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Olhar de reflexos
Em "Nazaré de Mocajuba", o artista colocou os personagens - pescadores de uma vila em Curuça - sobre objetos que eles mesmos usam no cotidiano

Primeiro, a imagem imponente da casa, um raro exemplar da arquitetura moderna brasileira no centro de Belém. Em seguida, do lado de dentro, um lance de escadas, até uma antessala cujas paredes abrigam trabalhos de artes plásticas. Mais adiante, no escritório, estantes enfileiram dicionários e títulos de fotografia, estética, antropologia. Elementos que, não por acaso, ambientam e elucidam o universo de um andarilho chamado Alexandre Sequeira.

Formado em arquitetura durante a década de 1980, na mesma turma que revelou nomes como Luiz Braga e Emanuel Nassar, ele aposta em uma produção cuja base é o encontro com o outro. “O meu trabalho reúne”, sentencia. O paraense, que também estudou publicidade e design, faz uso, especialmente, da fotografia, de maneira a torná-la um “vetor de interação” entre pessoas e formas distintas de produção artística. Ele diz crer, sobretudo, na imagem como “um instrumento de aproximação”.

Esse aspecto é notável em trabalhos como “Nazaré do Mocajuba” (2004/ 05), com nome emprestado de uma pequena vila de pescadores localizada no município de Curuçá, no nordeste do Pará. In loco, Alexandre explorou fotografia e serigrafia, a fim de reproduzir a figura dos moradores do local em objetos pessoais, como lençóis, cortinas e mosquiteiros. Ele conheceu o lugarejo por intermédio de um amigo e se interessou em voltar lá sozinho, alguns meses depois, para vivenciar o cotidiano do interior. “Foi uma aproximação natural: os moradores me reconheciam como fotógrafo, por causa da máquina no pescoço, e pediam para ser fotografados. Muitos nunca haviam visto a própria imagem”, recorda. “Passei a ser conhecido como ‘o retratista’ e comecei a frequentar a casa deles. Aí notei o quanto aqueles objetos representavam a vida, a memória de cada um”.

O resultado da experiência, depois de dois anos de pesquisa em Nazaré do Mocajuba, a 150 quilômetros de Belém, foi um total de dez peças. “Funcionava assim: eu fotografava as pessoas e solarizava as imagens no computador. Em seguida, calculava o tamanho real do retratado, imprimia a imagem em uma tela de seda e a reproduzia sobre um objeto pessoal dele”, detalha. Ao fim do processo, o artista expôs as obras na vila, às margens do rio Mocajuba, e rodou países como França, Inglaterra, Bélgica, Canadá, Cuba, China. Mais recentemente, em novembro de 2011, a mostra integrou o Festival de Fotografia de Montevidéu, no Uruguai.

Relações humanas
Com referência a pensadores como Nicolas Bourriaud, no que diz respeito à teoria da estética relacional, Alexandre Sequeira garante que as experiências e repertórios individuais estão a serviço da construção de um significado coletivo. “É preciso se ‘contaminar’ com a realidade, confundir pesquisador e pesquisado, cultivar as relações humanas. Nesse sentido, a fotografia no meu trabalho atravessa o campo da arte”, teoriza ele, que não se considera um fotógrafo, mas alguém que “lança mão da fotografia”.

Uma experiência semelhante à desenvolvida em Nazaré do Mocajuba se deu em Minas Gerais, em um lugarejo chamado Lapinha da Serra. O trabalho, intitulado “Entre Lapinha da Serra e o Mata Capim”, foi a dissertação de mestrado de Alexandre, em arte e tecnologia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Como na experiência anterior, o artista estabeleceu laços afetivos com os moradores.

Dessa vez, em Minas, os personagens foram um senhor de 84 anos, chamado Juquinha, e seu neto, Rafael, de 13. A intenção, novamente, foi investigar a experiência de viver naquele vilarejo, porém sob duas perspectivas radicalmente diferentes. O adulto trouxe como referência a própria história, exaltando a fotografia como um documento do que viveu. O garoto, por sua vez, fez jus ao universo infantil, demonstrando entusiasmo com as lendas do imaginário coletivo da vila e o desejo de investigá-las. Para ele, a máquina fotográfica, nessa saga, se tornou uma grande aliada, encurtando as fronteiras entre o real e o imaginário.

Discos voadores
Não só como um observador, mas parte da história, Alexandre compartilhou, com os dois, momentos que considera edificantes. Foi ouvinte atento das histórias de Seu Juquinha, de anos atrás, e o ajudou a recuperar álbuns de família. Além disso, incentivou nele a prática artística. O avô de Rafael compunha toadas, que cantava acompanhado da banda O batuque. Certa noite, munido de equipamento digital de captação sonora, Alexandre gravou uma apresentação do grupo, posteriormente editada e masterizada, que foi lançada em CD – o primeiro registro sonoro do compositor. Paralelamente, com o menino Rafael, o paraense construiu uma armadilha para apanhar discos voadores, varou a noite para fotografar a mítica “Mulher do Pé de Manga” e produziu postais, com fotos feitas pelo menino, que se tornaram os cartões de visita da cidade.

Passados dois anos em Lapinha da Serra, o resultado da experiência, mais uma vez, não se limitou apenas aos registros fotográficos. “A cada novo trabalho que desenvolvo, me distancio do ato de fotografar propriamente, para tratar de questões que surgem das relações que estabeleço com as pessoas ou grupos”, explica o artista em sua dissertação, cujos anexos incluíram produtos decorrentes da temporada no lugarejo.

Correspondências
Da mesma forma, outros trabalhos de Alexandre Sequeira, como “Meu mundo teu” (2007/ 08), seguem a linha de aproximar a etnografia, método que se baseia no contato do pesquisador com o seu objeto de estudo e a arte. Nesse outro caso, o artista possibilitou que dois adolescentes, que não se conheciam, trocassem impressões sobre as suas realidades, por meio de cartas e imagens. Tayana Wanzeler, moradora do bairro do Guamá, em Belém, e Jefferson Oliveira, morador da Ilha do Combu, se corresponderam pelo período de um ano.

“Presenteei os dois com um bloco de cartas e uma máquina fotográfica artesanal. Semanalmente, pedia que escrevessem um ao outro, contando como era o ambiente em que viviam, com fotografias para ilustrar. Eu me encontrava com ela às quintas e com ele, aos sábados”, relembra o artista. Na segunda etapa do processo, os adolescentes chegaram a usar a mesma câmera, disparando duas vezes no mesmo filme, “cruzando” os dois ambientes. “Propus, com isso, a resignificação da realidade de um pelo outro”, explica. No final, os jovens se conheceram pessoalmente e participaram de uma exposição, que reuniu 15 trabalhos resultantes da experiência.

Desde muito novo, Alexandre Sequeira conviveu com a arte. “Meus pais me presenteavam com coleções literárias de museus e enciclopédias”, relembra. “Quando olho para as escolhas que fiz, percebo o quanto algumas experiências de minha infância foram determinantes”, diz ele, que engendrava tramas com figuras de barro, em uma espécie de teatro com bonecos. Não por acaso, brincadeira que se assemelha ao trabalho que desenvolve hoje, como artista e teórico.

Em um poema chamado “Templo”, o poeta carioca Antonio Cícero exalta as características da Memória, deusa que, segundo ele, “não é a guardiã do passado”, como creem os néscios, mas aquela que “canta o imorredouro”. Nesse sentido, repousa a satisfação de Alexandre Sequeira com o trabalho que desenvolve. “Sobretudo, imagino que as pessoas vão lembrar essas experiências para sempre. Se marquei a vida delas, cumpri o meu papel”.

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