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Em 1971, a contracultura estava a todo vapor no Rio de Janeiro. Em plena praia de Ipanema, no lugar que ficou conhecido como “as dunas da Gal”, muitos jovens puderam ser livres, apesar da ditadura militar. Como já descreveu o humorista Zé Simão, ali reinou uma geração que escancarou “as cores, as fofocas, os namoros e as comportas do comportamento”. Para se ter uma ideia, o primeiro topless do Brasil ocorreu naquele lugar, em meio à turba de atores, cantores, compositores, poetas, surfistas e todo o tipo de gente descolada, que ia bater palmas para o pôr-do-sol, pensar em música, teatro e literatura ou simplesmente “fazer a cabeça”. À noite, a pedida era o “Terezão” – apelido do antigo Teatro Tereza Rachel, em Copacabana –, onde teve lugar o mais importante espetáculo musical do verão. No emblemático “Gal A Todo Vapor”, dirigido por Waly Salomão, fez sucesso uma música de um compositor do Morro de São Carlos, ainda desconhecido do grande público, chamado Luiz Melodia. “Tente entender tudo mais sobre o sexo...”, cantava a musa do desbunde, trazendo à luz o artista que mais tarde seria consagrado por sua voz, poesia e swing originais.
“A minha primeira música ter sido registrada em uma voz tão maravilhosa como a da Gal foi um presente inesquecível”, lembrou Melodia. 
Nascido em 1951, filho do sambista Oswaldo Melodia e da costureira Eurídice – por feliz coincidência, o mesmo nome da musa de Orfeu –, o mulato do bairro do Estácio cresceu no meio da música, fosse através das ondas do rádio ou dos acordes do samba que ecoava pelos arredores de sua casa. Interessado também na sonoridade jovem dos anos 1960, ele começou a compor aos 13 anos e logo formou a sua primeira banda, chamada Os Instantâneos. Em pouco tempo, Luiz Carlos dos Santos se tornou Luiz Melodia e fez fama no Morro de São Carlos. 
 
 
Aos 20 anos, ele despertou a curiosidade e os ouvidos de uma turma que frequentava o lugar em busca de samba, da qual faziam parte, além de Waly, o poeta Torquato Neto e o artista plástico Hélio Oiticica.
O estilo inconfundível de Melodia para compor e cantar arrebatou Waly Salomão (1943-2003). O poeta declarou, algum tempo depois, que sempre sonhou ouvir os versos de “Mal Secreto” – canção que escreveu em parceria com Jards Macalé, também lançada por Gal no show “Gal A Todo Vapor” – na voz de Melodia. “Foi uma surpresa para mim quando Waly disse isso”, contou o autor de “Ébano”, que nunca chegou a gravar “Mal Secreto” em disco. “É uma grande música, eu a teria gravado com o maior prazer. Inclusive, gravei “A Voz do Morro” por sugestão de Waly”, lembrou, referindo-se ao clássico de Zé Kéti que abriu o terceiro LP de sua carreira, “Mico de Circo”, de 1978.
Sobre o período da contracultura e o espetáculo “Gal A Todo Vapor”, o humorista Zé Simão narrou, em um depoimento sobre Gal, um episódio engraçado envolvendo Luiz Melodia: “o teatro era o Tereza Rachel, vulgo Terezão, lá em Copacabana. E o diretor do show era o Waly Salomão. E dá-lhe convites. Principalmente quando ele descia o Morro de São Carlos com o Melodia e toda aquela roda de bambas e compositores de sambas. E ficavam na porta. Aí o Waly dava uns abraços psicodélicos na Tereza Rachel e ficava falando loucuras no ouvido dela. Aí convite virava chuva de confete. Os convites eram tantos que a Tereza Rachel ficava nervosa, andando pelo saguão do teatro, num caftan até os pés, gritando: ‘Eu não sou Jesus Cristo!’”.
 
 
Pérola negra
Maria Bethânia foi a segunda cantora a dar voz à obra de Luiz Melodia. O samba-canção “Estácio, Holly Estácio”, homenagem do autor ao bairro onde nasceu, foi lançado pela artista baiana no LP “Drama - Anjo Exterminado”, de 1972. No ano seguinte, depois de ter frequentado inúmeras reuniões musicais na casa de Suzana de Moraes, filha de Vinicius, e tendo Guilherme Araújo como empresário, Melodia se viu frente a frente às oportunidades para realizar o seu primeiro projeto fonográfico.
Intitulado “Pérola Negra”, o LP de estreia do “negro gato” saiu em 1973, pela Phonogram. O álbum reúne 10 faixas e pode ser considerado um dos maiores êxitos de sua discografia. Incensado pela crítica, que frequentemente o inclui entre os maiores álbuns brasileiros de todos os tempos, o LP expõe a versatilidade de um autor que passeia, com a mesma desenvoltura, pelo choro de “Estácio, Eu e Você”, pelo blues de “Abundantemente Morte” e pelo rock de “Pra Aquietar”. São destaques do repertório do disco, além de “Pérola Negra” e “Estácio Holly Estácio”, as músicas “Magrelinha” e “Farrapo Humano”, que anos depois ganharam versões de Caetano Veloso e Cássia Eller, respectivamente.
De 1973 até 2015, Luiz Melodia gravou 14 álbuns e construiu uma obra de valor inquestionável à história da música brasileira. Ainda assim, em 1995, em entrevista à Folha de São Paulo, ele reclamou: “eu sou pouco gravado, tem muita gente que eu gostaria de ver cantando músicas minhas”. Hoje, ao ser indagado sobre quem seriam essas pessoas, o artista classifica o episódio como uma provocação. “Reclamei, mas não foi sério”, divertiu-se ele, cuja lista de intérpretes inclui também Elza Soares, Jards Macalé, Angela Rô Rô, Zezé Motta e o grupo Barão Vermelho. Aliás, sobre o ofício de compor – que o poeta Dylan Thomas já classificou como “arte taciturna” –, Melodia explica que não existe um método. “Normalmente, a melodia e a letra vêm juntas, mas, às vezes, também faço só a letra e deixo com outros compositores. Não tem receita”, garantiu.
Paralelamente à sua arte taciturna, o “peregrino sábio dos enganos” também ergueu uma obra sólida como intérprete. Muitas canções, entre as quais “Negro Gato” e “Quase fui lhe procurar”, de Getúlio Côrtes, e “Codinome Beija-Flor”, de Reynaldo Arias, Ezequiel Neves e Cazuza, ganharam versões definitivas em sua voz. Sobre o assunto, Melodia afirma que interpretar também é uma forma de criação. “Na sua realização como intérprete, você inevitavelmente interfere no universo do outro artista”, explicou. A mãe de Cazuza, Lucinha Araújo, já declarou que “a única música que o Cazuza gravou e outro artista fez melhor foi “Codinome Beija-Flor”, com o Luiz Melodia”. 
 
Caindo de lúcido, cantando nas ruas, eu vou
“Zerima” (2014) é o primeiro álbum de inéditas de Luiz Melodia em 13 anos. Desde “Retrato do Artista Quando Coisa” (2001), o cantor e compositor não apresentava uma nova safra de canções. No entanto, sem urgência, depois do período de hiato autoral que incluiu um álbum ao vivo com sambas dos anos 1930, 1940 e 1950, “Estação Melodia” (2007), ele diz não se preocupar com o tempo. “Eu sei que o tempo voa, mas eu não tenho pressa”, garantiu, subvertendo a letra de “Do Coração de Um Homem Bom”, de Ricardo Augusto, que afirma exatamente o contrário: “tenho pressa, porque eu sei que o tempo voa”. 
Em linhas gerais, a maturidade é um tema que norteia as canções do novo álbum, seja para falar da vida, da morte ou dos amores de outrora. A serenidade frente ao curso da vida se traduz na sonoridade cool, despida, onde não predominam os arranjos de metais que sempre deram o tom em seus trabalhos fonográficos, mas sim a voz, a harmonia, as cordas. Ao longo de catorze faixas, ele se alterna entre autor e intérprete com a calidez que caracteriza os seus 42 anos de carreira. A faixa “Nova era”, de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, dá a dica: “essa vida é tão breve / vê se ao menos se atreve / a me querer com mais calor”. Luiz Melodia é sempre fogo.
Das canções de próprio punho, o destaque é a faixa-título, uma bela marcha que o autor classifica como uma “homenagem saudosa” à irmã Marize, morta em 2011. “É uma homenagem a ela, que teve um AVC e morreu praticamente nos meus braços”, contou. A canção, cujo título é um anagrama do nome da irmã, diz: “no céu, você hoje é estrela zerima / que acorda, apaga, ilumina / essa terra onde a gente morre”. Ainda sobre morte e vida, Luiz Melodia faz suas as palavras de Sérgio Sampaio em “Leros e Leros e Boleros”. “Vou me fazer de eterno no meu encontro com Deus”, diz a letra belíssima de Sampaio, de quem o “negro gato” já gravou também, em outros álbuns, “Que Loucura” e “Cruel”. “São canções que me tocam. É a minha maneira de homenagear um amigo por quem tenho grande admiração”, disse Melodia sobre o artista capixaba, morto em 1994.
Mas nem só de saudade pulsa “Zerima”. Em 2009, Luiz Melodia participou do álbum “Vagarosa”, da cantora paulistana Céu, na faixa “Vira-Lata”. E agora, é ela quem participa de “Zerima”, cantando “Dor de Carnaval”. “O que nos aproxima é a admiração mútua”, diz o compositor. O outro convidado do álbum também é um artista da nova geração. No caso, o filho de Melodia, Mahal Reis, que insere um rap no samba “Maracangalha”, faixa inclusa em “Zerima” por ocasião do centenário de Dorival Caymmi, comemorado em 2014. 
Em uma passagem do clássico “A autobiografia de Alice B. Toklas”, a americana Gertrude Stein comenta que, quando se é jovem, parece que muito mais coisas acontecem no período de um ano. Segundo a escritora, com a idade, o tempo se torna mais valioso e traz consigo a clareza do que realmente importa, de quais águas ainda vale a pena mergulhar. Para Luiz Melodia, é assim mesmo. O tempo o ensinou a lidar com as “misérias, armadilhas e arpões”, como canta na letra de “Papai do Céu”. “Só não aprende quem é bobo”, concluiu.
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