
Beth Goulart teve uma epifania. Havia trabalhado com diretores renomados e fora convidada para construir personagens que lhe exigiram diferentes estudos de técnica teatral e exercícios de preparação como intérprete. Percebeu que aquilo tudo lhe acrescentava, mas sentia cada vez mais a necessidade de mergulhar no processo de criação que antecede o trabalho do ator. Queria encenar um espetáculo concebido a partir de suas necessidades artísticas mais íntimas, tendo como base uma pesquisa própria e que abrisse espaço às suas escolhas como autora. Ao se deparar com Cartas perto do coração, livro que reúne correspondências trocadas entre Clarice Lispector e o escritor Fernando Sabino, Beth se perguntou por que não montar um espetáculo baseado naquela obra. “Terminei o livro e pensei: esse lindo texto renderia uma bela peça para falar a respeito de literatura, da vida, de amizade, de processo de criação...”. Mas, sem a autorização da família de Sabino para montar o diálogo, a atriz se viu diante da impossibilidade executar sua ideia nos palcos. Só que Beth não se contentaria em ter que deixar para lá. Ela, então, estava sozinha com a personagem que restava e que lhe era tão familiar: Clarice Lispector.
A descoberta do mundo “clariceano” se deu quando Beth tinha treze anos de idade, no encontro com a personagem Joana, do romance Perto do Coração Selvagem. A experiência foi tão marcante, naquele momento em que predominavam as questões típicas da adolescência na vida da jovem atriz, que, não por acaso, essa foi uma das personagens escolhidas por Beth para integrar o texto de Simplesmente Eu, Clarice Lispector. As outras personagens são Ana, do conto Amor; Lóri, do romance Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres e uma personagem cujo nome não é revelado, do conto Perdoando Deus. São personagens que aludem à própria escritora e revelam sua intimidade por meio da narrativa e dos momentos de introspecção. Versões de uma Clarice Lispector criadora, leitora, mãe, esposa, humana, mulher. Escrito e dirigido pela protagonista, o monólogo tem supervisão de Amir Haddad e conferiu à Beth a versão carioca do prêmio Shell de Teatro, considerado o mais relevante do meio.
Desde sua estreia, em 2008, o espetáculo vem colecionando elogios da crítica especializada e emocionando público, estimado em mais de 700 mil espectadores. A temporada no Rio de Janeiro foi prorrogada até dezembro de 2013.
O processo criativo exigiu dois anos de pesquisa, nos quais Beth se debruçou entre páginas de livros da autora, estudos teóricos sobre sua produção literária, correspondências e arquivos de áudio e vídeo, como a última entrevista concedida por Clarice à TV Cultura em 1977, pouquíssimo tempo antes de sua morte e o depoimento gravado para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, no ano anterior. À certa altura da peça, a atriz remete a essa mesma entrevista, reproduzindo algumas das respostas da escritora e acrescentando falas extraídas de entrevistas anteriores, em que Clarice explica de onde vem seu impulso de escrever e outros mistérios de sua natureza.
Estes últimos materiais foram indispensáveis para Beth – já convencida de que não se contentaria apenas em encenar personagens “clariceanos”, pois precisava viver a própria escritora – compor sua personagem principal e absorver seus gestos, sua entonação e sutilezas de fala. Até mesmo o peculiar sotaque de Clarice, marcado por um estranho acento, frequentemente atribuído à nacionalidade russa (ela cresceu no Brasil, em Pernambuco, até a família mudar-se para o Rio de Janeiro quando tinha 15 anos), mas que não passava de um efeito provocado por sua língua presa. Foi aí que entrou outro elemento que possui, na figura de Clarice Lispector, praticamente o mesmo peso que suas palavras: o silêncio. Beth se preocupou não apenas em reconstituir o universo de Clarice e de suas criações literárias, como também em absorver o falar pausado da escritora, que reflete uma característica do seu próprio fluxo de pensamento e de criação.
“Quando me perguntam se fui eu quem escolheu fazer Clarice ou se foi ela quem me escolheu, digo que não sei, que talvez até tenham sido as duas coisas: escolhi quando a elegi como uma de minhas autoras. Mas também fui escolhida quando fui levada a aprofundar minha pesquisa sobre sua obra”, contrapõe Beth antes de findar nossa conversa, como uma forma de não dar o assunto por encerrado e deixar a dúvida no ar. Mas a voz suave, o rosto anguloso que, entre as curvas, revela seu olhar penetrante e sereno, deixam claro que, provavelmente, não existiria outra atriz capaz de interpretar Clarice com a mesma intensidade, o mesmo arroubo e entrega com que Beth mergulhou na pesquisa e construção de seu personagem. A entrevista termina e ela se despede cordialmente com um sorriso, pede licença e deixa o local. Na volta pra casa, já no carro, encosto a cabeça na janela e tomo um pouco de ar. As palavras de Clarice – ou de Beth, já não conseguimos decifrar. Seria uma epifania? Você, leitor, decidirá. O privilégio é todo seu.
Como surgiu sua relação com a obra de Clarice Lispector?
Aos treze anos, quando li Perto do coração Selvagem. Clarice sempre foi uma das minhas autoras de cabeceira, assim como Nelson Rodrigues e Fernando Pessoa, mas além dessa admiração por sua escrita, eu tinha também uma relação íntima com ela, porque a Clarice estabelece uma relação afetiva com seus leitores, tenho certeza de que não sou a única. Curioso que, em alguns momentos, parece que ela está conversando muito próximo de você. É como se dissesse: “estou um pouco cansada agora, vamos tomar um café?”. E, às vezes, é preciso que você interrompa a leitura, efetivamente, faça uma pausa para absorver o texto, depois voltar, ler de novo... Faz parte da leitura e do entendimento da obra de Clarice fazer essas pausas.
Que critérios você usou para escolher os personagens que seriam encenados na peça?
Escolhi personagens que tinham a ver com ela, com seu processo de vida e a ver também comigo, com minha relação pessoal com a Clarice. Por isso, eu tinha de incluir a Joana, de Perto do coração Selvagem, que foi o primeiro livro dela que li e que, coincidentemente, é o primeiro que ela escreveu. Houve uma coincidência de vivências, que julguei importante acrescentar ao trabalho. Esses personagens contam, de alguma forma, momentos da vida da Clarice, falam de temas que são importantíssimos pra ela e também pra mim. Escolhi o sentimento do amor para conduzir o trabalho: o amor à vida, à literatura, aos filhos, à natureza, a Deus, à arte, ao teatro, aos outros. E ao mesmo tempo em que ela fala de amor, eu também falo, só que do meu jeito. Por isso, eu também me revelo neste espetáculo, porque nas minhas escolhas pelas falas e personagens estão também os meus valores, as minhas opiniões...
Em que momento você percebeu que estava pronta para criar um espetáculo assumindo a pesquisa, dramaturgia e direção?
O processo de começar a escrever e dar espaço às minhas próprias ideias foi gradativo. Comecei no teatro muito cedo e trabalhei com vários diretores maravilhosos. Estudei e fiz diversos exercícios de corpo e voz. Ter participado de vários espetáculos foi importante. Isso tudo foi me dando uma bagagem cênica, um domínio da interpretação e do processo teatral como um todo... Até que chega uma hora em que você se dá conta de que já sabe fazer, em que você aprende o “fazer teatral”. Aprende pela observação e vai absorvendo as informações. Aos poucos, você começa a desenvolver uma estética, um gosto particular e uma linguagem cênica. A cada novo espetáculo, ia me aproximando mais da direção, criação do texto e pesquisa, até chegar a “Simplesmente eu...”, em que assino o texto, crio a dramaturgia e faço a direção sob a supervisão de Amir Haddad. Mas também “meti o dedo” em tudo! Da iluminação ao figurino, busquei profissionais que pudessem traduzir meus conceitos teatrais da forma como eu queria: música, cenário, luz... E os conceitos “clariceanos” estão presentes nesses elementos, não somente no texto.
Essa circunstância parece refletir seu momento de maturidade profissional e a evolução da sua trajetória como atriz e diretora. O que podemos esperar daqui em diante?
Exatamente! Mas quando se fala em maturidade, parece que é uma fase que chegou quase no final e, na verdade, não vejo assim... Pra mim, agora é que está começando! [Risos]. Primeiro, a gente tem que aprender a fazer [dramaturgia]. Agora, eu já sei fazer e vou continuar desenvolvendo novos projetos, como já tenho outros em andamento.
“Simplesmente Eu...” é o primeiro de uma série de perfis femininos que você pretende fazer. Quais são os outros?
Independentemente dos perfis e se eu vou estar em cena ou não, são as mulheres que me interessam. Mulheres que fazem parte da história do Brasil e da identidade brasileira e que contribuíram com sua história de vida para a sociedade onde a gente vive hoje. São mulheres fortes que pegaram o controle de suas vidas e deram um rumo à nossa história, como Maria Quitéria, Princesa Isabel, Tia Ciata, Nair de Teffé, Tarsila do Amaral e Dulcina de Moraes.
Além de Clarice, que outros autores que contribuíram para sua formação?
Ler faz parte do meu trabalho. Por isso, leio desde cedo e há vários autores maravilhosos que foram importantes na minha formação, desde os filósofos, como Nietzsche, a grandes pensadores, nomes importantes do teatro, romancistas e poetas como Fernando Pessoa, Machado de Assis, Constantin Stanislavski, Jerzy Grotowski,Peter Brook, Ítalo Calvino, Inês Pedrosa, Adélia Prado, Cecília Meireles... É difícil separar apenas alguns nomes. Cada personagem é um universo novo que se abre e parte do processo de criação da personagem é o ator se cercar de informações. Uma delas é que tipo de livro aquele personagem lê, qual leitura tem mais a ver com seu universo. Isso também faz parte do exercício de humanização da personagem.
Os temas e as referências de seu universo de trabalho estão muito ligados à espiritualidade. Como você lida com essatemática?
As autoras das quais gosto, como Clarice Lispector, Lya Luft e Adélia Prado, conseguem trazer esse lado transcendente da vida, tocar um pouquinho no mistério da existência. Isso transcende a dimensão do cotidiano: a vida é mais do que isso. Todas elas sabem que Deus é imanente: está dentro da gente, não fora. Essa divindade que todos nós temos é que nos torna excepcionais em vários momentos do cotidiano. Isso é o que Clarice traduz tão bem nas personagens que vivem as epifanias, os momentos de profundo conhecimento esotérico, que transformam o cotidiano de forma definitiva.
Há uma pergunta praticamente inevitável quando se entrevistam artistas privilegiados como você: qual a influência dos seus pais, dois atores consagrados, na sua vida profissional e pessoal?
A maior influência que se pode ter dos pais é o exemplo de vida. Mas quando o que você escolheu para fazer na vida tem a ver com o que os seus pais fazem, então você tem um universo inteiro de seu interesse à disposição. Eu pude conviver com teatro desde pequena, mamei numa coxia e pude vivenciar o teatro desde pequena. Mas nada disso adianta se não houver vocação. O talento não é hereditário, vem da alma, não do corpo. Você tem que seguir aquilo que nasce com você. A Clarice fala disso: a diferença entre vocação e talento. A vocação nasce com você, mas, se você não burila isso, não vai adiantar nada.
E esse aprendizado se estende a sua compreensão sobre o “fazer teatral”...
O teatro é uma escolha que pede muita dedicação, muita devoção e isso eu aprendi com meus pais e observo desde criança. Aprendi com eles que o sucesso e o fracasso andam sempre juntos, que a gente tem de aprender a suportar o sucesso da mesma forma que o fracasso, que o fracasso é que te dá o “estofo” para poder aguentar um sucesso, saber que tanto um como o outro são efêmeros. Você não é o sucesso. Ele passa como o fracasso também passa. Muita gente relaciona nossa profissão com o orgulho e a vaidade, mas esses são os piores conselheiros. Teatro é uma arte coletiva, não se faz teatro sozinho.
Você defende sempre que o teatro possui um poder transformador, assim como a literatura, e que essa é uma das “causas” dessa peça, que se propõe também a estimular a leitura de Clarice e o hábito de ir ao teatro...
Sim! Um dos objetivos do espetáculo é estimular a leitura da obra dela [ao final de cada sessão, são sorteados livros de Clarice] e o contato com a literatura em geral. Assim como faço um convite às pessoas para irem mais ao teatro, que é uma arte efêmera, em que um ser humano vai ao encontro de outro ser humano, um no palco e o outro na plateia. Acredito que a literatura e o teatro são artes irmãs, que se complementam; o teatro precisa da palavra.
Essa peça já percorreu diferentes pontos do país, encenamos em teatros grandes e pequenos. Vou sempre com a mesma disposição porque acredito que este é um trabalho de semeadura. Acredito que podemos estimular o hábito cultural nas pessoas, de quebrar aquela ideia de que não é todo mundo que pode “entender arte”. Arte não é para ser entendida, é para provocar um estado d’alma. Tenho depoimentos de pessoas que disseram ter buscado livros de Clarice após assistir ao espetáculo. Acredito sinceramente que a Clarice ficaria muito feliz com isso, porque ela gostaria de ser lida pelo maior número de pessoas possível.
