
Há dez anos, começavam a surgir e se popularizar as chamadas “redes sociais”.E, quem diria, elas rapidamente se tornaram alguns dos endereços mais acessados por dia, a cada minuto, a cada segundo. Quem nunca viu um amigo checando seus perfis sociais a cada quarto de hora, ou se percebeu com um desejo irrefreável de dar uma olhadinha se alguém gostou da sua nova fotografia compartilhada nas redes? Pouquíssimas pessoas podem se gabar do feito, hoje hercúleo, de resistir à comunicação instantânea e cheia de atrativos visuais e interativos.
Uma pesquisa no ano passado, feita em julho pelo Ibope/YouPix, apresentou um resultado significativo sobre os brasileiros nas redes sociais – em particular sobre o Facebook, que, em 2012, já encabeçava a lista líder de audiência na internet. Os dados indicam que 92% dos jovens que têm acesso à grande teia deram pelo menos uma passadinha pelas redes sociais disponíveis. Sem o critério da faixa etária, esse número equivale a 78% dos internautas.
Portanto, não é por acaso que encontrar pessoas que estejam fora deste redemoinho comunicativo virtual é quase tão difícil quanto achar uma agulha em um palheiro. Mas elas existem - e não economizam nos argumentos para não fazer parte da maioria. A Revista Leal Moreira apresenta uma “raça” em extinção: os desconectados.
Para o economista Paulo Oliveira, 28 anos, esse conhecimento não o permite ver as mídias sociais sem a sombra de sua função comercial – e sem as segundas intenções nelas presentes. Segundo ele, não dá para conviver com o fato de que “o que importa é seu valor potencial como consumidor. Não é de graça que você está lá: você faz parte do lucro deles. Todos que estão inseridos neste contexto têm um valor monetário. Essas plataformas digitais utilizam a interação para se autopromover no mercado”.

O estudante acredita ainda que existe certo exibicionismo de quem não vive sem alimentar seu perfil; e explica que sua recusa a fazer parte disso deve-se também à superexposição, que, em sua opinião, é maléfica. “A grande maioria está nas redes porque gosta de exibir um pouco a sua vida e vê isso como uma coisa boa. Para mim, não é. As pessoas acabam expondo toda a sua privacidade de maneira não regrada, em mínimos detalhes. Incomoda qualquer estranho poder acompanhar o que eu faço. Além disso, não tenho paciência para ficar atualizando meus passos. Prefiro viver ”.
No dia a dia, Paulo investe seu tempo em coisas diversas, como estudos, leituras, filmes e até a culinária– conjunto de atividades que ele considera valer mais à pena na hora de preencher os espaços livres. “Quem tem rede social, passa bastante tempo atualizando, checando... Eu estudo bastante, tenho atividades físicas, leituras, filmes e até mesmo novos conhecimentos pra adquirir. Tem várias coisas para fazer. As pessoas é que não querem muito isso. Eu até me aventuro na culinária - tentar uma receita nova é uma coisa criativa que toma tanto tempo quanto uma rede social. Se as pessoas pensassem nisso, talvez fizessem mais coisas diferentes”.
Quem também achou que o seu tempo estava sendo gasto de maneira errada foi o advogado e empresário Victor Oliveira.Há um tempo, ele foi alguém ativo no meio virtual... mas resolveu fazer outras coisas. “Eu tinha Facebook, porém logo percebi que ficava olhando perfis de quem eu conhecia, de pessoas com quem eu não falava mais e até de quem eu não conhecia. Vi que estava empregando um tempo considerável em algo desnecessário. Assim, decidi excluir minha conta. E não me arrependo”. Ao contrário do que pode pensar a maioria, Victor Hugo garante que, em sua vida, não houve problema por estar fora do contexto das redes sociais. “Não ter perfil não cria nenhuma espécie de barreira em minha vida.Se eu preciso me comunicar com alguém, simplesmente envio uma mensagem ou ligo pelo celular”.Mesmo assim, as pessoas reclamam e insistem para que o advogado volte a ter uma convivência virtual ativa. Ele responde sempre tentando contornar a situação já que essas discussões se transformaram em verdadeiros ringues de batalha dos aficionados contra os desconectados. “Eu digo que não tenho, mas não gosto de me indispor com ninguém sobre esse assunto.Para mim, se tornou religião, fé,crença... cada um tem sua concepção individual sobre rede social. Prefiro não discutir, mas não desrespeito quem tem”.
Embora o advogado saiba exatamente o que fazer com as horas que consegue poupar longe das redes de relacionamentos, reconhece que o potencial econômico é muito forte e isso poderia influenciar positivamente em sua própria imagem. “A principal vantagem é que sobra tempo para fazer algo mais produtivo, pessoal ou profissionalmente. A desvantagem é perder um pouco na promoção de seu marketing pessoal já que as redes funcionam como excelentes veículos de publicidade”.
Já para a pedagoga Eliete Simões, a utilidade da internet está apenas nas fontes de pesquisas - que são inúmeras e muito ricas, em sua opinião. Das redes sociais e dos aplicativos no celular, ela só ouve falar. “Eu uso a internet só para consultas técnicas dentro da minha área. Meu celular é dos mais simples. Não compro smartphone porque eu não vou usar as tecnologias. É parte do meu perfil, não tenho esse desejo. Talvez eu faça parte desse pequeno percentual porque eu trabalho 12 horas por dia, e não tenho tempo para utilizar esses recursos”.
Mas não se engane: não é só por causa da rotina extensa de trabalho que Eliete não participa das redes de relacionamento. É também porque não gosta do contato virtual. Ela é do time dos que preferem – por formação e costume – a relação presencial. “Na minha função de pedagoga, faço muito contato visual. Então eu não me preocupo em usar a virtualidade. As minhas ações são pessoalmente - eu e o aluno, ou eu e projetos: no toque, no frente a frente.Eu gosto assim”.
A pedagoga reconhece a importância desse fenômeno na sociedade, mas prefere ficar de fora. Embora conviva o tempo todo com jovens nas escolas em que dá aula, ela escolheu se afastar desse tipo de interação. Mas, por vezes, tem de conviver com a cobrança das pessoas para que se inclua nesse universo. No entanto, além de exigirem sua presença, ainda criam perfis em seu nome que ela se recusa a utilizar. “Mesmo em contato com jovens, não participo das mídias. Eu busco me informar sobre este movimento social, mas não uso. As pessoas perguntam se eu tenho [um perfil em alguma rede], me convidam e eu sempre digo não. Criaram um pra mim que eu nunca alimento. Eu não gosto, não tenho afinidade. Talvez pela minha faixa etária, por não ter sido estimulada a usar...”.
Como tudo tem uma razão de ser, Eliete dá sinais que não é só por falta de identificação. É sim uma forma de proteger sua intimidade - algo que a maioria das pessoas que orbitam no universo virtual não vê problema em evidenciar. “Há certa exposição, uma ostentação da vida social das pessoas. Isso é muito negativo. A maioria expõe ao extremo sua vida particular. Exibe onde come, onde vai... Na minha opinião, isso não interessa a ninguém. Fazendo isso, elas se colocam em perigo sem perceber. O jovem expõe o corpo por meio de imagens que o ‘objetificam’, e isso é péssimo para a formação dele. Essa exposição exagerada, que, de onde estão, precisam postar imagens suas para outros comentarem ou curtirem, é desnecessária”, opina.
Para quem não imagina uma vida longe do movimentado mundo virtual, uma rotina como a de Eliete pode parecer fora de realidade, ela, porém,acredita fazer parte de uma minoria, que investe no contato presencial como o mais eficaz na comunicação, na amizade e na manutenção das relações duradouras. “É totalmente possível viver desconectado, embora convivamos com a conectividade o tempo todo. Prefiro estar perto de alguém para conversar sobre alguma coisa. Creio que o calor humano é de suma importância nas relações pessoais. Não suporto o distanciamento e isolamento causados pelo convívio via rede social. Escolho sempre estar perto das pessoas de carne e osso”. E ela finaliza com uma reflexão: “Será que não é o momento de nos desligarmos um pouco das telas e conversar mais com quem está ao nosso lado?”.
