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Senso crítico como essência

Um dos maiores nomes da fotografia na região ganhou recentemente a Ordem do Mérito Cultural - o mais importante prêmio da área no país, cedido às personalidades que se destacaram pela contribuição de seus trabalhos a cultura nacional. Paulista, radicado no Pará, Miguel Chikaoka, é reconhecido pela sensibilidade com que vê e retrata questões sociais. Chegou a Belém na década de 80 e foi um dos fundadores da Associação Fotoativa, que hoje se tornou referência no ensino dessa nobre arte.

Os trabalhos voltados para a arte-educação, com destaque para a técnica artesanal e o resgate à essência da fotografia, impulsionaram e fizeram de Chikaoka um dos mais célebres nomes da fotografia nacional. Com os pés no chão e sempre atento ao que acontece no mundo, ele fala da importância desse prêmio e destaca os desafios da fotografia na era digital.


Site da Revista Leal MoreiraAs técnicas da fotografia são importantes, mas em suas oficinas você destaca e remonta às origens desse processo. Em sua opinião, o que seria um bom fotógrafo?

Miguel Chikaoka - O bom fotógrafo é um ser com qualidades humanas, uma pessoa que tem senso crítico, humildade, coragem, arrojo e sobretudo se posta em uma condição ética e moral. A fotografia é um meio em que você pode colocar e expressar essas qualidades da relação que você mantém com o ambiente. Dentro dos parâmetros comerciais, o bom fotógrafo é aquele que faz as fotografias fenomenais, espetaculares e uma excelente imagem para um determinado fim. O estigma atual de fotógrafo está plantado numa relação, muita das vezes de mercado. Eu aprendi desde pequeno a crescer, e crescer não no sentido de despontar verticalmente, mas sim estar integrado ao meio social, ambiental etc.

S. R.L. M - Qual a importância da luz no processo que você adota?

M.C - A luz como elemento físico te faz perceber o mundo muito além da estratosfera. Você perceber, por exemplo, o brilho de uma estrela que está distante há muitos anos-luz, que são distâncias intangíveis do ponto de vista físico. Quando eu olho para uma estrela, eu me sinto numa dimensão incrível e até cito isso em minhas atividades. Quando eu trabalho como um pinhole ou com uma câmera escura, é um momento de reverência a esta potência. E talvez os povos primitivos tenham tido mais experiência e tirado mais aprendizado, porque se relacionaram nesse campo de universo muito mais atento. Porque às vezes aqui na grande metrópole, com as interações muito intensas, não conseguimos perceber o que está ao nosso redor, como por exemplo, o simples ato de olhar para o céu.

S. R.L. MA vontade que você tem de ensinar é facilitada com a vontade de aprender de seus alunos?

M.C – Eu tenho vontade de aprender também. Na verdade a gente veio ao mundo para aprender a morrer. Aprender de uma certa maneira pra mim é aprender a morrer, a se desligar, aprender a deixar o lugar, e é justamente esse vácuo que vai ficando que se torna o ‘aprender a viver’, pelo viés do avesso. Essa disseminação das tecnologias, essa aproximação do indivíduo para ter a possibilidade de ter uma câmera e fotografar, foi potencializada de uma forma mais caseira, mais individual por meio da internet, impulsionado pelas redes sociais... Mas, por outro lado, não se conhece a essência da fotografia. É difícil decifrar o que há por trás do simples ato de fotografar, e é isso que fazemos. Pensar a fotografia como antes das câmeras fotográficas. Eu digo que 80% da fotografia é tratada sem pegar na máquina. Tem que ter noção que a fotografia não se prende à máquina. A melhor câmera é aquela que você vai pegar e fazer o melhor uso dela. A imagem tem que ter a qualidade técnica, mas isso é tão fundamental quanto o que se pretende passar, qual a poética, qual o foco do trabalho que se quer mostrar.

S. R.L. M Onde o fotojornalismo e a  fotografia mais subjetiva se encontram?

M.C – Se não se encontram, se tangenciam, porque todo e qualquer relato, todo e qualquer testemunho, é parcial, é uma verdade não inteira. A história é assim: nós temos uma parte contada de uma maneira, mas isso é muito pouco. Essa é uma versão que aprendemos, contadas por viés muitas vezes duvidosos. E o outro lado? Você ouviu o outro lado? Às vezes isso não está relatado. No caso do fotojornalismo, por conta do timing do processo. Acho que ser fotojornalista hoje é uma coisa bem complicada, porque a corrida contra o tempo é absurda. É uma questão do próprio estágio do processo da informação. Às vezes isso é prejudicial para o público, porque se a pessoa não tem um senso crítico ou se não der uma parada pra pensar, você absorve, mas não processa. A pessoa recebe um volume gigantesco de informações e isso se dá como conhecimento, mas eu não entendo isso como conhecimento. É uma informação que chegou e que as pessoas processaram minimamente para poder replicar isto. Eu acho que a gente está num momento bem complicado, porque o acesso à informação cria uma sensação falsa de que somos bem informados. Volume e quantidade nós temos, o problema é que essa qualidade é uma coisa muito duvidosa. O tempo em fotografia é interessante quando abrimos para a luz entrar na câmera e atingir a superfície. O instante fotográfico não tem que ser em segundos, ele pode acontecer em horas. A fotografia permite materializar coisas que o olho nu não é capaz de perceber, tanto no tempo curto, na fração de segundos, quanto no tempo longo, onde a luz foi se constituindo, foi se modificando e o resultado é a soma dos momentos.

S. R.L. MFechar 2012 com a premiação da Ordem do Mérito Cultural foi bem vinda. Ainda mais por ser um prêmio considerado de alto nível no que diz respeito à contribuição para a cultura. Como você recebeu isso?  

M.C – Acho que a questão desse reconhecimento é sempre bem vinda. Eu tenho consciência dessa circulação que faço desde os anos 80 em vários contextos, discutindo, pensando, praticando, trocando. Mas esse nível de reconhecimento eu não esperava, porque existem colegas que fazem esse tipo de trabalho há mais tempo e que poderiam ter sido contemplados. Acho que houve uma questão de ponderação por eu estar na região norte, não trabalhar no grande centro e ter alcançado uma projeção nacional. Daí julgaram que o trabalho que eu faço tem uma importância. Acho isso bom, do ponto de vista de saber que existe essa visão de reconhecimento. Mas temos que ter cuidado, porque às vezes a coisa é feita de modo a contemplar apenas para fazer média, o que não é o caso. Isso não muda em nada aquilo que continuo fazendo, vou continuar praticando com a mesma paixão, com a mesma dedicação, porque é algo em que eu acredito. Jogaram o holofote no que estamos fazendo, portanto é uma potencialização poder levar essas questões, essa problematização do olhar a fotografia como algo muito mais do que produção de imagem em si. Fotografia não é só, portanto, algo que resulta de um dispositivo que captura imagem. A fotografia está na cena. Particularmente, a fotografia paraense está pulsando na cena brasileira e internacional. Nós temos um compromisso muito grande, voltado para a formação de pessoas que introduzam essas práticas, abordagens não formativas na área de fotografia, mas formativas na questão do ser humano, onde ele possa ser mais crítico, mais capaz, criativo, arrojado em todos os sentidos. O bom fotógrafo pode vir desse processo, necessariamente não precisa vir de um curso de fotografia. Essa iniciação ao processo ajuda a termos indivíduos capazes de serem excelentes fotógrafos, sem necessariamente estarem no mercado. Pessoas que são capazes de pensar o mundo de maneira mais crítica.

S. R.L. MQue desafios você vê, no que diz respeito ao ensino da fotografia?

M.C – Quando se fala em educação, que não é uma coisa pontual que você está fazendo em um núcleo ou em uma pequena comunidade, temos que pensar como isso pode chegar numa instância tal que se transforme em política pública. Não de inserção do ensino da fotografia na escola pública, nos primeiros momentos da vida do cidadão, da criança, do adolescente... Mas ver que a fotografia pode estar tendo um ganho enorme quando você coloca nesse estágio de maneira aberta, de maneira transversal. Você faz um percurso do ‘bê a bá” de onde nasce o mundo das imagens. Na verdade, não é só a câmera. Quando você estuda o processo de formação da imagem, de uma integração, de um enriquecimento da luz como lugar, você está trabalhando seus próprios sentidos. Porque nossa percepção de mundo se dá nesse modelo, nesse dispositivo que a gente pode construir e interagir e experimentar esse momento. E aí ficam indagações, porque a proposta não é de uma abordagem que de pronto você vá esmiuçar a ciência da luz, da ótica, da física. A ideia é deixar um rastro de experiência que futuramente vai conectar uma coisa com outra. E isso tem que se formar com a experiência de vida da pessoa, a base de formação nesse processo que foi se constituindo como metodologia.

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