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Sem pressa

Juliana Sinimbú está diferente. É só olhar com um pouco mais de atenção. Embora simpática e receptiva como sempre foi, há nela algo de novo e surpreendente. Depois de muito observar, é mais fácil perceber a nuance que se manifesta: serena e crescida, Juliana está mais madura. Abandonou a pressa dos afobados e resolveu viver a musicalidade e sua própria vida com mais consciência. Parte disso é fruto da experiência cotidiana e das vivências significantes obtidas com a música. A outra parte é Flora – o bebê que Juliana espera, e que modificou sua maneira de ver as coisas.
 
Agora, ela busca definir-se, tanto como artista quanto como mulher. Reestuda projetos, reescreve rotas e se compreende muito mais – e melhor.
 
Foi na sala de sua casa que ela conversou com nossa equipe. Ela falou de música, produção artística, liberdade de preconceitos e maternidade – uma das principais forças catalisadoras do seu crescimento. Confira:

 

Como tá sendo o primeiro contato com a maternidade?

Eu digo que as palavras mais faladas ultimamente são Amazônia, Coca-Cola e Flora (risos). Eu nunca me visualizei agregando ninguém, essa coisa de filho, marido. Mas do nada veio a Flora. Ela é filha de um anticoncepcional (risos). Mas Deus me mandou e é muito legal. O nosso eu sai do lugar, vai pra outro que não é na gente. A gente vira uma pessoa melhor, menos egoísta, mais feliz. Existe aquela coisa do masoquismo materno: a filha te chuta e você chora de emoção (risos). Daqui a dois meses ela tá aí. É o amor da minha vida.

Você tá ansiosa?

A gente sempre fica ansiosa pra ver o rostinho dela. Mas eu quero que ela nasça de nove meses. Eu quero levar ela pra casa. Tô fazendo o quartinho dela... Louca pra, quando ela chegar, eu dizer “minha filha, esse é seu quarto. Não é rosa, é verde, mas foi a mamãe que escolheu” (risos). Eu estou muito feliz. Esse bebê chegou pra me dar uma coisa que é muito valiosa, que é a felicidade, é ressignificar a importância das pessoas, acreditar em Deus. Saber que agora, além de ser uma pessoa, eu sou uma casa. O tempo que ela tá aqui, dentro de mim, eu tenho que fazer de tudo pra ela se sentir feliz, dentro dessa casa.

Como você tá enxergando todas essas mudanças?

2012 foi um ano em que eu estava entre São Paulo e Belém, porque eu estava com o Paulo André [noivo de Juliana], e resolvi ficar indo pra fazer contatos, pedindo calma pra mim mesma... Porque, hoje em dia, os artistas estão muito atrás de alguma coisa que eu não sabia se tinha. “O que a Juliana tem de diferencial?” Nem eu sabia dizer. Aí eu decidi começar a compor melhor, me reservar um ano pra fazer isso direito. Em agosto veio a notícia da Flora e em dezembro veio a notícia do Natura Musical [projeto da empresa que incentiva artistas por meio de patrocínio]. Como se fosse um aviso, dizendo “te prepara que em 2013 tu vais ter que ser mãe, cantora, sair da tua casa pra casar...”. Mas tá sendo maravilhoso, não estou criando muitos dramas em cima disso. Falei pro Paulo André: “pegue na minha mão e vamos fazer da nossa vida o melhor possível”.

Como a maternidade modifica a cantora, a profissional?

A Flora só vem a acrescentar no meu trabalho em todos os aspectos. É um fenômeno que me deixa mais sensível, mais criativa... Menos focada na Juliana e mais focada no trabalho da Juliana. Acho que era isso que faltava. Junto com a Flora, já veio a oportunidade de lançar um disco, que é o Una – um projeto que eu vinha amadurecendo, que seria formado por 4 EPs, e que virou um disco. E assim: Flora saiu, eu tenho que cumprir cronograma. Ela chega em abril. Final de maio, eu tenho que estar no estúdio pra em novembro estar com o disco na mão. É uma correria maravilhosa. Fora isso, eu não sem cozinhar (risos). Imagina, ter uma filha no ano em que você se muda pra aquela que vai ser sua casa, e não saber fazer um bolo... Mas vai rolar (risos).

Você sempre compôs ou houve uma quebra entre o caminho que você vinha percorrendo como intérprete e o caminho que você percorre hoje como compositora?

Teve uma quebra muito louca. Eu era uma intérprete que estava afim de compor, mas tinha uma inveja branca dos amigos compositores. Eu pensava assim: “não vou compor qualquer coisa com esses caras como Felipe Cordeiro e o Renatinho [Torres, cantor e compositor] andando do meu lado”. Aí teve um dia que pedi pro Felipe me dar alguma coisa, e ele me deu um refrão pra trabalhar. Isso deve ter sido numa quarta. Na sexta, acordei umas 6h da manhã com a música inteira na cabeça. Era “Sonho Bom de Fevereiro”. E ela não é pequena, a letra dela é enorme. Mas foi coisa de 10 minutos: escrever, reler, reconstruir algumas coisas, e tava pronta. Liguei pro Cordeiro, cantei a música e ele ficou positivamente surpreso com o resultado. Aí deu início a um período de fertilidade musical. O processo de intérprete é uma coisa que eu curto até hoje. Nunca vou deixar de ser intérprete. Mas o processo da composição acontece pra você poder dizer exatamente o que você quer dizer. Nesse processo, a gente comete algumas injustiças se for escolher um estilo. Hoje em dia se cobra muito o rótulo. Se me perguntam “tu cantas o que?”, eu respondo “eu sou cantora”. Canto coisas minhas, dos outros, coisas diferentes, e tudo dentro da minha linguagem musical. No que eu canto está tudo o que eu quero dizer. E o que eu quero dizer não precisa vir só da letra. Pode vir por meio da melodia, do conceito.

Você canta coisas bem distintas, do samba mais chorado a faixas como Quero-Quero, da Iva Rothe, que tem uma pegada mais latina...

Meio axé, né? Meio Sarajane.

É (risos). Como experimentar essas linguagens diferentes te influencia hoje na hora de compor, de selecionar repertório...? Isso dá mais consciência na hora de fazer as escolhas?

Belém é uma cidade meio pequena, né? E ser uma pessoa pública em Belém é complicado, porque, para tudo que tu fazes, tem sempre alguém para fazer um julgamento. E todo artista precisa de um tempo pra experimentar e ver o que ele quer. Eu comecei a cantar com 20 anos. Nunca tive aquele sonho de criança, em que um velhinho veio e disse “você tem uma estrela”... Não tive nada disso. Comecei a cantar porque eu quis, e de enxerida mesmo (risos). Tive sorte de ter pessoas que me ajudaram muito, porque quando eu comecei era ruim mesmo. Já melhorei muito, e tenho que aprender muito mais. Mas esses seis, sete anos de carreira foram fundamentais pra hoje eu começar a definir o meu trabalho, fazer as minhas músicas. Esse negócio de experimentar várias coisas até chegar numa linguagem é necessário, e pra mim foi muito saudável, mesmo que muitas pessoas tenham julgado isso.

Você se sente muito cobrada nesse sentido?

Já senti mais. Hoje em dia não tô muito aí pra isso. Isso é fruto do ano em que eu parei pra respirar, tirar todos os grilos e elefantes das costas. Muitas pessoas cobraram a presença da Juliana nesse ápice da música paraense, dos grandes eventos. Mas não era o meu momento. Eu acho que tá tudo certo, e na hora em que eu tiver de estar lá, estarei. Perdi a pressa, sabe? Perdi pra poder chegar num trabalho legal, definido. Eu tava sentindo falta de definição. Ainda estou buscando, mas estou bem mais próxima do que quero hoje. Mas é assim: as meninas do choro me chamam pra cantar, e pra mim é irresistível, não vou recusar o convite. Fiz o show com elas e foi lindo, acho que eu era quem mais estava sentindo prazer de estar naquele palco. Até negociei os enjoos com a Flora, expliquei que eram músicas difíceis, e ela se comportou direitinho enquanto eu estava cantando (risos).

Você parece uma artista bem disponível: faz participação em show de choro, de rock, dança brega com o Arthur Espíndola no Café com Arte (risos)... Isso reflete uma filosofia pessoal?

É (risos)... Mana, já pensaste se eu for ter preconceito com alguma coisa? Deus me livre. Preconceito é um peso que você coloca no pé e te impede de andar. No meu caso, me impediria de conhecer pessoas maravilhosas, ouvir canções maravilhosas, independente de elas virem do pagode, do axé, disso ou daquilo. Em 2011, fiz participação no DVD do Nosso Tom. Participei de shows do Madame Saatan, canto com Arthur Espíndola, canto coisas mais densas com o Renatinho [Torres], vou fazer agora o DVD do Pinduca... Não vou colocar uma barreira em mim mesma. Estou num momento de participar. Enquanto a gente não amadurece como artista, a gente tem que abrir portas e janelas, escutar todo tipo de gente. Não tem porque a gente se restringir.

Me parece que você tá vivendo um período de transição...

Eu acho que já estou começando a sair desse período e me definir como artista. Mas a transição faz parte do aprendizado. Nós artistas funcionamos como esponjas. Você pode ir ao show da Badi Assad ou do Edilson Moreno, e vai funcionar da mesma maneira. Você assiste e suga tudo que for bom pra você.

O que você gostaria que um artista novo sugasse de você quando visse seu show?

Égua, mana, pera lá... (Juliana para e reflete um pouco) Eu não sou uma Maria Bethânia para o cara chegar e achar “meu Deus, o palco dela é demais, a voz dela é demais...”. Eu diria que ele poderia sugar a oportunidade de ouvir coisas novas. E a paixão. Compreender que eu tô ali, dando 100% de paixão no que eu faço. Se ele conseguir sugar isso, eu já tô feliz.

Entre agenda, disco e Flora, quais os planos pra 2013?

Agenda que não para, né? Vida, disco, Flora, aprender a cozinhar, cuidar de filha, levar o berço pro estúdio (risos)... Em fevereiro, canto com a Amazônia Jazz Band no aniversário do Theatro da Paz, com um repertório formado exclusivamente por canções de Waldemar Henrique. Em abril ou maio, vai ter o lançamento do meu clipe, de uma faixa inédita, que gravei com 3 meses de grávida, dirigido pelo Arthur Rosa França [diretor do clipe “O Freguês da Meia-Noite”, do rapper Criolo]. O processo depois disso é bem rápido: vem o clipe, vem o disco e depois os shows. E no meio disso, tem Flora. Não vai ser tudo tão corrido porque tem ela, e eu não abro mão nem vou deixar a minha pequenina. 

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