquer coincidência da vida. E ela foi um pé de coelho, porque depois dela tudo deu muito certo: eu consegui fazer meu disco, minha carreira se ajeitou da melhor maneira, eu consegui resolver o que eu queria fazer. E o pai dela é incrível. Eu não consigo nem dizer o nível da nossa parceria. Ele organizou minha vida, junto com a Flora.
Como foi a produção do Una?
Não foi tão fácil. Quando eu estava no sexto mês de gravidez, soube que tinha sido contemplada pelo Natura Musical, e que eu tinha um prazo a cumprir. No sétimo mês, entrei em estúdio pra fazer a pré-produção. Quando a Flora tinha um mês, entrei em estúdio de novo; quando tinha dois, precisei viajar pra gravar. O disco ficou pronto antes de ela fazer um ano. Mesmo assim, tudo foi muito bom. O Donatinho, produtor do disco, teve um papel fundamental. A princípio, eu só gravaria duas músicas minhas. Ele fez com que eu gravasse sete. Agregou muita gente que acreditou no trabalho, como o Otto – que hoje é uma figura queridaça, com quem eu adoro compor –; o Kassin, que também participou; os cordistas da Orquestra Municipal do Rio de Janeiro tocaram numa música minha, e eu fiquei muito emocionada... O João Donato, meu ídolo da vida, gravou comigo – e eu devo participar de um trabalho dele também. Quando o velhinho chegou, eu pensei “me segura” (risos). E o Donatinho, que tomou o projeto pra ele, vestiu a camisa. O CD é tão dele quanto meu.
Você se envolveu muito no processo?
Muito. Artisticamente, eu e ele cuidamos de tudo. E executivamente, meu marido tomou a frente, junto com a Carla Cabral. Eles me deram muita liberdade pra criar. Nós já aprovamos a circulação, e temos coisas pré-agendadas: Rio, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba... Vamos dar umas voltinhas. Estamos arrumando as malas.
O que ainda falta acontecer pra você?
Menina... Emagrecer mais uns cinco quilos, aí eu tô bem (risos). Mentira. Não falta nada.
