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Promessas de fim de ano

Quem nunca pulou sete ondas na hora da contagem regressiva ou andou com caroços de romã na carteira pra atrair fortuna? Quem nunca arriscou a sorte na cor da calcinha, tentou atrair bons fluidos com o vestuário branco, ou simplesmente fez uma prece em silêncio, rompido pelos fogos de artifício que anunciam a chegada do ano novo? Não são poucos os rituais que marcam a cultura ocidental quando o assunto é a virada do ano. E de todos eles, o que permanece no nosso caminho o ano inteiro são as resoluções: aqueles objetivos que estabelecemos para o período vindouro, na esperança de que a mudança no calendário abra portas para uma mudança pessoal. Promessas feitas, votos renovados na espera de 365 dias prósperos. Entre as mais comuns, levar a dieta a sério, economizar mais, arrumar um novo emprego, parar de fumar. Quem nunca se prometeu perder uns quilinhos, renovar o guarda roupa ou fazer um curso novo, por exemplo?

A tradição é tão antiga quanto a própria instituição da data, que no mundo ocidental tem início no ano 46 a.C. - quando um decreto do governador romano Júlio César fixou o começo do calendário no dia primeiro de janeiro, em homenagem a Jano, o deus dos portões. Conta a narrativa mitológica que Jano tinha duas faces: uma voltada para frente, focando o futuro, e a outra para trás, visualizando o passado. Desde então, depositar uma fezinha a mais na hora da virada ou um voto para o que virá faz parte do cerimonial de passagem. Para a psicóloga Daisy Miranda, a questão das promessas de fim de ano está intrinsecamente ligada à nossa cultura sazonal multifacetada. "Por sermos advindos de vários povos e ancestrais híbridos, principalmente os indígenas e africanos, somos incitados a repetir rituais diversos. Não paramos para nos observar, mas vivemos cumprindo ciclos e quadrantes por conta da nossa heterogeneidade psíquica", diz. Assim, muitas vezes prometer uma mudança de hábitos tem muito mais a ver com o clima festivo e o rito que é parte dele que com o desejo de mudar efetivamente algum aspecto da própria vida.

Quando a transformação pessoal é realmente desejada, porém, uma hora esta deixa o papel. Assim foi para Vanessa Schlichting, que, com equilíbrio e espírito empreendedor, transformou um desejo antigo em profissão. A catarinense de 29 anos veio parar em Belém depois que os pais desembarcaram aqui a trabalho, há cerca de oito anos. Não veio junto. Mas a solidão a acabou impulsionando para perto da família.  “Eu morava no interior de Santa Catarina, cidade pequena. Me sentia sozinha e também via a região norte em expansão econômica”. Formada em tecnologia de alimentos, com MBA em Gestão de Pessoas, a hoje empresária viu um nicho de mercado em franco crescimento: a indústria da beleza. Abriu uma franquia de depilação à cera. Vanessa explica como mudou completamente de ramo: “em outubro do ano passado, já era grande em mim a vontade de abrir um negócio, mas não podia ser qualquer coisa. Fui à Goiânia em novembro, conheci a marca e me apaixonei”. Escolhido e fechado o negócio, foi só aplicar as economias guardadas para a obra e padronização. “Senti que o mercado de Belém precisava de um produto diferenciado, havia a oportunidade de negócio, aí foi só fazer a pesquisa e investir para tirar esse sonho do papel”, comemora.

Claro que nem todos têm a sorte e o capital de investimento de Vanessa à espera de uma oportunidade. Mas fazer a diferença começa em pequenas atitudes, vontades que viram gestos e propiciam a mudança. A maioria só depende de desejo e empenho próprios, como para Marcos Noronha. O estudante universitário, de apenas 17 anos, realiza um trabalho social que começou ao lado da mãe e vizinhos do condomínio onde mora. Há dois anos, ele distribui pão para moradores de rua. Queria mais. Prometeu, então, que se passasse no vestibular para medicina se engajaria em outro trabalho social. Já no primeiro ano de estudos, conheceu uma Organização Não Governamental, a Federação Internacional dos Estudantes Associados de Medicina - cujas frentes de atuação vão de intercâmbio, passando por questões ligadas aos direitos humanos à qualidade de vida. Além da área de saúde, a ONG atua em campanhas sociais com crianças e idosos. “A medicina pra mim não é uma mercadoria. Ela precisa do entorno social. Independente de promessa, a vontade de fazer a diferença na vida das pessoas sempre existiu. Eu só quero que a minha boa ação gere outra boa ação e assim por diante. Uma espécie de corrente do bem”, diz. Marcos ainda não definiu a especialidade que vai atuar, mas entende muito antes de exercer a profissão que a medicina vai além da ciência. Precisa ser praticada com humanização.

Quando o assunto é tirar do papel uma mudança brusca de vida, Isaac Benzecry é referência de determinação. O administrador de empresas, de trinta anos, conseguiu eliminar nada menos do que sessenta quilos apenas fechando a boca e mudando a qualidade da alimentação. “A obesidade me acompanhava desde os sete anos de idade, quando cheguei aos 18 começou a incomodar de verdade”, desabafa. Era a adolescência mexendo com organismo, sobretudo com a sua autoestima. Sem procurar ajuda profissional, inclusive psicológica, Isaac entrou no conhecido efeito sanfona por mais três anos. Chegou a ganhar metade do peso que havia perdido e recuperar a boa forma mais uma vez. E isso atuando no mercado como bancário: oito horas do seu dia, no mínimo, são gastas sentado, trabalhando. Foram muitas as promessas que fazia a si mesmo até conseguir estabilizar o peso. Hoje, ele faz acompanhamento endocrinológico e descobriu prazer na atividade física. “Faço musculação e aulas de spinning. Minha profissão é sedentária e estressante. Ir pra academia todo dia funciona como um antiestresse”. Isaac diz que o estímulo para a mudança vem do espelho. Não está mais insatisfeito com a aparência, mas não pensar em parar. Ele já até renovou a meta para o ano que vem: ganhar barriga de tanquinho. Pra isso pretende perder mais dez quilos e encarar o bisturi. “Eu quero fazer a abdominoplastia ainda no primeiro semestre”. Alguém duvida que ele vai conseguir?

É importante atentar, porém, que colocar em prática o plano de se modificar não pode ficar atrelado a um período específico do ano. Daisy Miranda, a especialista, é quem ensina: "Cada um elabora um ritual de acordo com o seu funcionamento psicológico, de acordo com o seu movimento de vida. Não é o final de cada ano que decidirá a nossa vida, isso é ilusão neurótica".  E vai além: . "Podemos realizar mudanças a qualquer tempo se conseguirmos nos desprender dos ciclos, das caixinhas fechadas. Deveríamos refletir e pararmos de nos aprisionar a tantos ritos e assim tornar nossa vida contínua, leve, natural e com as mudanças acontecendo em seu devido momento. Num sábado de chuva qualquer, após uma viagem maravilhosa, depois de conhecer uma pessoa importante e assim por diante".

A promessa de fim de ano, se for uma obrigação, pode passar a ser um fardo. Ela é saudável à medida das limitações físicas e psíquicas de cada indivíduo. O mais importante é a conscientização da necessidade da renovação e o exercício da autoanálise - os verdadeiros propulsores da mudança, o que nos faz querer ser melhores. O bom mesmo é encarar a promessa como um primeiro passo na tentativa de se reconstruir. Não deu para cumprir o que escolheu como meta para esse ano? Tem um réveillon aí na porta, o momento propício para se renovar os votos de uma vida melhor e mais feliz.

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