
Os olhos vibram assim como as notas musicais que saem de sua boca. O som ritmado está sempre presente, seja quando conta uma história ou quando fala sobre algum assunto casual. Iva Rothe traz nas manifestações do corpo a marca de quem vive pela arte. Com formação acadêmica em Música, a cantora paraense tem um processo peculiar de criação e limites fluídos, que fazem de seu trabalho uma combinação suave de diversas influências de épocas distintas. Uma trajetória artística que não se prende ao começo ou ao fim, mas que se baseia na ação.
Além de soar natural em seu trabalho, Iva matura suas ideias com paciência e sensibilidade. Ela já lançou três discos e avalia cada trabalho como resultado de experiências estéticas e pessoais costuradas, capazes de gerar frutos que vão além da música. Tanto que dois anos após o lançamento de seu último disco “Aparecida”, seus ecos ainda reverberam em novos projetos. “Tenho esse ímpeto de aproveitar ao máximo meus processos e é comum eles se desdobrarem em outras poéticas. É como se eu sempre estivesse em um processo criativo contínuo”, reflete.
Com uma trajetória elogiável e trabalhando no quarto disco de sua carreira, nesta entrevista Iva brinca com palavras e mostra o poder lúdico de um trabalho que se propõe a extrapolar fronteiras e brindar a vida. Confira:
Site Revista Leal Moreira: Você tem uma relação com a música que vem da infância, desde a época em que entrou para o Conservatório Carlos Gomes até sua formação acadêmica. Como isso se reflete no seu trabalho?
Iva Rothe: Eu cresci dentro do Conservatório Carlos Gomes. Comecei com o piano e me envolvi completamente com aquele universo. Passei muitos anos ali, convivendo em meio a instrumentos, a sonoridades, conhecendo pessoas que mudariam a minha vida ao me apresentarem um mundo de possibilidades. Essa minha formação reflete diretamente no meu trabalho, foi ali que o estudo da música se concretizou para mim, o que é primordial no meu processo de criação. Ter contato com a música erudita te abre novas percepções. Além do mais, foi no Conservatório também que conheci o melhor da música popular.
Durante minha trajetória sempre tive essa relação entre o universo do ensino técnico e o da minha busca pessoal, que se costurou entre participações em bandas e outros projetos musicais. A música sempre esteve em todos os momentos da minha vida.
SRLM: Por ter estudado Música você participa diretamente de todo o processo de composição de suas músicas, das letras aos arranjos. Como o seu ato de criar se manifesta?
IR: Quando comecei a compor primeiro pensava na letra e depois pensava na música. Mas aí, com o tempo, achei importante estabelecer o exercício contrário. Compreender como a música pode gerar a letra. Mas esse é o tipo de coisa que se transforma, dependendo do estado de espírito em que você se encontra. Agora estou em um momento em que tento alcançar com a letra o que a música me sugere.
SRLM: Vendo cronologicamente o seu trabalho, como você analisa cada momento da sua carreira?
IR: É engraçado pensar sobre isso porque me proponho a quebrar essa barreira do tempo no meu trajeto. Uma vez, em um estudo de neurolinguística, fiz um exercício que revelou no meu imaginário uma pilha de discos meus. Essa cena me marcou porque era como se aquilo representasse que meu trabalho já está todo feito dentro de mim e que estou “expulsando” cada coisa aos poucos. Já lancei três discos, mas levando em consideração os dois autorais – o meu primeiro “Aluguel de Flores” e o “Aparecida” – posso dizer que cada faixa representa uma sensação que me veio subitamente em algum momento, como quando escuto uma sonoridade que me marca. Além do mais, pesando cronologicamente, meu trabalho também é difícil de classificar, já que músicas que compus antes mesmo de estrear com meu primeiro álbum, só entraram no “Aparecida”, por exemplo. Eu construo conceitos estéticos com esses meus lampejos e os associo de acordo com isso.
SRLM: Em que você está trabalhando atualmente?
IR: Cada disco que lanço faz parte de um processo demorado. Ainda esotu muito focada nos efeitos do “Aparecida”, que em 2011 rodou diversas cidades brasileiras e estrangeiras, em turnês. Já estou maturando o próximo disco também, cujo título será “Dançará”. É engraçado, já tenho parte do conceito pronto... Enfim, é mesmo este meu ímpeto que se releva em outro tempo. No mais, é continuar trabalhando com música e descobrindo novas coisas nesse universo tão amplo.
