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Soy Contra!

O corpo perfeito sempre me fugiu. Não que eu tenha ido atrás dele em algum momento da vida. Não é isso. Porém, olhando os seminus espalhados por aí, nas fotos pós-férias escolares, olho para a barriga, agora bancada para o notebook, e constato que minha carcaça nunca acompanhou os padrões estipulados por idade, moda e estilo, em tempo algum, independente de minhas vontades, alheio a qualquer esforço que eu poderia ter feito para assim, digamos, me encaixar no (des)figurino desses tempos em que o verbo sarar deixou de sobrepujar a doença  para recair como luva nos supersaudáveis adeptos das academias - não as de letras, evidente.

Naquele já esquecido sábado gordo de carnaval de 1979, nasci um fiapo esmirrado, quando a expectativa era a de que entrasse em casa um bebezinho balofo. Pesando um quase nada, me acomodaram no berçário ao lado dos nenês fofinhos. Sete dias depois, na minha camisinha de pagão vermelha, saia à rua todo prosa para enfrentar o disse-me-disse. Mamãe, nem aí, apertava minhas raras bochechas e seguíamos quebrando padrões por aí.

Passados os apertos iniciais, minha fome primitiva (minha amiga inseparável até hoje) logo transformou aquele filhote de camundongo em uma criança forte, embora um tanto retraída. Talvez minha demora a andar e minha timidez tenham provocado um acúmulo na região equatorial e virei, literalmente, um menino do buchão, com aquele abdômen saliente escapando por baixo da camisa, condição só dirimida na adolescência.

Com alguma natação e muitas noites em claro sonhando com as primeiras musas, a forma “redondolínea” deu lugar um crescimento veloz em que os ossos foram mais audazes que toda a banha acumulada na área central. Aos 13 anos, era eu um varapau medonho, ainda aprendendo a me equilibrar naquele quase um metro e oitenta, que já chegava como minha altura final. Voltava eu ao estágio de finura do princípio em má hora, porque a época pedia um pouco mais de recheio para aplacar o acanhamento e não fazer feio com as meninas.

Nossos heróis da época eram todos exageradamente musculosos. Stallone e Schwarzenegger que o digam. E eu ali nadando e espichando e criando espinhas cada vez mais longe do que diziam ser bonito na época, com meu corpo dando forma ao estranho adolescente que fui. Nem tentei me enquadrar e, quando percebi, uma moça, das bonitas que eu olhava de longe, disse que eu estava “diferente”.  Já eram os 20 e poucos anos trazendo os lipídios de volta com minha nova rotina, agora de universitário.

Talvez tenham se passado uns dois ou três anos, no máximo, em que não fui nem muito magro, nem muito gordo, nem estomagudo, nem torto como um açaizeiro, nem parecido com um E.T.  e, de lambuja, tenha testemunhado a surpresa das moçoilas ao dizerem “você até que deu uma melhorada, ganhando esses dez quilos”.

Logo a correria do trabalho, o sedentarismo e a ingestão de muito tira-gosto e algumas garrafas de cerveja foram moldando a forma atual, novamente redondo, meio cadeirudo e com a barriga multiuso (mesa para computador portátil e suporte de bloquinho de notas). A história fisiológica de meu corpo é uma eterna oposição ao status quo do nascimento até hoje, quando me convidam para treinar e minha barriga comunista, com personalidade própria, fala por mim: “soy contra!”. E seguimos aos acepipes e bebericagens, que não estamos para brincadeira. E a luta continua.

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