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Sopros do mundo

Alguns poucos músicos (os melhores, geralmente) conseguem que seus nomes sejam imediatamente associados ao instrumento e à música que tocam. Quem pensa em Chopin, pensa em piano. Da mesma forma que o nome de Luiz Gonzaga lembra a sanfona. Assim é com Leo Gandelman. Pensar nele é pensar em saxofone, e no jazz, na boa música brasileira. Depois de tocar com todo mundo que é importante na música, Leo está lançando um novo álbum, “Ventos do Norte”, no qual trata de um assunto pouco estudado: como grandes saxofonistas do Nordeste brasileiro influenciaram os músicos no restante do país e como estes gênios foram influenciados pelo jazzamericano.

Em tempos idos, falar de nordestinos era falar de “gente do Norte”. Os próprios imigrantes referiam-se à sua origem como “quando eu vim do Norte” quando, na verdade, tinham vindo do Nordeste. À época, para os moradores do Sudeste e Sul brasileiros, então ainda mais fortes e predominantes no país do que hoje, o “Norte” era uma grande área que englobava tudo, dos mistérios amazônicos à seca da caatinga. Convidados a tocar nas grandes orquestras do Sudeste e atraídos pelo movimentado mercado criado a partir do desenvolvimento do rádio, estes músicos foram se chegando e se espalhando pelo país. Eles mesmos influenciados por ventos vindos ainda mais do norte. Da América do Norte.

Pelo rádio, estes primeiros virtuosesouviam os músicos americanos e ficavam encantados com a nova melodia e os novos acordes e, sobretudo, com a arte da improvisação trazida pelas bandas, grupos e orquestras de jazz, o maior legado desse estilo musical e dessa cultura musical. Assim, nomes como Luiz Americano, Severino Araújo, K-Ximbinho, Moacir Santos, Netinho, Zumba e Duda trouxeram para o Sudeste esta influência.

A mistura foi tão favorável para os brasileiros que engrandeceu ainda mais a canção nacional, fazendo com que, em alguns casos, os instrumentistas brasileiros suplantassem alguns dos grandes nomes do jazzamericano.

É um tanto desconhecida, mas extraordinária, a história de quando a orquestra de Tommy Dorsey veio ao Brasil, em 1951. Na inauguração dos estúdios da extinta TV Tupi, do Rio de Janeiro, a Orquestra Tabajara – de Severino Araújo (um dos homenageados de Leo em seu novo disco), foi convidada para participar das festividades musicais da emissora, junto com a Orquestra de Tommy Dorsey, uma das maiores de seu tempo. Um duelo lendário. Dorsey já era à época um deus das orquestras, bandleaderreconhecido mundialmente, um dos maiores nomes do jazze da música para dançar. Cada um deveria interpretar uma peça musical. Dorsey reuniu seus rapazes e, cheios de si, atacaram com “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. Um dos nossos hinos nacionais. Nos ensaios, já dava para se ver que era o estilo brilhante de Dorsey. Severino reuniu sua orquestra e escolheu interpretar “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin, clássico americano, clássico do jazz, clássico universal. Quando Tommy Dorsey ouviu os primeiros sons da orquestra de Severino Araújo para a composição ficou surpreso. Severino tinha feito uma combinação de jazzcom samba absolutamente extraordinária, dando um ritmo brasileiro à música tão associada à cultura americana. Dorsey ficou entusiasmado com o talento do colega e o parabenizou, impressionado.

Outro bom exemplo como, na prática, o jazzse misturou aos ritmos brasileiros é o do saxofonista Luiz Americano. O sergipano foi o primeiro a chegar ao Rio de Janeiro vindo “do norte”, em 1921, e logo depois já estava tocando na principal gravadora da época, a Odeon. Em 1928, Luiz fez temporada na Argentina tocando no conjunto do baterista americano Gordon Stretton, um pioneiro do jazz. K-Ximbinho também, que era colega de Severino Araújo na Orquestra Tabajara, foi um mestre em harmonia e na fusão entre os ritmos brasileiros e o jazz, principalmente o choro.

Este é o segundo trabalho de Leo Gandelman com o objetivo de resgatar o trabalho de nossos músicos pioneiros, um verdadeiro mapeamento do sax em nossa cultura. O primeiro foi “Radamés e o sax”, de 2006, que enfocava a obra do brilhante maestro Radamés Gnatalli.

Em seu novo disco, você resgata um grupo importante de saxofonistas nordestinos que enriqueceram a música brasileira e que foram enriquecidos pelo jazz. Como esses músicos foram influenciados pelo ritmo americano?

Foram influenciados por ventos musicais que sopraram da América do Norte em direção ao Brasil. Através de pesquisas e depoimentos de figuras importantes como Severino Araújo e K-Ximbinho, a música norte-americana, ouvida nas cidades do Nordeste pelas ondas curtas do rádio e depois pelas bandas militares que atuavam nas bases que os Estados Unidos construíram no litoral nordestino, às vésperas da Segunda Grande Guerra, marcaram muito fortemente na formação desses músicos e ajudaram a misturar elementos do choro, do jazze do frevo.

 

Para quem toca saxofone, sofrer a influência do jazz parece natural. O instrumento é muito usado nas composições jazzísticas. Mas qual o tamanho da influência do jazz americano na música brasileira como um todo?

A sonoridade do sax ficou muito associada ao jazz, mas, na verdade, a nossa música tem uma sonoridade mais ampla, rica, muito diferente. A contribuição do jazzhoje é muito grande em todas as linguagens da nossa música popular, sobretudo no que diz respeito à arte do improviso, maior legado desse estilo musical e dessa cultura musical.

Acha possível produzir música brasileira legítima, de qualidade, mesmo influenciado por um ritmo tão marcante e identificado com a cultura americana quanto o jazz?

Com certeza existe hoje uma música genuinamente brasileira e de grande qualidade, com reconhecimento mundial, e que tem vida e características absolutamente próprias. Nossa música hoje é o maior produto de exportação cultural do país!

 

Que vento do norte foi mais forte, o vento que soprou das orquestras americanas ou o que soprou trazido pelos virtuoses nordestinos que tivemos?

“Ventos do Norte” é, sem dúvida alguma, uma homenagem aos músicos e compositores virtuoses nordestinos, que contribuíram de forma definitiva com a construção de uma linguagem própria para o sax brasileiro.

 

A música brasileira deve agradecer também ao jazz – e não só à modinha portuguesa, ao tango e aos ritmos europeus – por sua riqueza? Por causa do improviso ou algo mais?

Sim, nossa música deve agradecer a todos os estilos acima citados e também ao jazzpelos ventos que trouxeram inspiração musical para o Brasil. Com certeza, o improviso é um elemento importante, mas outros elementos, como harmonia e suingue, também contam. Mas o jazztem muito a agradecer também à musica brasileira por toda a inspiração que os “ventos do sul” têm levado para o norte.

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