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Os antigos não se beijam

Desde que a viu, manteve os olhos atentos, a guarda baixa e a sequência constante e contida de jabs* à espera do dia do golpe certeiro, da vitória por nocaute. Nunca fugiu à luta. Em 34 anos, a contar do batizado do primeiro filho, nunca deixou de cumprimentá-la, muito menos pousar, insistente, os olhos no olhar oliva de senhora respeitável cultivado por ela desde muito moça. Tudo às claras, em intenção sólida e imbatível dos pacientes, sem se incomodar em nada com a presença do marido, agora apartado pela morte. “Que Deus o tenha em boa memória”.

Divorciado havia seis meses, tempo de resguardo aceitável na cartilha dos bons costumes, aproveitaria a chance negada aos dois pela vida nas últimas décadas. Enquanto se empertigava diante do espelho do pequeno apartamento de solteiro, onde agora morava, ele remoia o que ouvira na última passada pelo bar do Alemão: “não adianta, meu caro, os antigos não se beijam”. Era um axioma, apesar de inconspícuo, devido ao comportamento letárgico para o amor da maioria dos enquadrados na bendita faixa etária. Os quase setenta anos lhe abateram com a constatação de que a idade leva para longe uma das maiores graças de amar.

Arrematou a gravata, olhou para si pela última vez antes de sair de casa: pouca ruga, nenhuma careca. Não estava mal para idade. Talvez as sobrancelhas fartas demais, talvez as orelhas parecendo maiores, talvez o nariz sem a simetria da juventude. Porém, o geral formava um belo conjunto. Avaliou e talvez passasse por 55. Até 53. Ainda poderia beijá-la, quem sabe, sem a punição da ausência de ósculo, o medonho castigo dos senis.

No caminho, ele relembrou os últimos anos. Recordou quando os casais se encontravam na sorte das eventualidades, dos vestidos desenhando as formas daquela mãe ainda jovem e, ao rememorar tantos detalhes, concluiu que o tempo não a magoou em nada, como fez a tantas conhecidas suas. Ao contrário, o verniz dos anos imprimiu a ela uma formosura enternecedora de avó com os mesmos olhos verdes vivos de quem está no começo da vida. Apertou-lhe a alma a sensação de ser apenas um amigo tardio, sem privilégio algum dos lábios nos lábios.

Desceu em frente à casa dela, um buquê discreto, anacrônico, nas mãos. A arritmia lhe impôs o medo de uma síncope, mas era só a ansiedade do encontro, como em qualquer idade. Cinco minutos depois do toque na campainha, ela abriu. Sorriso discreto. Entraram no carro, jantaram, colocaram pingo nos “is” de séculos. Entenderam por fim as voltas e os nós que a vida dá para desfazê-los nas esquinas mais corriqueiras da existência. Já no final, na despedida sem graça de respeitáveis velhos conhecidos, deixaram as formalidades de lado e se beijaram no calor de uma adolescência ressuscitada para ambos já marcados por tanta experiência.

Ele a ouviu entrar depois de um adeus abafado, enfeitado de pudor súbito, deslocado, por parte dela. Caminhou lento até o carro, o peito agora em brasa, sentindo-se um moleque de 20 anos. Deu a partida e concordou que o parceiro de copo do bar estava mais do que certo: de fato, os antigos não se beijam.

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