
Miguel Chikaoka, paulista, de Registro, estudou Engenharia na Universidade de Campinas e morou na cidade de Nancy, entre 1977 e 1979, onde frequentou a École Supérieure de Mécanique et Électricié... mas abandonou o curso e, em 1980, desembarcava em Belém, cidade escolhida por ele, para se instalar de vez. E desde então, daqui não mais saiu... influenciou uma geração de fotógrafos paraenses e do restante do país.
Aqui, ele enamorou-se da luz, sobre a qual fala constantemente ao longo desta entrevista e viveu uma experiência transcendental: a de sentir a força dos elementos. Apaixonou-se pelos movimentos das marés, pela singularidade da chuva (sim, porque aqui, “chove-se diferente”), pela energia do povo. Miguel Chikaoka é um amante de Belém e afirma ser uma “missão cuidar daqui”.
Decido iniciar a entrevista com uma brincadeira, considerando a agenda concorrida e as constantes viagens do nosso entrevistado, da sétima entrevista da série “Belém – 400 anos”, o fotógrafo Miguel Chikaoka.
Estás morando em Belém ou estás dividindo teu tempo com outra cidade?
Há 33 anos moro em Belém. Tenho viajado muito, mas continuo morando em Belém.
Depois que aqui chegaste, já pensaste em mudar?
Não deixo de pensar nesta possibilidade, mas é importante dizer que aqui é minha base, é onde me situo. É aqui - e a partir daqui - onde eu trabalho questões que me interessam, porque elas podem transcender os limites geográficos.
Então Belém continua sendo um cenário convidativo para ti...
Não teria ficado se não tivesse alguma “liga”, como dizem por aqui, alguma coisa mais forte que tenha me atraído. Belém tem aquele “algo mais”, aquela coisa que me chamou a me aprofundar, a meter o pé na lama, nas entranhas do lugar e mesmo nas minhas entranhas, porque tem também aquela coisa de ser uma viagem interior minha, não é só uma coisa de Belém para fora; e sim de Belém para dentro, por conta de uma história pessoal minha...
Quando olhas para Belém atualmente o que vês?
Eu preciso te dizer que sinto mais do que vejo. Eu sinto a mesma pulsação que senti quando cheguei aqui. Óbvio com toda uma mudança de cenário, sobretudo no urbano... de 1980 para hoje [ano em que Miguel chegou], são 33 anos em que a cidade cresceu enormemente, há uma outra realidade, problemas que não eram daquele tempo, outros que persistem. É importante dizer que eu sinto uma força, uma potência incrível neste lugar, que está sendo desperdiçada – mas aí é outra questão...
O que te encantou três décadas atrás e que não consegues enxergar?
Eu não diria só Belém, mas a região como um todo. Isso eu sinto até hoje: a força da natureza; da presença forte dos elementos: da luz; do fogo, portanto; da água, da terra, do cheiro... isso tudo me encanta até hoje. O que eu acho é que existe um mau trato disso tudo – mas isso não é privilégio ou particularidade só nossos; o mundo está doente. É um problema de todos nós, da humanidade.

Na tua opinião, como é possível resgatar a condição [para Belém] de cidade bem cuidada, de outrora, ou mesmo a de “metrópole da Amazônia”?
Olha... essa é uma questão que não me toca. A questão de querer “ser ou não ser” – a questão é se a gente “é ou não é”. Belém continua sendo para mim um lugar de potência incrível. O desenho urbano da cidade é feito por meio de ações múltiplas – sobretudo de educação, educação da população em geral, que também define essa construção coletiva. A discussão com Manaus, pelo “título”, me perdoem, é tola. Acredito que tenhamos de nos afirmar naquilo que somos e ponto.
O que te desagrada em Belém?
Muito se fala do abandono do poder público. Isso é real e me revolta. É preciso brigar por essa atenção. Mas eu acho também que nós, habitantes desta cidade, temos que ter compromisso com este lugar e de casa para fora: da calçada em diante, vivemos o espaço do coletivo – logo cabe a todo mundo cuidar disso. Mexe comigo, me toca mesmo, ouvir alguns discursos “revolucionários” e... o que você tem feito por sua cidade, efetivamente? Falemos do centro histórico. É muito comum ouvir que ele “está abandonado”. Okay, existe o abandono, mas existem políticas de preservação, de cuidado, de valorização deste sítio – que pertence a todos –, mas há que se dizer que nós abandonamos este local. Moro na Campina, “colado” praticamente ao centro comercial. E a Fotoativa fica na Praça das Mercês – ou seja, também neste entorno. E sabe o que eu acho? Que a gente precisa ter um pouco mais de coragem para ocupar esses espaços, de alguma forma. Não falo só de morar, mas que poderíamos, juntamente com outras instâncias da sociedade civil, com o poder público ou com a iniciativa privada, ocupar esses espaços históricos, que vivem às moscas, de forma ordenada, planejada. Já pensou quão maravilhoso seria? Houve algumas ações que perderam continuidade. Sonho com isso.
Achas que a consciência da beleza pode mudar a cidade?
Beleza é um conceito muito subjetivo – o que é belo pra você, pode não ser pra mim. Logo, não entendo que a beleza carregue consigo essa função. Mas podemos falar de cuidado. Cuidado daquilo que permeia esta realidade, tanto da construção do homem, da estética... o que eu vejo é que Belém está repleta de referências que não são daqui. Claro que houve mudanças e mesmo alguns conceitos estão sendo resgatados: essa coisa de “Belém ter virado as costas para o rio” e hoje o rio volta à cena, porque é um lugar nosso.
Qual o lugar em Belém que mais te encanta?
Ah, difícil de responder... O que me move é a vibração, a pulsação do lugar...
...e o que pulsa no teu coração, quando pensas em Belém?
Ah, a natureza. Essa luz que temos aqui. É uma coisa absurda! Uma potência! A água, como ela chega aqui – essa chuva forte, essa água que “sobe e desce”. Eu nunca tinha visto isso na minha vida... a vida pulsa aqui e isso não é somente uma força de expressão, não. Às vezes eu paro e fico olhando, contemplando o espetáculo que é a chuva. Dia desses, para fazer um parêntese aqui, fui para Santa Catarina e fiquei contemplando a lagoa e... a água não se mexia (ele ri), não se mexeu por três dias. E pensei: isso reflete mesmo no estado de espírito daquelas pessoas. Talvez por isso, as pessoas aqui sejam mais agitadas (risos).
Qual o lugar de Belém onde gostas de estar?
(ele ri e responde) Neste momento? Na minha casa...
...que é onde menos tens passado tempo.
Por isso e porque é uma casa antiga, da qual estou cuidando, em processo de restauro – que é lento...
Tiveste algum tipo de incentivo?
Inscrevi no Monumenta, para fazer uma intervenção e tenho ainda a isenção do IPTU, que é uma batalha, porque a isenção não cobre o cuidado que você tem que ter na recuperação... talvez na manutenção, sim. Mas entendo que isso é uma missão e para ela eu me dedico, como aquela coisa do “cuidar do jardim” da casa.... e eu tenho um quintal. Então é insistir e persistir para que a mudança ocorra onde a gente mora e em nosso entorno. Se tem uma coisa que eu adoro é passar o final de semana na minha casa porque a sensação que tenho é que estou no interior: é quando as crianças saem para brincar na rua e os vizinhos vão para as calçadas conversar...

Costumas convidar as pessoas a conhecer Belém?
Sim, sim. Costumo dizer que não consigo explicar o que é Belém. Tem que ver de perto. As pessoas que convidei e que vieram, ao chegar aqui, apagam um pouco daquela coisa negativa “de que ouviram falar”, do lixo, muita coisa mal cuidada... porque eles se encantam com o povo, o paraense é muito acolhedor, do cheiro, da comida típica... da força da natureza, que toca essas pessoas... Todos ficam encantados com o amanhecer na feira.
O que desejas para Belém, portanto, em mais um aniversário e até seus 400 anos?
Que nós, como habitantes desta cidade, fôssemos mais comprometidos com o coletivo. Que pudéssemos chegar aos 400 anos de Belém cuidando melhor dela – e isso é um cuidado constante e ininterrupto. E o grande investimento, que não é de retorno rápido, é um semear de longo percurso, para que possamos ver crescer e dar frutos: investir em educação. Educação de base.
Falando em educação, as crianças deveriam ter contato com o ensino da fotografia desde pequenas?
As crianças estão fotografando mais do que nunca porque têm acesso a inúmeros dispositivos desde muito cedo. A questão é outra e está na pauta do dia. Quando eu falo do lugar da fotografia, da imagem e da luz, que é sua matriz principal, o lugar de “ver, da imagem” não é bem explorado, bem trabalhado. Eu acho isso incrível, embora essa distorção não seja uma exclusividade de Belém, é do mundo. A própria evolução da fotografia até chegar ao que temos hoje, de obter o registro rápido, quase imediato, foi deixando de lado – nesse rastro – tudo que a fotografia, na sua origem, na sua gênese, tem: que é a questão da luz. A luz é um fenômeno físico, é um elemento que tem um simbolismo forte em várias culturas... e sua apropriação, sobretudo para a educação, é subutilizada. Acabei de chegar de uma conferência nacional de alternativas para uma nova educação e coloquei exatamente isso: por que os educadores não foram apresentados a essa possibilidade? Há algo equivocado nessa formação quando não utilizamos os elementos vitais nessa formação. Eu não sou contra introduzir o ensino da fotografia em um dado momento, mas eu acho que colocar isso à frente daquilo que potencialmente se tem antes disso, significa você estreitar as possibilidades do que essa atividade pode carregar como lugar que pode ser trabalhado de maneira expandida e conectando outros níveis de conhecimento: porque quando falamos de luz, de espiritualidade, de conhecimento, de evolução.
