Não basta estar apaixonado. Há que se gritar para todo mundo ouvir, registrar longas declarações ao ser amado. A necessidade de externar e eternizar acompanha a história da humanidade. Você, leitor, provavelmente já passou por essa experiência (para alguns, deveras dolorosa): como expressar – em sua total plenitude – sentimentos como o amor? Em tempos de internet e comunicação sem barreiras, ainda existem aqueles que acreditam em uma boa e velha carta de amor.
Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro Campos, um de seus heterônimos, certa vez bradou que “todas as cartas de amor são ridículas”. Certamente porque quando amamos, ficamos bobos. É bom lembrar, porém, que nem só de amores plenos, felizes, vivem as cartas. Como são muitas as formas de amar, mais diversas são também as maneiras de expressar tais sentimentos. Ao longo da história, são muitos os relatos de amores que encontraram nas páginas manuscritas sua mais fiel expressão.
Um dos mais célebres exemplos é do gênio Beethoven. Em cartas endereçadas à sua “amada imortal”, o músico confirmava sua sensibilidade: “(...) sim, resolvi vagar pelas distâncias até o momento em que possa voar até teus braços e ter em ti minha pátria para mandar minha alma envolta em ti ao país dos espíritos”. O compositor alemão viveu por muito tempo em Viena, durante períodos que chamava de “exílio”, e a distância de sua amada era-lhe mais dolorosa que seus males físicos – Beethoven teve a surdez progressiva diagnosticada e perdeu a audição completamente aos 46 anos, no vigor de sua força criativa.
A identidade da “amada imortal” ainda permanece um mistério. Até para os biógrafos mais cuidadosos. Estudiosos sugerem que, talvez, a bem-amada de Beethoven seja alguém cujo nome ninguém nunca soube.
Da Alemanha para a França, surge a história da Condessa Du Barry, filha ilegítima de uma cozinheira com um frade, de origem humilde, que acabou se tornando amante do rei Luís XV. Notória por sua beleza, a condessa virou amante oficial do monarca, dividindo-o com Maria Antonieta. Tal “exclusividade” não a inibia. Muito ao contrário: era uma mulher realista e desejava “servir” com exclusividade um homem por quem se apaixonara. Biógrafos dizem que a “nobre” vivera muitos romances, mas o admirador não-revelado detinha sua atenção.
“Sim, caro amigo, já lhe disse e repito: tenho-lhe grande afeição. Você disse-me o mesmo, mas de sua parte trata-se de mero arrebatamento (...) vou fazer-lhe uma proposta: preste atenção. Não desejo continuar como caixeira: quero ser um pouquinho mais senhora de mim e por isso gostaria de encontrar alguém que me sustentasse. Se não lhe quisesse bem, trataria de lhe arrancar dinheiro. Em vez disso, digo-lhe: você devia começar alugando um quarto para mim e mobiliando-o, mas, como não é rico, pode instalar-me em sua casa. (...) se gosta de mim, aceite a proposta, mas se não gosta, tentemos a sorte, cada um por seu lado”. Não à toa, a Condessa Du Barry é um ícone de mulher que vivia à frente do seu tempo.
Da Europa para o Brasil
O escritor alagoano Graciliano Ramos, famoso por sua sisudez, revelou seu bom humor em uma carta de amor. Com uma pitada de sarcasmo, é bem verdade, mas por meio de intensas linhas. Era final da década de 1930 e a destinatária era Heloísa Medeiros. “Tenho tanto a te dizer... Nem sei por onde começar, fico indeciso, com a pena suspensa, vendo interiormente esses olhos que me endoideceram quando os vi pela primeira vez (...). É verdade que és minha noiva? Não é possível, sei perfeitamente que tudo isto é um sonho, que vou acordar, que ainda estamos em princípio de dezembro, que tu não tens existência real”. Qualquer semelhança de sua vida – e suas angústias amorosas – com algumas de suas obras não terão sido meras coincidências.
É sabido que artistas (escritores, escultores, artistas plásticos) buscam inspiração para suas obras em suas vidas pessoais. Os gregos personificaram essa busca e a nomearam: “musa”. A máxima é levada a cabo por Machado de Assis para sua Carolina Novais, portuguesa e mais velha que o escritor. Casaram-se e viveram juntos por 35 anos. Consta que na mais perfeita harmonia. “Acusa-me de pouca confiança em ti? Tens e não tens razão, confiante sou; mas se não te contei nada é porque não valia a pena contar (...) Escreve-me e crê no coração do teu Machadinho”.
O escritor e poeta Olavo Bilac, menos contido, dizia, em cartas curtas e apaixonadíssimas, à Amélia de Oliveira: “Amo-te! Amo-te! Como é bom poder enfim dizer o que nos enchia o coração! Amo-te, amo-te, amo-te cegamente, loucamente, mais que a tudo!”
Depois do sim, o êxtase
Lembrado como um escritor pornográfico, com um estilo que mistura episódios autobiográficos com ficção, Henry Miller escrevia cartas passionais, intensas... obscenas. Grande parte de sua obra tinha como inspiração June Mansfield, sua segunda esposa. Apesar do casamento, Miller manteve um ardente caso amoroso com a também escritora Anaïs Nin, outro ícone da literatura erótico-pornográfica. As cartas de amor trocadas entre eles – neste interessante triângulo amoroso – transparecem que Henry Miller manteve a forma, mesmo após a doença que o afastou de sua antológica fome sexual.
“(...) Preciso de você... Mas eu devo vê-la: vejo-a vibrante e maravilhosa e ao mesmo tempo tenho escrito para June (...) Anaïs, fique do meu lado. Você me envolve como uma chama acesa. Anaïs, por Deus, se você soubesse o que estou sentindo agora”.
“Eu a amo. Amei-a quando você veio e se sentou na cama - toda aquela segunda tarde foi como um nevoeiro morno (...) Você desperta em mim tamanha mistura de sentimentos, que não sei como me aproximar de você. Apenas venha a mim - chegue mais perto de mim. Será belo, eu lhe prometo. (...) Tive um pensamento esta noite de que era com uma mulher como você que eu devia ter me casado”. Apesar das constantes insistências, Anaïs Nin não largou o marido, embora Miller tivesse se divorciado.
Um amor passional, sobretudo intenso e artisticamente produtivo. Assim estudiosos definem o relacionamento da pintora mexicana Frida Kahlo com o muralista Diego Rivera. Frida teria dito a Diego, dias antes do casamento, que pedia dele “lealdade, não fidelidade”. Uma frase antológica, atribuída a Rivera, definia bem o estado de espírito do artista: “Dou aperto de mãos com mais afeição do que com que vou para a cama”.
Assumidamente bissexual, dona de uma biografia controversa, intensa, foi para Diego Rivera que Frida endereçou suas letras mais apaixonadas. “Minha noite é como um grande coração batendo (...) Minha noite me precipita na ausência sua. Eu o procuro, procuro seu corpo imenso ao meu lado, sua respiração, seu cheiro (...) Meu corpo, esse azarão mutilado, quer esquecer-se por um momento no seu calor, meu corpo pede algumas horas de serenidade(...) Minha noite pensa em você, sonha acordada (...) Minha noite acentua a minha solidão, todas as minhas solidões”.
Relação escrita
Não é só entre grandes personalidades da história que se encontram relatos de amores arrebatadores expressos em missivas de paixão. A funcionária pública Ana Maria Malcher foi passar férias no Rio de Janeiro, em 1988. E conheceu André. “Ficamos juntos, mas foi por um fim de semana”, conta, entre risos. Na volta para Belém, o carioca, flamenguista doente, não lhe saía dos pensamentos. Foi quando decidiu escrever uma carta. “Foi uma carta tímida, achei que ele nem responderia”. Mas André respondeu.
“Achei uma graça ele ter contado que, desde que nos separamos, a sorte o havia abandonado. Começamos a trocar correspondências, desde então. Seis meses depois, quando voltei ao Rio, ficamos mais tempo juntos, e como só havia dois modos de comunicação na época – cartas ou telefone – mandava várias cartas e ligava todos os dias para desejar ‘boa sorte’ em um concurso que ela ia fazer”. Engana-se quem acha que a história do casal foi resolvida por meio de cartas. Eles ainda se separaram e André foi atrás de Ana, em Belém... de onde não saiu mais. São casados há oito anos, têm dois filhos e maços de cartas trocadas durante o tempo de namoro.
A aposentada Maria Lúcia Araújo de Moraes tem quase 80 anos e se lembra “como se tivesse acontecido ontem” do primeiro encontro com o marido – já falecido –, Guapindaia Assu Moraes. “Eu era professora de um sobrinho dele e um dia acompanhei o pequenino até sua casa. Foi quando vi o Guapindaia pela primeira vez. Não foi amor à primeira vista. Pelo menos não da minha parte para com ele, mas depois desse encontro, ele começou a fazer a corte”, ri. Guapindaia era viúvo; havia casado outras duas vezes e, por isso, enfrentou alguma resistência da família de Maria Lúcia.
“Ele passou a ir à escola e dizia que eu tinha olhos iguais aos da Elizabeth Taylor (Maria Lúcia tem olhos azul-violeta). O namoro começou firme e forte: o pretendente teve de ir à casa da família Miranda de Araújo, para pedi-la em namoro. “Aí, ele escreveu uma carta de amor, que guardo até hoje e tinha um único versinho: ‘tu me viste, eu te vi. Tu me amaste, eu te amei. Qual de nós amou primeiro? Nem tu sabes, nem eu sei’. Vivemos uma bela história de amor. Sempre que ele podia, escrevia cartas, deixava bilhetes pela casa. Guardo todos com muito carinho”.
Se você ainda fica perplexo com as declarações de Álvaro Campos, saiba que a redenção vem alguns versos depois... “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.
