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Pergunte ao Tas

São Paulo enlouquecia no trânsito das seis da tarde enquanto eu tentava, em vão, chegar ao Morumbi, onde fica a sede da Rede Bandeirantes, na hora marcada, para entrevistar Marcelo Tas. Com quarenta minutos de atraso, chego com todas as desculpas prontas mentalmente, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Tas estendeu a mão e disse: 'É um prazer recebê-la.'
A simpatia do apresentador do CQC - que também é comediante, jornalista e pensador da realidade - impressiona. Tas anda pelos estúdios da Band acenando para todo mundo, conhece os técnicos e produtores do programa pelo nome e nunca deixa de mostrar os dentes num sorriso bem peculiar.
Carregando algumas décadas de televisão nas costas, Tas já passou pela Cultura, Record, MTV e Globo, e nelas encarnou personagens inesquecíveis, como o repórter Ernesto Varela e o Professor Tibúrcio. Hoje, no CQC, exibido nas noites de segunda-feira pela Band, colhe os louros de uma trajetória muito bem traçada. Nas próximas páginas, você curte o bate-papo descompromissado que tivemos.
Tu estudavas engenharia civil quando começaste a trabalhar com comunicação. Por que continuaste estudando, mesmo depois de ter encontrado tua vocação?
 Não, não continuei estudando. Na verdade, descobri minha vocação para comunicação na Engenharia Civil. O que é mais maluco ainda. Durante a faculdade, fui editor por dois anos de um jornal anarquista, que misturava humor e jornalismo. E eu comecei a gostar muito daquilo, aí fiz vestibular, na USP também, para Comunicação Social. Por algum tempo, fiz os dois cursos ao mesmo tempo, além de outras coisas. Passei a me envolver com teatro, dança, pintura. Fazia de tudo e acabei abandonando os cursos. Quando já fazia televisão, meus pais me cobraram o diploma. Foi então que eu fiz uma conta - como, para Engenharia, faltavam só seis meses, decidi terminar. Mas sem abandonar a televisão.

Tu já trabalhaste com rádio, impresso e TV. E parece que é a TV que é a tua praia mesmo...

A TV é onde eu nasci, é o meu DNA. Eu amo TV! Não sou aquele cara que faz televisão enquanto não faz cinema. Eu amo televisão! É o meu veículo. Mas, ao mesmo tempo, as várias formas de comunicação sempre me interessaram. Na era em que gente vive hoje, o texto, o áudio, as imagens em movimento, a foto... está tudo interpenetrado. Eu também gosto muito de rádio, além de escrever, que é uma coisa que faço muito também. Sou colunista de duas revistas, a Istoé e a Crescer, e ainda tenho o blog (blogdotas.terra.com.br).

Tu moraste nos Estados Unidos por quanto tempo?

Foram quase dois anos...
É que aqui no Brasil a gente tem uma mania de venerar os Estados Unidos. Acha que são melhores, têm políticas melhores. Como alguém que morou lá e conviveu com a cultura e os estilos de vida dos norte-americanos, tu achas que estamos corretos ou não? Os Estados Unidos são tudo isso?
(Pausa longa) Olha, vamos por partes. Não gosto de dizer ''os Estados Unidos''. Acho que não podemos colocar o país inteiro dentro de um mesmo pacote. Eu, por exemplo, morei em Nova York; nem dá para dizer que aquilo é Estados Unidos, porque é uma cidade que tem muita gente do mundo inteiro. Há um erro duplo aí: ou a gente fica dependendo demais do que é produzido lá ou fica cheio de preconceitos em relação a eles. Para mim, os Estados Unidos não são um local definível categoricamente, mas, sim, um encontro de muitas coisas. A grande virtude dos Estados Unidos é ser um caldeirão de culturas. O cinema americano falado, por exemplo, foi feito por diretores de teatro europeus. Tem também o Rock%u2019n%u2019roll, o Blues, o Jazz, a música negra americana... Eles são o berço da cultura pop que a gente vive hoje. Não podemos colocar no mesmo pacote isto tudo e os shoppings de Miami, que é o que todo mundo gosta de criticar (risos).
Eu, particularmente, tenho um carinho especial pela temporada que passei lá. Foi quando tive condições de me dedicar ao estudo, porque eles levam a sério a educação, e isso é outra coisa que a gente precisa reconhecer. Eu tive aulas em salas ótimas, com estruturas ótimas e professores melhores ainda. O Scorsese (diretor de cinema) era professor de lá. A universidade americana não pode ser comparada à universidade brasileira. Qualquer universidade daqui é um lixo comparada às deles. Lá, as bibliotecas são maravilhosas e você tem acesso a elas, pode emprestar livro, xerocar, além de ser tratado com respeito. Aqui, é um lixo!
É complicado falar mal de quem me tratou tão bem. Inclusive, a bolsa que me levou para lá é do governo americano; o Brasil não gastou um centavo comigo, foi o governo americano que pagou para eu estudar lá. O que vejo nos Estados Unidos é uma generosidade, inclusive, das pessoas ricas. Os museus, por exemplo, são todos bancados por iniciativas privadas. E não é Lei Rouanet! A gente tem que aprender muito com os americanos antes de falar mal deles.

Dia desses, li uma frase tua: ''coerência não é uma virtude, muitas vezes é uma arma dos fracos e rasos". O que quiseste dizer com isso?

Hoje, a gente é cobrado demais por ser coerente e, geralmente, é cobrado fora do contexto. No Brasil, não se tem o costume de emitir opinião, a gente não está acostumado com isso, com alguém que deixa claro o que pensa. Aqui, a gente tem muito da tradição católica portuguesa, todo mundo meio que esconde a sua opinião, evita falar sobre um assunto que pode causar um choque de ideias. Então, geralmente, quem emite muita opinião, deixa claro o que pensa, como é o meu caso ''assumo, tenho este defeito de fabricação'', começa a ser muito cobrado pelos outros por coerência. As pessoas acham que você precisa seguir uma linha exatamente reta, sem desvios. Se partilhou uma opinião política em determinado momento precisa ter esta mesma opinião para sempre? Não, não é assim.

Acho que na nossa essência somos incoerentes...

Não sei se a palavra é essa. Prefiro dizer que somos contraditórios. Vivemos o tempo todo em dúvida quanto ao que pensamos, e não vejo mal algum nisto. Mas tem gente que cobra uma linha reta entre %u201Cnasceu%u201D, %u201Ccresceu%u201D e %u201Cmorreu%u201D, sempre pensando do mesmo jeito. Somos seres humanos imperfeitos, erramos, tropeçamos e mudamos de ideia também. Ser contraditório não é um defeito, e acho que, no Brasil, precisamos aprender a conviver com isso. E aprender também, principalmente, a conviver com o confronto de ideias. Você pensa uma coisa, eu penso outra e nós podemos conviver mesmo assim.

Outra frase tua é que %u201Crir é a única coisa que nos diferencia dos animais%u201D...

É verdade! O riso é o reconhecimento da imperfeição. A gente ri quando vê um cara escorregando numa casca de banana. Ao cair de quatro, ele volta para situação do que era antes, um animal. E a gente ri disso, adora isso! A gente já foi animal e, às vezes, ainda é. Por exemplo, o quadro mais comentado do CQC é o Top Five, no qual se mostra o erro das pessoas. O comediante tem um papel legal nisso porque ele acusa, aponta o erro. No CQC, geralmente, quando entrevistamos um político, vamos no erro, vamos aonde o cara está escondendo que ele é humano. Então o rir é isso, é você se diferenciar dos animais, que são perfeitos, que vivem em harmonia com a natureza, que não precisam rir. A gente precisa usar o riso pra identificar nossos erros, nos criticar e tentar conviver com mais saúde com essa nossa condição humana.

Você diz que ''Couvir'' é o verbo da nossa era, que precisamos ouvir para conseguir sobreviver.

As pessoas têm que aprender a se ouvir. A gente só pensa em falar, principalmente quem é de televisão, que fica só falando para uma câmera e precisa acreditar que tem alguém do outro lado ouvindo. A gente vive numa era em que a televisão já está dentro da rede. Não tem mais como não sofrer influência de quem, antes, estava calado e agora começa a poder falar, criticar, denunciar.

O Twitter é um bom medidor para isso. Um assunto nem precisa ser polêmico: abordado pela TV, vira um falatório interminável lá.
As empresas já estão sentindo isso na pele, começam a ser criticadas pelos consumidores e precisam aprender a ouvir isso. O poder do consumidor hoje é enorme. Essa semana aconteceu aquela loucura com a Arezzo - os consumidores começaram a criticar diretamente, pela internet, a empresa por conta do uso de pele de animal em determinadas peças e não tardou para que a marca tivesse que emitir um comunicado oficial se desculpando e recolher toda a coleção das lojas.

És uma das personalidades com mais seguidores no Twitter. Qual é o teu papel como um comunicador que tem uma enorme repercussão ''não sei se esta é a palavra mais adequada'' na internet?

Sempre atuei como provocador e, atualmente, tenho me dedicado a trabalhar como educador. Esse é o meu desafio atual, não só provocar, mas também propor coisas. Eu pergunto, hoje, por que não estudamos isso ou aquilo, ou por que não aprendemos a ouvir, ou por que não valorizamos a educação formal ao invés de jogá-la no lixo. O problema é que só pensamos em acelerar o crescimento, que se tornou até uma obsessão nacional. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), para mim, é um erro estratégico, só se acelera o crescimento sem se preparar para essa aceleração. E aí fica todo mundo preso no trânsito como vocês ficaram hoje.
Para mim, a educação tem muito a ver com isso, não adianta acelerar o crescimento se você não tiver engenheiro para preparar as estradas, as vias e os aeroportos. Tem ainda que preparar os leitores e os caras que vão escrever as normas, o manual de como a gente vai usar tanta coisa, tanta tecnologia. Hoje todo mundo quer comprar sua TV de LCD, seu som e botar tudo no volume máximo e aí não se consegue ouvir mais nada. Acho que a gente precisa saber ouvir até na hora de ouvir música ou ver TV.
A metáfora é essa, se você só acelera o crescimento, só enche o país de caixas de som e acaba não promovendo nenhuma discussão ética ou educativa do que se vai fazer ou como se vai usar tudo isso. Falo de caixa de som porque é quase uma obsessão minha. Tenho dificuldade de encontrar um lugar para descansar no fim de semana que não tenha um maldito som ligado.
As pessoas não sabem também conviver com o silêncio. Se estamos em casa, ligamos a TV, o rádio, mas não sabemos ficar no silêncio.
Exatamente! O que as pessoas não entendem é que só com o silêncio conseguimos zerar a audição e, assim, voltar a ouvir novamente. Se a gente continuar só na aceleração, não vai descobrir isso nunca. A gente vive hoje numa era de grandes transformações, acredito que devemos nos educar para essas transformações e não ficar só na aceleração.
Vivemos num país pobre, cuja população não tem internet de graça - muitas escolas públicas, inclusive, nem computador têm. Mesmo assim, a internet é um fenômeno. Twitter, Youtube, Facebook, Orkut, tudo vira febre e a gente não encontra um jovem que não tenha perfil numa destas redes sociais.
Acho que isso é uma virtude do Brasil. O brasileiro tem um interesse pela tecnologia no sentido de transformação de vida, talvez por conta da carência, da desigualdade social, da vida muito dura que a maior parte da população leva. Quando surge uma mudança de paradigma, como está acontecendo agora, o brasileiro enxerga uma oportunidade. Está certo, porque ele não tem nada. Pode ser que com o acesso a uma lan house, por exemplo, ele consiga também acesso à educação, à informação ou até a um emprego. O Brasil deveria valorizar isso. As nossas periferias, hoje, têm mais lan house que botequim. Isso é ótimo! Mas não adianta só isto, o que importa mesmo é investimento estratégico em educação e não o blá blá blá que a gente está acostumado a ver. Acho que, como educador e líder de um programa de TV, tenho que ter consciência e estimular isso.

A tua trajetória é muito ligada à educação. Teus pais foram professores, tu ministras muitas palestras por todo o país e até teus personagens sempre tiveram algo voltado para essa questão educativa. Como é que tu vês a educação brasileira hoje?

É uma tragédia, continua uma tragédia. O que existe é um descaso absoluto. A gente vê muito discurso e pouca ação efetiva, estratégica. Eu me pergunto: queremos virar gente grande? Se sim, vamos nos mirar em quem está num estágio parecido com o nosso e cuida da educação de uma maneira radicalmente diferente. Por exemplo, a Argentina. Ou o Chile. Ou a Índia. Eles levam a educação a sério, não é uma bobagenzinha como tratamos aqui. O Brasil não leva a sério a educação em nenhum nível. Existem ilhas de excelência, uma escola pública ou particular aqui, um professor ali, mas são iniciativas localizadas. Não há uma decisão estratégica, de Estado mesmo. É tudo cosmético, põe um ministro bonito para ficar falando dos índices, que melhoraram. A educação brasileira é uma tragédia.
O programa %u201COs Netos do Amaral%u201D (exibido pela MTV no início dos anos 1990, apresentando um país fora do eixo Rio-SP) era uma ideia interessante. Nem sempre nos sentimos representados pela televisão brasileira, nosso povo, nosso sotaque.
Tenho maior carinho por este programa. Como quebrei o pé nas gravações, só deu para fazer três. A TV brasileira pode ser muito melhor. A gente vê que, quando se produz coisas de qualidade, tem repercussão. Eu, que tive experiência numa TV pública, sei bem disso. Até hoje, a série Rá-Tim-Bum e o Telecurso, por exemplo, têm muita repercussão. De maneira geral, as concessões de TV pelo Brasil foram doadas em troca de favores políticos. O que fez com que as tevês locais se desenvolvessem muito pouco, porque estão nas mãos de pessoas que não querem isto, que usam para fazer propaganda a seu favor, às vezes, para conseguir se eleger. A luta para que aconteça este desenvolvimento precisa ser local, a sociedade brasileira precisa lutar regionalmente para que aquela TV espelhe a cultura local.

Fala-se hoje muito sobre a revolução digital. O que é esta revolução e como ela muda nossas vidas?

Ela muda uma coisa fundamental, o poder de publicação, que antes vinha em uma direção, das editoras, das gravadoras, das televisões, da academia, que eram as  donas das publicações e do pensamento. Agora, existe uma facilidade enorme de publicação, então, se você tem uma pesquisa ou um texto com um ponto de vista contrário ao da gráfica, da gravadora ou do dono da antena, você consegue publicar mesmo assim. Isto representa uma revolução gigantesca, que está só no começo, mas que já produziu grandes transformações. Citamos, há pouco, a mudança de comportamento do consumidor, que pode chegar ao eleitor também, pode gerar mudanças também no comportamento dos alunos, dos professores, das mães, dos pais... Isto, para mim, já está acontecendo. E quem não conseguir enxergar, vai ficar fora deste trem-bala que a gente está pegando e que muda os negócios, a política, a publicação.

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