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Os donos da noite

Um ‘cortiço’, um ‘cabaré’, uma morada nobre e um charmoso casarão. Proprietários dos quatro e juntos há oito anos, Milene Fonseca e Albert Farid Labad agora estão construindo mais uma casa que irá integrar a família de bares e boates que mantém na capital paraense.

O casal mergulhou de cabeça no novo projeto desde que foi inaugurado o Baronesa, um bonito e refinado bar que fica em uma esquina privilegiada do Umarizal. O próximo point da cidade será o Modesto, um boteco simples e agradável que está sendo pensado com todo o carinho por Milene e Farid. A inauguração está prevista para setembro e promete ser mais um sucesso do casal, que já tem vários estabelecimentos em Belém.

Entre eles, está o Maricotinha. O lugar é um bar, que também é restaurante e ainda um lounge. Tudo isso graças aos três ambientes ricamente decorados e múltiplas opções de entretenimento – o pagode e o sertanejo de lá fazem grande sucesso, principalmente entre os jovens.

Ali perto, também é possível conferir as atrações do Cortiço Pub. Para um público mais adulto e sossegado, o bar combina sofisticação, drinks elaborados e shows de MPB. Próximo ao estabelecimento está o Cabaret Club, uma boate que remete ao Moulin Rouge francês e é muito disputada para receber eventos.

Estrategicamente localizados, aos empreendimentos do casal soma-se o conhecidíssimo African Bar, espaço que já recebeu diversos shows importantes, como o da banda Los Hermanos e sediou duas edições do Se Rasgum, um dos maiores festivais de música independente do país. Hoje, o African é administrado por um dos filhos de Farid. E o sucesso só reforça a competência familiar para o ramo do entretenimento noturno.

Em entrevista para o site da Revista Leal Moreira, eles contam como pensaram cada lugar, as peculiaridades em se trabalhar na noite, e porque continuam acreditando no mercado paraense.

 De designer a proprietária de bares e restaurantes...

Milene: Sim, eu tinha a Beauty Home, especializada em decoração, e resolvi incrementar colocando um lounge dentro da loja. Foi mais ou menos nesse período que conheci o Albert Farid, que tinha já experiência à frente do African Bar, mas nenhuma em se tratando de lounge.

E nessa época vocês já tinham a ideia de ter vários empreendimentos funcionando simultaneamente?

Milene: Nós descobrimos como administrar juntos. Como foi dando certo, fomos aproveitando as oportunidades que foram surgindo e abrindo casas com perfis distintos. O Favela era uma bar com uma decoração muito marcante, e onde tocava bastante samba e pagode. Alguns pratos e quitutes que surgiram lá e deram certo fomos levando para os próximos, assim como os drinks.

 Farid: O Baronesa está num lugar muito conhecido, onde já funcionaram outros bares, então mantivemos a tradição tendo como maior diferencial o chopp super gelado da Brahma e uma variedade grande de cervejas nacionais e importadas.

Milene: Fizemos um investimento grande no Cabaret, uma boate muito bonita com vários ambientes. Funciona onde antes tinha a New York, que também era nossa. Mas, atualmente, só a abrimos para festas e eventos privados, o que gera um custo menor e nos dá um bom retorno. O Cortiço tem como principal característica os anos 80, que acabou atraindo um público mais velho e muito fiel, que aprecia a música ao vivo, como quando Pedrinho Cavallero canta MPB, às quintas-feiras, ou ainda pede para ver um clipe musical. Lá, as nossas farofas e paçocas, entre elas a de carne assada com banana, também são muito procuradas, assim como um drink de cachaça com limão siciliano e capim verde - ambos podem ser encontrados nas nossas outras casas. 

Qual é a receita de tanto sucesso?

Milene: Trabalhamos muito e gostamos do que fazemos. Acho que esse é o segredo principal, porque quando se sabe como administrar um e se passa a ter dois ou três, é a mesma coisa. Fazemos um investimento alto e vamos acompanhando a mudança do mercado, sempre tendo em mente que é mais fácil perdurar com um bom ambiente, uma comidinha e bebidas de qualidade ao invés de ter uma etiqueta.

Farid: Nossos bares têm um ótimo clima e comida, música agradável, ar-condicionado e circuito interno, combinação que não é fácil de encontrar por aí.

Como continuar atraindo o interesse do público, que sempre busca novidades?

Farid: Trabalho nessa área há mais de 24 anos. Sei o que funciona e o que não funciona.  Por isso, busco dar longevidade as casas que temos apostando, principalmente, na fidelização dos nossos clientes.

Milene: Para que isso ocorra, nós cultivamos o habito cotidiano de frequentar nossas casas, sentar nos lugares, observar e confiar nas pessoas que trabalham conosco. Tivemos uma fase no Maricotinha onde sempre fazíamos o samba de raiz no quintal e até tentamos manter por um tempo, mas o público mais jovem acabou mudando a programação e apostamos no pagode e no sertanejo por lá.

Os nossos amigos e parentes também são os nossos fiscais. Temos um feedback do público que nos manda recados escritos, elogiando ou criticando, que nos possibilita sempre aprimorar o que fazemos.

Farid: Milene fica na administração e eu no operacional. Somos extremamente profissionais e comprometidos com o nosso trabalho, não pensamos no segmento como nossa segunda opção.

Milene: Muitos pensam que trabalhar na noite dá status, mas para nós é muito trabalho! (risos)

Expandir o negócio, abrindo três empreendimentos no mesmo ano, não é arriscado?

Farid: O setor de serviços é o que mais cresce no país. A Ambev é uma que investe muito no nosso ramo, e buscamos apostar em casas com identidade própria. A Milene nunca pensa em nada convencional, então com a sensibilidade e criatividade dela e a minha experiência, seguimos apostando no diferencial. Por exemplo, nesse novo bar que está em obras (Modesto), que vai funcionar como uma espécie de ‘pub londrino’, teremos chopp da Devassa. Já quando compramos a área onde era o Ventura, pensamos num nome e logo eu sugeri ‘Baronesa’, que tem uma certa pompa. Pesquisei e descobri que tinha sido uma das primeiras ferrovias do período imperial. Quando a Milene começou a decorar, colocou o quadro que é uma personificação da Baronesa, além dos espelhos e outros toques de estilo.

Milene: Aí compramos a área do antigo Trânsito para construir o ‘namorado da Baronesa’,  que é um contraponto ao luxo dela. Já temos as esquadrilhas prontas e arrecadamos muita coisa, entre peças e acessórios quetrouxemos de viagens. Com o Modesto, iremos subir de 52 para cerca de 70 funcionários, gerando renda para mais famílias que dependem da nossa empresa. Nós confiamos e investimos muito em quem trabalha com a gente. E a expectativa é grande para o Espaço Maricotinha Casa.

Farid: Torcemos muito para que os outros empreendimentos deem certo, porque é bom para todos. A ‘praia’ do belenense é a noite. Ao invés de ter que ir ao shopping para assistir um filme ou contar com poucas opções de teatro, as pessoas chamam os amigos para tomar uma cerveja e comer uns aperitivos.

E para a Casa Cor, o que vocês estão preparando?

Milene: Teremos a Taberna do Maricotinha. Levaremos tapioquinhas com recheios diversos - que serão servidas como temakis, chopp Devasa e uma mistura inusitada de sucos. Também estarão por lá as nossas farofas clássicas, como a de camarão com chicória, servida na cuia. E já estou pensando em decorar com caixotes e latas de manteiga real, deixar com uma cara bem rústica e diferente.

A Casa Cor servirá como piloto para experimentação de algo que estamos pensando para esse segundo semestre: oferecer esses produtos nas tardes do Maricotinha.

Como manter a harmonia na vida e no trabalho?

Milene: Nós compartilhamos o gosto pelo que fazemos porque somos apaixonados pela noite e não meros investidores. Quase sempre estamos juntos ou transitando pelos nossos empreendimentos que ficam próximos dos nossos apartamentos. Eu digo que o Albert Farid é o engenheiro e eu sou a arquiteta, nós nos completamos totalmente na gestão. Ele gosta de estar no meio da obra, de ‘pegar pesado’, e eu lido com os funcionários. Quando viajamos, o que fazemos sempre que é possível, nunca estamos desconectados do trabalho. Aproveitamos para conhecer os lugares e buscar inspiração.

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