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Os vários papéis de Glória
Aampla galeria de personagens já interpretados por Glória Pires é o que se pode chamar de diversificada. Ao longo de uma carreira dedicada à televisão e ao cinema, e que teve início ainda na infância, ela já foi filha de mãe solteira, moça vinda do interior, esposa abnegada, órfã, militante destemida, jovem romântica, índia, chantagista, professora de música, cirurgiã plástica, vigarista sedutora e até se desdobrou em duas numa mesma cena, contracenando consigo própria e com direito ao recurso dramatúrgico maniqueísta “irmã boa x irmã má”, quando viveu as gêmeas Ruth e Raquel, de Mulheres de Areia (1993), um sucesso de público e crítica, pelo qual recebeu o Troféu Imprensa como melhor atriz do ano.
 
 
Agora, ela volta a ganhar destaque com “Nise – O coração da loucura”, filme de Roberto Berliner, que estreia no circuito nacional. Pioneira, a médica Nise da Silveira humanizou o tratamento de pacientes esquizofrênicos com uso de terapia ocupacional, em um ateliê de pintura, e um tratamento baseado no afeto e no convívio com animais domésticos. Os métodos revolucionários são, até hoje, uma referência. O longa foi filmado durante dois meses no Instituto Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, no subúrbio do Rio de Janeiro. Era nesse mesmo local onde ficava o Hospital Psiquiátrico Pedro II. Lá, foram revelados grandes nomes das artes plásticas, como Emydgio de Barros, Raphael Domingues, Lucio Noeman e Fernando Diniz. A descoberta do talento deles é apresentada no filme, que mostra o primeiro contato com a tinta, o pincel e o barro.
 
Em entrevista exclusiva à revista Leal Moreira, na ocasião do lançamento no Festival do Rio (de onde saiu com os prêmios de melhor filme pelo júri popular e melhor atriz para Glória), ela falou sobre os sentimentos envolvidos neste novo trabalho. “Foi um processo intenso de composição do personagem, não só por toda a carga emocional da história, mas também pela oportunidade de contato que os atores e toda a equipe tiveram ao estar no mesmo local onde se passou aquilo tudo, com a vivência no ambiente do hospital. O fato de estarmos onde tudo realmente aconteceu foi fundamental e acrescentou muito”, relata.
 
O filme acompanha a trajetória da doutora Nise da Silveira após sua saída da prisão, em 1944, sob a acusação de ser comunista. Única mulher no corpo médico, ela contesta o uso de eletrochoque e lobotomia para tratar esquizofrênicos, mas seus colegas de trabalho discordam do seu meio e a isolam. A atriz ressalta o caráter inspirador da personagem. “Uma mulher que foi uma inspiração, por tudo o que ela fez da vida... A vida real é muito mais surpreendente do que qualquer filme que se pode imaginar. E esse personagem estará sempre em um lugar muito especial na minha memória”.
 
Filha da dona de casa Elza Marques Pires e do ator e comediante Antônio Carlos Pires, Glória Maria Cláudia Pires nasceu no Rio de Janeiro, em 1963. Com apenas dois anos, a menina foi flagrada pelo pai cantando em italiano a música tema de uma novela da época. Aos quatro anos, já morando em São Paulo por causa do trabalho do pai, ela gostava de brincar nos estúdios da TV Excelsior, onde ele gravava a novela “A Muralha”. Os cenários exerciam um fascínio especial sobre ela, que já brincava, escondido, com a maquiagem de sua irmã Linda, nove anos mais velha.
 
 
Após ser reprovada por Daniel Filho no teste para “O Primeiro Amor”, ela inicia sua carreira em 1972, ao lado de Francisco Cuoco e Fábio Mássimo, em “Caso Especial Sombra de Suspeita” (Rede Globo). No mesmo ano, estreia em novelas com “Selva de Pedra”, de Janete Clair, vivendo a personagem Fatinha, filha de uma viúva interpretada por Agnes Fontoura. Entre 1973 e 1975, participa de vários programas humorísticos, entre eles “Uau”, “Satiricom”, “Faça Humor e Não Faça a Guerra” e “Chico City”, contracenando com seu pai e com Chico Anysio. Em entrevista a um programa de televisão no ano passado, ela recordou momentos em que o pai, sua maior referência, ajudou com conselhos. “Meu pai estava sempre comigo no começo da carreira e era com ele que eu dividia todas as questões do ofício. Eu perguntava ‘como vai ser em uma cena em que eu tiver de chorar?’, por exemplo. Ele me dava vários exemplos e explicava que, quando aquela emoção estivesse ali dentro, no lugar dela, aquilo [o choro] iria acontecer, com ou sem lágrima”.
 
Mas a dramaturgia não foi desde sempre um caminho fácil para a atriz, que chegou a “dar um tempo” na carreira em 1977, desiludida e ainda incerta de que queria seguir a profissão. No ano seguinte, uma reviravolta: seu pai descobriu que seriam realizados testes para a nova novela de Gilberto Braga. O problema é que a escolha do elenco seria de Daniel Filho, o mesmo diretor que já a havia reprovado em um teste anterior. A esta altura, ela sentia calafrios só de ouvir o seu nome. Mas após uma longa conversa com o pai, a garota decide participar do teste. 
 
 
Então com 14 anos, Glória é selecionada entre cinco candidatas para viver a adolescente rebelde e problemática Marisa, filha da ex-presidiária Júlia Mattos (interpretada por Sônia Braga). O ano era 1978 e a novela, “Dancin’ Days”. A trama mudou hábitos, influenciou comportamentos e lançou moda em todo o Brasil. Por este trabalho, Glória recebeu o prêmio de atriz revelação pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Durante a novela, teve que lidar com o Juizado de Menores, que a proibiu de dar entrevistas, por causa de suas opiniões a respeito da instituição “escola”. Sobre essa experiência com Daniel Filho, a atriz revelou em entrevista recente ao canal Globo News: “Se você me pedir o nome de uma pessoa que tenha me apontado as coisas na televisão, sem dúvida nenhuma, eu direi Daniel Filho. Em cena, ao contrário do que estava em voga na época, que era estar sempre impecável, na roupa, na postura, com os atores bem penteados e maquiados, ele pedia a naturalidade. Nessa novela, ele praticamente me proibiu de pentear o cabelo. Dizia ‘não venha pra cá com o cabelo escovado!’. Ele queria fazer uma coisa extremamente naturalista, o que foi uma grande sacada na época. O que fazemos hoje na TV é reflexo disso, dessa busca pelo mais próximo do real. Hoje, a câmera é a última coisa com que me preocupo em cena. Isso é a escola Daniel Filho”.
 
Um dos pontos mais altos de sua carreira foi a indicação de “O Quatrilho” (1995), de Fabio Barreto, ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Adaptado do romance homônimo de José Clemente Pozzenato, conta a história de dois casais de imigrantes italianos que, no Rio Grande do Sul de 1910, resolvem se unir para sobreviver, decidindo morar na mesma casa, ponto de partida para um complexo relacionamento repleto de traições. O filme recebeu diversos prêmios. Só para Glória, vieram os de melhor atriz nos festivais de Havana, no de Cinema de Viña Del Mar e o de melhor atriz de cinema da APCA.
 
Os papéis interpretados fora de cena
O desafio de conciliar a carreira bem-sucedida com a vida pessoal vem sendo levado com profissionalismo e prudência pela atriz, que encara as demandas do trabalho sem deixar de zelar pelo bem-estar e harmonia da família. Glória é casada com o cantor Orlando Morais e é mãe de quatro filhos: Cléo, que é filha de um relacionamento anterior da atriz com o cantor e ator Fábio Jr., Antônia, Ana e Bento. Em 1988, por exemplo, ainda recém-casada, ela escolheu adiar sua lua de mel por causa do convite do diretor Denis Carvalho para viver a vilã Maria de Fátima, de Vale Tudo. A novela de Gilberto Braga fez um estrondoso sucesso, discutindo problemas que iam do alcoolismo à corrupção e à disputa pelo poder, entre outras mazelas do Brasil daquela época – e que ainda hoje permanecem atuais... 
 
A vontade de promover o bem-estar e estimular as pessoas a buscar a própria felicidade fez com que, em 2014, a atriz assumisse um novo papel: o de empresária. Ela é dona da marca Bemglô, concebida a partir da ideia de estar bem e que busca inspiração nas pequenas felicidades cotidianas. A marca é uma junção de “bem” com o nome Glória (Bem Glô). O objetivo é compartilhar histórias e vivências da atriz, que convida a fazer parte desse mundo onde existem inspirações e boas ideias para o dia a dia. “Criada a partir do compartilhamento das minhas e das suas histórias, a Bemglô tem um compromisso com o que é de verdade e acima de tudo, com o que faz bem. Como mãe, profissional e mulher, sei que a perfeição não existe, mas busco qualidade em tudo o que faço. Para mim, estar 100% é estar bem consigo mesma”, define. 
 
Os trabalhos mais recente na televisão
Em março de 2015, a novela Babilônia estreava na programação da rede Globo causando um estardalhaço nas redes sociais. Os nomes dos atores principais logo pipocaram entre os temas mais bem posicionados no twitter e a hashtag #BabiloniaEstreia chegou a ficar em segundo lugar no ranking mundial. Bastaram os quinze minutos iniciais da trama escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga para surgir uma avalanche de “memes” inspirados nos primeiros diálogos dos personagens. Entre os que fizeram mais sucesso, ganhou de longe o “Não estou disposta”, frase proferida por Beatriz, interpretada por Glória, uma mulher vaidosa e com traços de ninfomania, que não media esforços para alcançar tudo que desejasse. 
 
“Era uma mulher completamente diferente de mim, em todos os aspectos. Que tinha autoestima altíssima e usava sua sensualidade como veículo”, definiu, em entrevista ao canal Globo News, logo após o desfecho da trama. Ao estudar o papel, Glória ficou levemente desesperada com essa característica da personagem. “Como vou conseguir passar oito meses sendo essa mulher?”. Até que, depois de assistir a diversos filmes à procura de uma referência para a sua Beatriz, a resposta chegou via controle remoto. “Mudando de canal, caí no reality show do RuPaul [RuPaul’s Drag Race, competição idealizada por essa famosa drag queen em que candidatas disputam a coroa de Drag Superstar]. Pensei: ‘taí!’. Aquele mote dos rapazes que se transformam em mulheres incríveis e sensualíssimas foi a base para a Beatriz surgir”, revelou.
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