Não sou tão velho assim para morrer de saudade dos velhos carnavais. Aqueles dos desfiles em carro aberto, das guerras de confete, da exibição de umbigos - somente umbigos! - que causava frisson. Nem sou tão chegado assim no espírito que possui o Brasil de fevereiro em fevereiro, embora já tenha gritado “alá-laô” por aí. Gosto mesmo é do conto do Veríssimo, aquele do encontro dos foliões mirins ano a ano no bailinho. Aí, sim, dá uma saudade e até traz umas boas lembranças, como a da estranha que segurou minha mão em 1986.
Depois que as gêmeas nasceram minha mãe foi arrebatada por um rebuscamento artístico nunca dantes visto na história desse País. Com um menino ela não tinha chance de enfeitar o moleque até não poder mais. Porém, com as meninas a alma de estilista da minha genitora se libertava das amarras da pobreza estética masculina. Com esmero, driblando um orçamento curto, ela deixava as filhas nos trinques, umas fofuras. No carnaval, então, nem se fala: viravam princesinhas ou odaliscazinhas ou bailarinazinhas ou ciganazinhas idênticas.
Creio que os gastos não chegavam para mim, porque me não vejo no caldo da memória como um garotinho fantasiado. Recordo somente de umas camisas de viscose estampadas, feitas pela costureira Geni para meu guarda-roupa convencional. Na minha imaginação, eram imitações das vestimentas do Magno, aquele do bigode, aquele do seriado no Havaí. Assim, íamos os quatro para a Avenida Pedro Miranda ver os blocos: elas devidamente adornadas para folia, eu acreditando ser o dono da Ilha da Fantasia.
Naquele 1986, fomos assistir o carnaval. Antes da folia, insisti para ver no Cine China (antes Cinema Paraíso, hoje uma igreja evangélica) "O homem mais forte do mundo", com Lou Ferrigno, aquele ator do Hulk. Mas, o filme era confuso e o ambiente esfumaçado demais. Nada salutar para crianças. Saímos minutos depois para ver a multidão e paramos próximo à Casa Pisco (hoje uma sapataria), na esquina da Travessa da Estrela.
Minha expectativa maior era ver os mascarados do Chupico-pico, gente animada do bairro da Sacramenta. A tarde já esmorecia quando o bloco chegou numa folia de assustar. Acomodamos-nos na calçada. Mamãe protegendo as meninas e eu soltinho de Silva, me sentindo muito independente. Estava de olho arregalado no gorilão no meio do desfile quando ela entrelaçou os dedos nos meus.
Senti um certo desconforto e estranhei a mão nem tão pequena para ser de uma irmã nem tão grande para ser de dona Clarisse, minha mãe. Olhei agarrada à minha mão uma mãozinha clara, delicada. Percebi de chofre: era uma menina. Uma menina desconhecida. Não tive coragem de olhá-la no rosto. O coração em descompasso com surdo e tamborim.
Passamos aquele desfile interminável de mãos dadas observando a algazarra. Do meu lado, eu perguntava porque ela tinha me segurado. Seria engano? Seria medo do macaco gigante ou de outro mascarado? Seria meu charme pueril irresistível? Seria paixão? Sim, eu pensava na hipótese passional aos sete anos! Quando o bloco passou, fomos nos desprendendo com delicadeza e ainda lembro a textura macia, o tom rosado das mãos dela, o suor. Olhei-a. Ela sorriu, linda. E partiu sem deixar pista alguma.
Fiquei naquela de "quem é você? Diga logo que eu quero saber o seu jogo..." por um segundo. Nos três anos seguintes esperei na mesma esquina aquele milagre se repetir no meio da confusão carnavalesca. Em vão, claro. Era eu perdido no mundo com um amor instantâneo de carnaval a maltratar meu coração. E olha que a adolescência nem tinha dado o primeiro grito. Por onde anda essa moça? Ainda me pergunto.
