
Irreverente como poucos e dono de uma criatividade sem igual, Eloi Iglesias possui um leque de habilidades que o tornam figura incomparável e importante no cenário cultural da região. O cantor, ator, compositor, artista popular e multimídia (como ele mesmo se define), iniciou a carreira na década de 70, inspirado no movimento cultural e político da época. Original e sempre disposto a criar novidades, ele coleciona uma legião de fãs ao longo da carreira. Nos últimos anos, se tornou um dos grandes incentivadores dos antigos carnavais. Para o site da Revista Leal Moreira, Eloi Iglesias fala de sexualidade, carnaval, trabalho e desafios. Boa leitura!
Site da Revista Leal Moreira - Aqui na capital, você é um dos ícones mais importantes quando o assunto é carnaval à moda antiga, com as saudosas marchinhas e as fantasias inspiradas em pierrôs e colombinas. A que você atribui essa força e sucesso todos os anos?
Eloi Iglesias - O carnaval é um folguedo universal, e no Brasil ele tem um diferencial, por conta do clima e das pessoas. É um momento que você tem de ir ao seu guarda-roupa e tirar sua fantasia, que está escondida durante todo o ano. É a hora em que você tem coragem de criar personagens, onde homens se vestem de mulher e vice versa. Daí você pode tirar o que você quiser, dependendo da sua imaginação. Nos desfiles das escolas de samba, está a arte. É a tecnologia transformada, onde os artistas foram além do que se imaginava. O Carnaval é erótico, onde as máscaras despertam o fetiche do que está escondido por trás. É um momento único, onde as pessoas se encontram e desencontram.
S.R.L.M - Durante sua carreira, você também homenageou grandes nomes da música nacional. Roberto Carlos está nessa seleção, só que em uma versão bem diferente... Como você chegou a esse conceito?
E.I - Eu canto Roberto para quem não gosta de Roberto. Faço um Roberto Carlos com uma pegada da década de 60, com um pouco de rock’n’roll, o embalo de Led Zepellin, um pouco dessas coisas que eu escutei. Nesse show, faço um Roberto Carlos diferente, mais irreverente, menos careta, por isso o nome “Que tudo mais vá pro inferno”. Sou fã dele e essas apresentações vêm em forma de homenagem.
S.R.L.M - Mesclar ritmos e cores também são pontos fortes do seu trabalho. Carnaval, rock... E seu maior sucesso tem influência da música pop. Como você avalia essa diversidade?
E.I - Por si só, o brasileiro já é uma mistura, uma verdadeira maniçoba, um ser feito de vários tons. Eu sou um bluesman, que vem do rock'n'roll, mas estourei com uma música pop romântica que é o “Pecados de Adão” - uma música com 25 anos e que até hoje toca e é interpretada por vários cantores. De certa forma, ela fala de uma sensualidade que por muito tempo foi oprimida. Uma música que foi jogada para a sociedade repensar seus valores. Afinal, a sexualidade faz parte da vida de todo mundo. Hoje o sexo é marketing, tudo o que você vende tem uma pitada de sexualidade e ela está na vontade de comer, de tomar, de comprar. E com essa diversidade, acredito que inspirei até os colegas do tecnobrega, que estão em evidência no cenário musical. De certa forma, sou pai de quase todos os movimentos que estão aí, sem falsa modéstia.
S.R.L.M - Você está à frente de eventos que se tornaram tradicionais na capital, como é o caso do ‘Fofó’ e das ‘Filhas de Chiquita’ - todos marcados por um estilo bem característico seu: a irreverência. Esse é o segredo do sucesso?
E.I - As ‘Filhas de Chiquita’ completam 35 anos, e fomos convidados a participar de um filme sobre o movimento GLBT nacional. A gente conseguiu tombar uma festa GLBT que é patrimônio nacional, tombado pelo IPHAN. A festa nada mais é do que um carnaval devoto, uma ala, um folguedo que evolui assim como uma escola de samba, um enredo carnavalesco. Mas isso não é tudo. Precisamos de valorização. Você vê em outros lugares as pessoas reconhecendo sua cultura como um verdadeiro tesouro. Por aqui, precisamos de mais incentivo, mais parcerias públicas e da iniciativa privativa. O Fofó é outro exemplo. Um carnaval democrático, com crianças, idosos, adultos, homens, mulheres, gays, todos embalados ao som de velhas marchinhas. Falta um respeito maior aos artistas daqui, para mostrar que a cultura é de primeira necessidade. Para que nosso carnaval tenha uma força maior é preciso um projeto de turismo bem organizado e um empenho das autoridades. O carnaval tem tudo a ver com a arte. Não digo que ele está ligado somente à arte da dramaturgia, mas também ao figurino, às pinturas, às histórias contadas. A gente não pode deixar a cultura e a arte como uma coisa supérflua, como algo que não é prioridade.
* a “Festa das Filhas da Chiquita” foi reconhecida pelo IPHAN como parte da maior celebração religiosa da América Latina - o Círio de Nazaré, tombado como Patrimônio Imaterial.
