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Trabalhar por prazer e vice-versa

No início da década de 70, os irmãos José de Lima Sobrinho e Durval Lima estavam prestes a desistir da ideia de transformar a paixão pela música em ganha-pão. De família humilde e nascidos no interior do Paraná, eles tocavam suas músicas onde podiam pela noite, em qualquer lugar onde quisessem ouvi-los, e durante o dia, se revezavam em “bicos” para conseguir pagar as contas que não paravam de chegar. Muito esforço e pouco retorno fizeram com que eles chegassem à conclusão, dentro do carro, a caminho de casa depois de mais um show muitíssimo mal pago, em 1975, de que era a hora de deixar para trás o sonho e encarar a amarga realidade do emprego de 8h às 18h para bancar as necessidades que a vida lhes exigia. Eis que o radinho do mequetrefe veículo lhes presenteia com “Tente Outra Vez”, de Raul Seixas, e uma coragem de insistir mais um pouquinho. Ainda demorou, mas em 1982, “Fio de Cabelo” era sucesso nacional e a dupla, que resolvera adotar o nome artístico de Chitãozinho & Xororó, entrava de vez para a história da Música Brasileira como uma das duplas sertanejas mais bem-sucedidas do país – até hoje.

Fazer da diversão, do hobby, daquilo que se chama de lazer, um emprego, uma profissão, uma rentável fonte de renda, ora, quem não quer? Largar o paletó, o uniforme e fazer da folga um expediente indolor é o sonho de muitos. Difícil? Questão de sorte? Dedicação extrema? Talvez sim, talvez não. Talvez tudo isso junto. Mas uma coisa é certa: é possível, sim. E tem mais gente que trocou o, digamos, “certo pelo duvidoso”, e acertou na escolha, do que a gente imagina. Que trocou a cadeira de dentista pelo palco, a bandeja pela máquina fotográfica e, olha só, os códigos legais pela fantasia de um dos maiores ícones da música mundial.

O advogado Hely Jr. se formou em Direito no meio da década de 90, aos 22 anos – e no mesmo ano em que deu vazão, pela primeira vez, e em frente a um grande público, ao seu desejo de homenagear seu maior ídolo: Elvis Presley. “O primeiro show, em 1995, já foi pra muita gente e com um retorno de público que surpreendeu. E eu ainda nem me caracterizava de Elvis; eu homenageava o estilo, na verdade, dos cantores dos anos 50, 60. Por estar prestes a me formar, eu fazia, a partir desse show, um ou outro, a advocacia exigia um comprometimento meu que permitia apenas apresentações esporádicas. E foram oito anos assim”, recorda.

É difícil dizer que o Direito veio primeiro para Hely porque a admiração pelo cantor apareceu na infância, aos seis, sete anos de idade. “Vi aquela imagem na capa do LP e perguntei para minha mãe quem era. ‘É o Elvis Presley, meu filho’. E pedi para ela comprar pra mim. Chamou a atenção a roupa, a voz, a música. Lembro de mim, criança, me embalando na rede ao som dos LPs”, conta. Na adolescência veio com a ajuda de filmes, mais discos e documentários que o fizeram realmente conhecer Elvis Presley, passou a admirá-lo ainda mais. “Nessa altura eu já usava costeletas, as pessoas me diziam que eu parecia com ele”, lembra.

Os shows esporádicos que Hely conseguia fazer entre um caso e outro agradaram tanto que, by popular demand, o one night only passou a ser pouco. “Os convites começaram a aumentar, a agenda começou a encher e eu vi que era a hora de me dedicar a isso de forma mais profissional, então há dez anos eu escolhi viver isso intensamente”, explica. Hely Jr. se transformou então em Elvis da Amazônia, faz hoje cerca de quatro shows por semana em Belém – em locais fixos, e ainda em eventos fechados –, tem no currículo apresentações em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão e chegou até a participar de um concurso de sósias do Rei do Rock promovido pelo programa global Altas Horas, comandado por Serginho Groismann. “Tenho shows agendados até o ano que vem, fazer o Elvis me dá um excelente retorno”, admite.

O segredo do sucesso Hely credita não só ao fato de ser muito fã, mas também ao respeito enorme que tem pela pessoa, e não só pelo artista que foi o cantor. “Eu não sou caricato. No palco eu faço um tributo, uma homenagem. Sou fã do ser humano que ele era, e também por isso eu profissionalizei ao máximo. Os shows têm um formato fechado, com banda, com caracterização. Não tem desfile, não tem ninguém cantando junto, eu faço questão de manter o formato. Deu certo por isso, eu acho, e também por eu achar que ser capaz de interpretá-lo é um dom que Deus me deu”, analisa.

Engana-se quem acha que, apesar da agenda lotada, a advocacia ficou de lado. “Eu tenho o meu escritório, meus investimentos. Não me arrependo de ter passado oito anos para priorizar o Elvis, pelo contrário, me considero um privilegiado por ter duas profissões que eu gosto muito e que consegui abraçar. Mas o Elvis é o meu carro-chefe, eu não consigo ainda me ver longe dos palcos”, confirma Hely.

No caso da cantora e compositora Sandra Duailibe, independente da escolha profissional, a música também chegou primeiro. Nascida no Maranhão (e em berço artístico, o que a ajudou a compor uma formação musical ainda bem jovem), veio morar em Belém, onde a Odontologia apareceu como escolha por afinidade e desejo de uma vida organizada, economicamente falando, principalmente. “E deu certo! Tanto que, depois de me graduar pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e passar oito anos exercendo a profissão em Brasília (DF), me organizei financeiramente para poder me dedicar exclusivamente à música, sem ter que fazer do canto um sacrifício. Isso foi fundamental pra mim, pois consigo realizar o sonho de cantar o que quero, sem me preocupar com a venda da minha arte. Meu público é seleto e me dá o que preciso para prosseguir. É uma troca, repleta de emoção”, detalha.

Depois de morar nos EUA, voltar para morar no Rio de Janeiro (onde está até hoje) e ter bem-sucedidas experiências como empresária, Sandra decidiu, em 2005, fazer da música o seu projeto de vida. De lá para cá, já são quatro discos gravados. “Entendo que nada seja definitivo na vida, mas também confesso que nada é tão prazeroso para mim como cantar, interpretar. Sendo assim, acredito que, mesmo que eu desenvolva outras atividades, a música permanecerá na minha vida, à frente de tudo. Digo, ainda, que já estabeleci um compromisso com meus fãs, e isso é muito forte, é fortíssimo”, garante. “Eu repetiria meu trajeto de vida, pois precisava amadurecer, viver, para chegar onde estou agora. Não sinto falta de nada do passado. Trago a experiência vivida pro presente e aplico o conhecimento adquirido no meu dia a dia. Ao perceber que cantar é um dom e que eu recebi essa graça, libertei-me das amarras formais dessa vida para me entregar à música, estabelecendo essa troca entre meu palco (eu e minha banda) e minha plateia. É pura energia feliz!”, comemora a cantora.

Sabe o cara que está no local certo na hora certa? Foi mais ou menos assim com Gitano Lima, que há nove anos empunhou a máquina fotográfica nas mãos e não largou mais. Antes disso, um tio proprietário de um pequeno jornal já lhe confiava ainda os modelos analógicos para um serviço ou outro. Gitano fazia, mas sem vislumbrar nada adiante. “Achava que não tinha talento pra isso”, justifica. “Eu estava trabalhando como garçom uma época e perto do trabalho tinha um estúdio, deixei o currículo lá, mas para trabalhar com slides de imagens. Só que um dia faltou fotógrafo e o patrão resolveu me testar. Deu tudo certo e minha carreira começou”, resume.

O gostar do ofício foi descoberto aos poucos, em meio à labuta. “Tinha época em que eu fotografava mais de um casamento por dia. E descobri que eu não só tinha habilidade, mas que eu também amava fazer aquilo. Meu emprego de garçom durou cinco anos, era algo temporário, só até aparecer uma oportunidade melhor, e posso dizer que eu quero fotografar até o último dia da minha vida”, confessa Gitano. “A fotografia apareceu na hora certa, quando eu já tinha um aprendizado comigo. Dois anos depois de eu começar a trabalhar só com isso, fiz faculdade e me tornei Tecnólogo em Design Gráfico, montei meu próprio estúdio. Estou sempre pesquisando, procurando inovar. Já fotografei na chuva, no meio da rua entre os carros. A ideia de poder fazer algo diferente, especial, a cada situação, a cada evento, me move, me desafia”, afirma o fotógrafo.

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